CAPÍTULO 03 - Precisamos falar sobre Desigualdades Sociais e favelas no Brasil - Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
Em 1966, estava com 6 anos de idade, e no Bairro da Serra, para onde minha família se mudou em 1965. A família migrou de Pedreiras, no Maranhão para Belo Horizonte. Minha mãe e pai, escolheram morar no Bairro da Serra, porque vinham de uma tradição de classe média, e queriam morar em um lugar que tivesse o perfil sócio econômico da família.
O Bairro da Serra, em 1966, tem suas peculiaridade, é o próprio retrato do Brasil, marcado pela dialética Casa Grande x Senzala, riqueza x pobreza, opressor x oprimido. Encontramos nesse bairro construções da classe alta, em contraste com as moradias e ocupações de populações excluídas. È também no Bairro da Serra que encontramos o Aglomerado da Serra, o maior conjunto de favelas de Belo Horizonte.
Me reporto ao tema das favelas e desigualdades sociais em minha biografia, devido à estes elementos sociológicos terem estado muito presente em minha infância, onde pude conviver com 5 favelas: A favela Vila Santa Izabel, Pindura Saia, Aglomerado da Serra, do Pombal, e Nossa Senhora de Copacabana, todas situadas no Bairro de classe alta e média da Serra, em Belo Horizonte.
SAMBA EU CANTO ASSIM
Favelas, Bairro da Serra, 1967.
Falar de favela é falar de samba. O samba é a música da favela. As favelas no Brasil são consideradas como uma consequência da desigualdade social, má distribuição de renda, e do déficit habitacional no país, que atinge principalmente negros e indígenas.
A expulsão e migração da população rural para o espaço urbano em busca de trabalho, nem sempre bem remunerado, aliada à histórica dificuldade do poder público em criar políticas sociais adequadas de acolhimento, são fatores que têm levado ao crescimento das favelas.
No final do século XIX, os primeiros assentamentos eram chamados de "bairros africanos". Estes eram os lugares onde ex-escravos ( negros e indígenas) sem terras e sem opções de trabalho iam morar.
O samba é a música da favela. O samba é um gênero musical que surgiu no Brasil, no começo do século XX, e é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos símbolos do país. Essa expressão cultural é considerada patrimônio cultural imaterial brasileiro e surgiu nas comunidades de afro-brasileiros e indio descendentes. Sendo a Bossa nova apenas uma variação do samba.
DOIS NA BOSSA , JAIR RODRIGUES, ELIS REGINA, 1966
Tristeza, 1966.
Tristeza
Por favor vai embora
Minha alma que chora
Está vendo o meu fim
Fez do meu coração a sua moradia
Já é demais o meu penar
Quero voltar aquela vida de alegria
Quero de novo cantar
Lá, rá, lá, rá
Lá, rá, lá, rá, lá, rá, rá
Lá, rá, lá, rá, lá, rá, rá
Quero de novo cantar
[Enquanto A Tristeza Não Vem]
Por isso canta, canta
Nasceu uma rosa na favela
Canta, canta
Nasceu uma rosa na favela
[Carnaval]
Lê, lê, lê, a rainha do samba chegou
Lê, lê, lê, um batuque do nego enfezou
Lê, lê, lê, a rainha do samba chegou
Lê, lê, lê, um batuque do nego enfezou
[Não Me Diga Adeus]
Não, não me diga adeus (não, não)
Pense nos sofrimentos meus
Não, não, não me diga adeus (não, não)
Pense nos sofrimentos meus
Pense nos sofrimentos meus
POBRE MENINA, TÃO POBREZINHA, ELA MORA EM UM BARRACÃO
A música "Pobre Menina" de Leno e Lilian foi lançada no ano de 1966. Esta é uma versão brasileira (regravação) da(s) música(s):The McCoys - "Hang On Sloopy" (1965). Leno e Lílian era uma dupla de cantores que começou a se apresentar nos anos 1960 no programa Jovem Guarda. Era formada por Gileno Osório Wanderley de Azevedo (Natal, 25 de abril de 1949) e Sílvia Lília Barrie Knapp (Rio de Janeiro, 30 de março de 1948).
"Pobre Menina" de Leno e Lilian, 1966.
Em 1966, a dupla começou a se apresentar no programa Jovem Guarda e lançou o primeiro compacto com as canções "Pobre Menina" e "Devolva-me", naquele estilo musical - espécie de versão do rock e do iê-iê-iê no Brasil - com grande sucesso. O primeiro LP, gravado logo em seguida, incluía essas duas primeiras músicas e ainda "Eu Não Sabia Que Você Existia", outro sucesso.
Pobre menina, não tem ninguém
Pobre menina, não tem ninguém
Tão pobrezinha, ela mora em um barracão
E todo mundo quer magoar seu coração
A mim não me interessa quem sejam seu pais
Porque, pobre menina, eu te quero demais
Pobre menina, não tem ninguém
Pobre menina, não tem ninguém
Vive mal vestida em seu bairro a vagar
Em toda sua vida só tem feito chorar
Como num conto de fadas, nós vamos casar
Então toda a tristeza vai acabar, vai acabar
Pobre menina, não tem ninguém
Pobre menina, não tem ninguém
O fenômeno social e cultural das favelas sempre me fascinou, dos tempos de criança até hoje. Apesar de ter sido criado em um bairro de classe média, meu olhar sempre esteve voltado para as favelas próximas à minha casa. O samba, chegava através da voz do povo, e nas ondas de rádio espalhadas pelos bares, mercearias e no rádio de minha avó.
Em 1966, estava com 6 anos de idade, e morava no Bairro da Serra, para onde minha família se mudou. A família migrou de Pedreiras, no Maranhão para Belo Horizonte. Minha mãe e pai, escolheram morar no Bairro da Serra, porque vinham de uma tradição de classe média, e queriam morar em um lugar que tivesse o perfil sócio econômico da família.
O Bairro da Serra em 1966, tem suas peculiaridade, nesse bairro encontramos construções da classe alta, em contraste com as moradias e ocupações de populações excluídas.
Bairro da Serra,Belo Horizonte, 2000.
Bairro da Serra, no local onde está o rico clube Minas Tênis, em 1966 haviam duas comunidades ou favelas, a do Pombal ou Clube dos Caçadores, e Nossa Senhora de Copacabana, ambas de 1946, muito frequentadas por mim.
A primeira favela que tive contato foi a favela PIndura Saia, que ficava em plena Avenida Afonso Pena, até que foi relativamente removida devido a ampliação da referida avenida em 1970.
Favela Nossa Senhora de Copacabana, Rua Trifana, Bairro da Serra, 1946, aonde se situa agora o rico e branco clube Minas Tênis.
O Serra é um bairro nobre de classe média e classe média alta da Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Seu nome deriva do Córrego da Serra, com nascente no atual Parque das Mangabeiras, e atualmente canalizado, morto e transformado em esgoto urbano.
Pode-se dizer que a região da Serra foi a porta de entrada da cidade que hoje conhecemos como Belo Horizonte. A ocupação do bairro estava prevista no plano original de Aarão Reis.
O local seria destinado a chácaras, o que foi a ocupação principal até a década de 1920. A maior ocupação do bairro teve como impulso a construção do Colégio Sagrado Coração de Maria, inaugurado em 1930 com o nome Sacré Coeur de Marie. Outras importantes referências foram a criação do Olympico Club, em 1948, e do Minas II, na década de 1982.
As partes junto ao Mangabeiras, avenida Afonso Pena e avenida do Contorno são consideradas de classe alta, com maior presença de prédios de alto padrão, colégios particulares e comércio mais sofisticado. Já a parte mais próxima ao Aglomerado da Serra segue um padrão mais simples, de classe média, com ocupação quase exclusivamente residencial.
O bairro da Serra é uma região de contrastes em Belo Horizonte. Abriga empresas de grande porte, prédios e casas de alto padrão, excelentes escolas, possui dois dos melhores clubes da cidade, mas também é limítrofe à a maior favela da cidade, conhecida como aglomerado da Serra, formada por seis comunidades.
Uma curiosidade: no Aglomerado da Serra encontramos uma das rádios comunitárias mais antigas do Brasil a Rádio Favela, criada em 1981 e reconhecida hoje com uma das iniciativas mais importantes para que a sociedade do “asfalto” pudesse receber informações que vão além das páginas policiais dos jornais.
Como não poderia deixar de ser, a fé do povo mineiro representada fortemente no bairro da Serra, em 1936, foi fundada a Paróquia Santana, além da Paróquia São João Evangelista. Em 1961, a Igreja Evangélica da Confissão Luterana foi criada
A primeira favela que tive contato foi a favela Pindura Saia, que ficava em plena Avenida Afonso Pena, entre 1966, até que foi removida devido a ampliação da referida avenida em 1970.
Favela Pindura Saia, Belo Horizonte, 1967, fonte: Tatiana Soledade Delfanti Melo, 2012.
Favela Pindura Saia, Belo Horizonte, 1967, fonte: Tatiana Soledade Delfanti Melo, 2012.
Essa favela era, realmente fascinante. Situada a 3 quarteirões de minha casa, era de fácil acesso. A curiosidade infantil, me levava lá, aos 6 ou 7 anos de idade, ás vezes sozinho, às vezes em companhia de amigos, irmão, não me lembro, bem. O que me lembro de fato era da favela.
Havia um grande campo de futebol, e muita animação que atraia as pessoas.
Favela Pindura Saia, Avenida
Afonso Pena, fonte: Tatiana Soledade Delfanti Melo, 2012.
Avenida Afonso Pena, fonte: Tatiana Soledade Delfanti Melo, 2012,
Definitivamente, eu amava a favela; era um lugar muito animado, e com muita tristeza vi a grande avenida, moderna e rica, passar em cima de tudo e destruir aquele patrimônio cultural do Bairro da Serra e da cidade de Belo Horizonte. Até hoje me revolta a remoção das favelas do Pindura Saia e Pombal.
A favela do Pombal, delimitada pelas ruas Trifana, Oriente, Ivaí e Avenida Bandeirantes, com área total terreno superior a 34 mil m², só vim a conhecer e frequentar em 1973, quando fui estudar no Colégio Estadual da Serra, no Ensino Fundamental II. O colégio ficava em área nobre e rica da zona sul de Belo Horizonte (bairro das Mangabeiras) , mas ao lado da referida favela.
Na favela do Pombal conheci em 1974 Seu Aristides, Pai de minha catequista, da igreja de São João Evangelista, Ângela Eulália, moça negra maravilhosa, comunicativa, alegre, uma estrela Gospel, no universo católico. Walter, que estudava no colégio, me apresentou seu pai, que por sua vez me apresentou pela primeira vez o sambista Cartola. Luxo e riqueza.
Foto, autor e fonte desconhecida, me lembra muito a Favela do Pombal, Belo Horizonte, 1966.
Angenor de Oliveira, mais conhecido como Cartola (Rio de Janeiro, 11 de outubro de 1908 — Rio de Janeiro, 30 de novembro de 1980), foi um cantor, compositor, poeta e violonista brasileiro.
Tem como maiores sucessos as músicas As Rosas não Falam, O Mundo É um Moinho e Alvorada. Considerado por diversos músicos e críticos como o maior sambista da história da música brasileira,
Acontece
Cartola
Esquece nosso amor, vê se esquece
Porque tudo no mundo, acontece
E acontece que já não sei mais amar
Vai chorar, vai sofrer
E você não merece
Mas isso acontece
Acontece que meu coração ficou frio
E o nosso ninho de amor está vazio
Se eu ainda pudesse fingir que te amo
Ah, se eu pudesse
Mas não quero
Não devo fazê-lo
Isso não acontece
Alvorada
Cartola
Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
Ninguém sente dissabor
O sol colorindo é tão lindo, é tão lindo
E a natureza sorrindo, tingindo, tingindo
Você também me lembra a alvorada
Quando chega iluminando
Meus caminhos tão sem vida
E o que me resta é bem pouco
Quase nada, de que ir assim
Vagando numa estrada perdida
Alvorada
Alvorada lá no morro, que beleza
Ninguém chora, não há tristeza
1966, Desfavelização do Bairro da Serra.
A Partir de 1970, sob a administração do Prefeito Oswaldo Pieruccetti, foram realizadas as remoções de maior vulto na Pindura Saia, dirigidas pela recém criada Coordenação de Habitação de Interesse Social – CHISBEL, órgão vinculado à Prefeitura Municipal.
A CHISBEL planejava o total desfavelamento de Belo Horizonte, através de um convênio entre o BNH [Banco Nacional da Habitação e COHAB - MG [Companhia Habitacional do Estado de Minas Gerais], para “construção de moradias”. No entanto, a grande maioria das famílias removidas não foi atendida, foi muito mal atendida e removida para periferias pelos programas habitacionais do Estado.
Este foi o caso da família de melhor amigo da favela do Pombal, Walter, que, em 1982, recebeu uma baixa indenização para um terreno de altíssimo valor imobiliário e foi enxotado para o conjunto água branca, no município de Contagem.
Anos Católicos e Teologia da Libertação
As experiências com a desigualdade social e pobreza das favelas que frequentei na minha infância, associada à Ditadura militar, à teologia da libertação, pregada nas igrejas católicas, e a minha condição de negro, pobre e gay fizeram a mistura perfeita, para que me engajasse desde de muito novo no campo dos revoltados contra o sistema.
Com 6 anos de idade não se pode ser, necessariamente um revoltado, se é uma criança, exposta à várias situações sociais, sem formular ainda mentalmente um conceito sobre o contexto que vive. Nessa idade, a criança simplesmente vive, brinca, e vive o mundo.
Minha família, por parte de mãe era católica, na parte paterna, meu pai se dizia Espírita na linha da umbanda eclética, religião que minha mãe, simplesmente abominava, devido ao viés afro indígena e pouco católico.
Dos 5 anos aos 16 anos tive formação católica. Minha avó Silvina, sempre com o terço na mão, rezando noite e dia, fazendo novenas, trezenas e ladainhas.
Minha mãe sábado ou domingo sempre nas igrejas no bairro da Serra: Igreja de Santana, São João Evangelista, Dominicanos. Esse era o turismo religioso que ela fazia e a gente criança era obrigado a acompanhar, as terríveis, chatas e enfadonhas missas.
Para se preparar para a Primeira Comunhão, a criança cristã deveria aprender e compreender alguns dos princípios da Igreja, tais como os 10 Mandamentos, como acontece uma Celebração Religiosa (Missa), as principais Orações, os Mandamentos da Igreja e os 7 Sacramentos.
Este aprendizado eu adquiri na Catequese, um curso religioso oferecido pela igreja, no caso a São João Evangelista, no Bairro da Serra dirigida pelo Padre Tarcísio Machado Rocha.
Na Igreja de São João Evangelista tive os primeiros contatos com a teologia da libertação, pois durante a catequese, dos 5 aos 10 anos tinha que ouvir os sermões do padre. Entre os 10 aos 16 anos frequentei a Sociedade de Jovens da Serra (SJS) , onde íamos fazer trabalhos pastorais na favela, levar a mensagem de cristo aos pobres. Foi aos 11 anos que comecei a sentir um Crush pelo padre, mas não deu em nada.
Dessa fase me lembro do violão, das músicas, do pão com Ki Suco, que distribuímos aos favelados, e a gente também comia e tomava.
Padre Tarcísio Machado Rocha – 1º Pároco da Paróquia de São João Evangelista (1961/1998).
Ao que me consta na época tanto o padre Tarcísio, quanto os padres Dominicanos andavam envolvidos com a teologia da libertação, e eram taxados de comunistas, principalmente os Dominicanos. Me lembro bem de uma pichação no muro do convento chamando-os de comunistas.
A teologia da libertação é uma corrente teológica cristã nascida na América Latina, depois do Concílio Vaticano II e da Conferência de Medellín, que parte da premissa de que o Evangelho exige a opção preferencial pelos pobres e especifica que a teologia, para concretizar essa opção, deve usar também as ciências humanas e sociais para conectar a fé à prática social libertadora.
Refresco Ki Suco, Brasil, 1960
Uma criança de 06 anos, em 1966, naturalmente, não vai conseguir entender a complexidade do mundo que a cerca, as políticas sociais, culturais e econômicas nas quais esta mergulhada, mas vai sofrer as consequências e identificar muitos traços dessa complexidade, que mais tarde ficarão mais claras em sua cabeça.
A essência dos meus 6 anos se resume, à mudança de endereço na cidade de Belo Horizonte, indo para a o apartamento próprio. O início da amizade e romance com meu amigo Roberto, de mesma idade e o conhecimento de novos amigos no bairro e no prédio.
O ar da Ditadura Militar que estava presente em todo lugar. Os primeiros contatos com o lugar social das favelas. O início da escolarização. Percepção dos conflitos conjugais de meus pais. A presença constante da igreja através de missas, catequese, e vida religiosa dentro do lar.
















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