CAPÍTULO 07 – JUVENTUDE LGBT+, ANOS 70\80, EM BELO HORIZONTE – Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
CAPÍTULO 07 – JUVENTUDE LGBT+, ANOS 70\80, EM BELO HORIZONTE – Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
1974 ou 75, estudava no Colégio Estadual do bairro da Serra, em Belo Horizonte, também conhecido com Pedro Aleixo, figura política mineira, da ditadura militar, ligada à educação.
Tudo era novidade, no ensino fundamental II, talvez porque estava deixando de ser criança e me tornando um gay jovem, com suas funções emocionais e sexuais prontas para atuar.
Por felicidade, ou infelicidade, na escola topei com um rapaz negro, que todas vezes que me, via me chamava de mulherzinha, querendo me revelar e revelar a todos da escola que eu era gay.
Eu já sabia e aceitava que era gay, então não havia problemas para enfrentar o bullying escolar e social. O bullying consiste em ameaçar ou intimidar alguém; humilhar por qualquer motivo; excluir; discriminar por cor, raça ou sexo; falar mal sem motivos, etc.
Agressões verbais são mais comuns do que agressões físicas e, na escola, elas ocorriam com bastante frequência. Como o menino não parava com a perseguição, chamei ele para uma conversa. Simplesmente perguntei por que ele fazia aquilo comigo ? Foi uma simples pergunta, mas depois daquela pergunta nos tornamos “Best Friends”.
Nascia naquele momento uma grande amizade que durou anos, eramos gays e precisávamos estar juntos contra o inimigo comum. Posteriormente, Valter, o nome dele, se tornou travesti, já em idade adulta. Foi um guerreiro ele, ou como se deve dizer hoje, foi uma guerreira ela.
Estadual Serra ou Pedro Aleixo, Belo Horizonte, 1974\75.
Em 1974 estudei à tarde, no Colégio Estadual da Serra, já em 75 me transferiram para a manhã. Olhando assim, rapidamente para 1975, parece ter sido um ano tranquilo em minha vida, mas quando vou analisar à fundo, vejo que foi uma época de desafios terríveis.
A descoberta do sexo adulto, para mim, foi um choque. De repente meu corpo se modificava, eu perdia as características infantis e as características sexuais maduras apareciam. As pernas ficaram cabeludas, um bigode ralo em aparece na cara, os pelos pubianos se faziam presentes.
Ao olhar meu corpo a impressão que tinha era que estava deixando de ser um anjo e me transformando num monstro, lobisomem. Até ai tudo bem, mas, um dia você começa a sentir uma terrível culpa, a culpa de Eva e Adão, a culpa do desejo e do prazer proibido, a culpa da masturbação, na linguagem da molecada, a famosa punheta.
Filme pornochanchada, Os Canalhas, Belo Horizonte, um dos climas culturais da ditadura militar,1975.
Com 15 anos, ou adolescência, a menina tem sua primeira menstruação, e se torna uma moça, já o menino tem sua primeira ejaculação e se torna rapaz. Esse é o rito de passagem da fase infantil, para a fase jovem.
O assunto da rua, entre os meninos era a masturbação, eu ouvia os relatos, mas não sabia o que era, nem eles, os mais experientes ou velhos, ensinavam a técnica. O assunto era recorrente, o papo do dia, todo dia a mesma história.
Outra via de informação e educação sexual eram as famosas revistinhas de sexo, vendidas nas bancas, embora dirigidas para maiores de idade, eram vendidas para menores e circulavam entre eles.
Revistas Quadrinhos Sexo Catecismo de Estudante, 1970.
Então em 1975, com 15 anos, entrei no banheiro, me tranquei, e pensei vou ver o que é a tal masturbação. A princípio, parecia uma coisa mecânica, chata, repetitiva e sem sentido, realmente, sem graça nenhuma. Dessa forma, quase parei o exercício masturbatório, Até que veio o momento mágico.
De repente, difícil descrever, inclusive porque nesta data não havia tomado nenhuma droga, nem álcool. Enfim, resumindo, o resultado da punheta, foi a saída de um líquido branco, acompanhado, de uma profundo prazer corporal e relaxamento, como se tivesse bebido álcool.
Se o resultado da punheta tenha sido muito positivo, as consequências psicológicas foram péssimas. Após o gozo, veio uma terrível sensação de culpa. A velha culpa cristã, que aprendemos na vida e na igreja, a culpa do prazer, a culpa por comer o fruto proibido, a culpa por pecar, a culpa do sexo.
Prometi a mim nunca mais repetir aquele ato pecaminoso. Doce ilusão, no outro dia, estava lá, no banheiro, trancado, repetindo o pecado, reforçando o vício na droga do sexo e sentido a culpa do prazer.
Pela falta do pai, com 15 anos, perguntava a minha mãe algumas questões relativas ao sexo, ela como mulher dos anos 50, relativamente informada sobre a ciência, me dava as informações técnicas. Mas algumas coisas, digamos assim, são mais complicadas de se perguntar. Então o médico para essas situações e o bate papo com a molecada da rua.
Conversando com meu amigo gay Beto, ele me indicou um livro de seu pai, que foi minha bíblia sexual, por muito tempo: A nossa vida sexual.
A Nossa Vida Sexual - Dr. Fritz Kahn – 1950.
A Nossa Vida Sexual - Dr. Fritz Kahn – 1950.
Este livro, bem “científico” e cheio de preconceitos machistas , me ajudou muito, a simplificar minha vida sexual, embora psicologicamente a culpa, tenha continuado.
A masturbação ou punheta se tornou um rito de prazer, culpa e dor em minha vida. Todo dia, no banheiro da emprega, ia bater minha punheta. O banheiro da empregada amenizava o pecado de fazer o ato no banheiro familiar.
Outro papo dos moleques, com 15 anos, eram sobre mulheres. Todos abandonando brincadeiras sexuais com meninos e se encaminhando para garotas. Que vida difícil, pensei, após vencer o obstáculo do édipo familiar, e do prazer solitário da punheta, agora tinha um novo desafio, arranjar mulheres, uma namorada.
Celso, meu namorado de infância, foi buscar mulheres. Beto, meu primeiro namorado, já não me satisfazia tanto, Tuca e Zé eram amores impossíveis, outros rapazes, ainda não se apresentavam no radar, só me restava procurar mulheres para namorar. Mulheres, logo esse objeto de amor que tanto me deram problemas, na figura de minha mãe e irmã.
Como procurar satisfação em mulheres, quando já tinha tido experiências péssimas com estes objetos ??? A norma sexual social heterossexual, a cartilha dos moleques e o livro do Dr. Fritz Kahn, me apontavam que as mulheres eram o caminho, quem tivesse outros desejos, ficavam sem resposta, pois o tema da homossexualidade e diversidade era proibido, criminalizado, patologizado, era tabu.
Entre, 1974, 75, 76, eram famosos os Bailes Black na Escola Estadual da Serra, onde haviam dois momentos: o da música para dançar separado, mais agitada, e as músicas românticas, chamadas de lentas, onde se dançava junto. Na hora de dançar junto era meu momento de pânico, pois precisava encontrar um par feminino.
Little Anthony And The Imperials, 1976.
I'm Falling In Love With You, 1976.
I'm Falling In Love With You
When you see me once
Will you see me again ?
After tonight
Lets be more than just friends
Cause i'm falling in love with you
Cause i'm falling in love with you
If you kiss me now
Will you kiss me again ?
After tonight
Lets try to make it begin
I've never been in love before
And i've just got to know the story
If you know how i feel
Then say you will
And lets love, love, love
And lets love, love, love
O amor, os afetos, em princípio parecem ser coisas tão maravilhosas, mas também escondem dores, angustias e situações opressivas, um verdadeiro tormento da alma. Sentimentos de recusa e resistência ao amor, é o que diz a canção de 1975, do grupo 10cc , “I’am Not In Love”, tema das baladas românticas da Escola Estadual do bairro da Serra.
10cc , I’am Not In Love, 1975.
Nas músicas lentas românticas, nasciam os namoros, quem sabe até casamentos. Por pressão social e cultural me via obrigado a me relacionar com mulheres de novo.
Minha primeira namorada Selma, que conheci na escola, nos bailes românticos, foi um desastre. Depois tentei com uma empregada do prédio, que morava na comunidade do Pombal, no bairro da Serra, não passamos do primeiro beijo. Definitivamente, nesta época estava escolhendo minha orientação sexual e afetiva. E esta orientação era contrária a da sociedade.
Embora a sociedade seja formada por vários contextos políticos, sociais, econômicos, culturais, ambientais. Na adolescência tudo parece girar em torno do jovem, é como se ele voltasse à fase egocêntrica, na qual ele acha que é o centro do mundo. Nessa fase, a criança ainda não aprendeu a se colocar no lugar do outro, e então só enxerga o mundo de um único ponto de vista: o dela.
Sobre o egocentrismo adolescente, me lembro, depois de ouvir muito uma canção romântica, no rádio, pedi dinheiro à minha mãe e fui à Lojas Americanas em Belo Horizonte, comprar o famoso disco compacto. Comprei o disco compacto, porque não tinha dinheiro para comprar o LP, long Play. Comprei o disco de Michael Jackson, “One day in your life”.
Como as aulas de inglês do professor John Borten, na escola, não permitiam ainda ler frases completas, fui perguntar para minha mãe o que significava “One day in your life”, ela disse: Um dia na sua vida. Explicou, mas não informou. O que eu queria saber era o sentido da música, que tanto me fascinava. Ela deveria ter dito: a música fala que o amor , um dia, o amor vai chegar na sua vida.
Michael Jackson, one day in your life,1975.
One Day In Your Life
Michael Jackson. 1975.
One day in your life
You'll remember a place
Someone touching your face
You'll come back and you'll look around, you'll
One day in your life
You'll remember the love you found here
You'll remember me somehow
Though you don't need me now
I will stay in your heart
And when things fall apart
You'll remember one day
One day in your life
When you find that you're always waiting
For a love we used to share
Just call my name, and I'll be there
You'll remember me somehow
Though you don't need me now
I will stay in your heart
And when things fall apart
You'll remember one day
One day in your life
When you find that you're always lonely
For a love we used to share
Just call my name, and I'll be there
Por essa época de 75, minha irmã Ana, também, estava na sua conturbada adolescência. Era como na música de Luís Gonzaga, Xote das meninas, de 1953, ela só pensava em namorar:
De manhã cedo já tá pintada
Só vive suspirando, sonhando acordada
O pai leva ao dotô a filha adoentada
Não come, nem estuda
Não dorme, não quer nada
Por essa época, já não ouvíamos música na vitrolinha de criança, já estávamos usando a radiola da sala, bem mais potente. Nessa época, também Ana, a irmã, me chega em casa com um disco de Fagner, “Manera Fru Fru Manera ou O Último Pau de Arara”, 1973.
Fagner, “Manera Fru Fru Manera ou O Último Pau de Arara”, 1973.
Ana, não satisfeita, em ouvir esse disco, noite e dia, um belo dia, resolve tentar se matar. Tomou uma lata de veneno para baratas, o famoso Detefon.
O resultado de tudo isso foi uma corrida ao Hospital Evangélico do Bairro da Serra, onde foi socorrida. Felizmente, não morreu. A vida acidentada dessa minha irmã, valia um livro.
Sempre independente, arrogante e depressiva, minha irmã acabou morrendo em um mega depressão, com alcoolismo, após a morte da mãe, em 1991.
Nesta mesma época, meu irmão Alfredo começa a usar maconha, como estávamos em plena ditadura militar e era proibido fumar, como dizia a música de Roberto Carlos, ele foi parar no DOPS, como militante , subversivo político e negro.
O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi um órgão de repressão brasileiro utilizado principalmente durante a Ditadura Militar (1964 à 1985).
Um lugar fortuito, escondido, para os gays se encontrarem, na década de 70, em Belo Horizonte, era o Parque Municipal, à noite.
Quando fui transferido para estudar à noite, tinha o hábito de ir ao parque passar a madrugada em aventuras sexuais e amorosas com gays, e num desses dias a policia me pegou e me fichou como vadiagem, bandidagem, viadagem, sei la. Entrava para as fichas criminais da ditadura. Negro, homossexual, pobre, só podia ser bandido mesmo.
Enquanto meu irmão Alfredo, se envolvia com maconha, eu e Ana começamos a experimentar o álcool, como droga. Antônio, o irmão mais novo, pela idade, não estava envolvido na onda do sexo, drogas e rock and roll. No meu caso, a experiência com álcool, nasceu aos 15 anos, numa festa de crianças.
Dr. Novaes, nosso vizinho, comemorava mais um aniversário de Bebel, sua filha criança, estava lá eu, tomando meu velho e bom Guarana Champanhe Antártica. O engenheiro, Dr. Novaes, me aborda e me pergunta quantos anos eu tenho, respondo que 15, ele retruca, então já pode começar a beber. Trouxe para mim um copo de Whisky.
Ao tomar o tal Whisky, foi igual ou melhor que ter batido uma punheta, com sensação maravilhosa e euforia, e relaxamento, que bebida perfeita, pensei. Começa aí um abismo que iria trilhar na minha vida.
A cultura jovem explodia em nossos corpos e mentes. Sexo, drogas e rock and roll. Minha irmã Ana, gostava de Heavy Metal, Alfredo, Hard Rock, e eu mais bichinha romântica, gostava das baladas românticas americanas, da músIca, na nascente Era Disco, da música popular brasileira e das breguices populares que tocavam no rádio e na televisão.
Uma música, em 1975, marcou os três filhos rebeldes da família, “Ovelha Negra”, de Rita Lee.
Ovelha Negra
Rita Lee, 1975.
Levava uma vida sossegada
Gostava de sombra e água fresca
Meu Deus, quanto tempo eu passei
Sem saber
Foi quando meu pai me disse
Filha, você é a ovelha negra da família
Agora é hora de você assumir e sumir
Baby, baby
Não adianta chamar
Quando alguém está perdido
Procurando se encontrar
Baby, baby
Não vale a pena esperar, oh não
Tire isso da cabeça
E ponha o resto no lugar
Não sabíamos muito o que estávamos fazendo, como se diz, estávamos navegando na onda da cultura. No caso, a geração de 70 estava viajando na contra cultura.
O principal objetivo da contracultura era se opor às normas e padrões estabelecidos pela sociedade dos anos 50 e 60, , que sempre aprisionou os hábitos, costumes, valores e tradições, aos valores de uma cultura ditatorial. Então , se sexo drogas e rock and roll libertam e contestam a opressão, que sejam bem vindos, ainda que suas consequências possam ser não só positivas
Estamos no ano de 1975, auge da ditadura militar, minha família era de classe média baixa, e todo o contexto sócio econômico decorrente desta posição social de classe. Hoje olhando para trás vejo que tínhamos pequenos luxos, como comprar discos ou LP, ou long play de vinil. Numa dessas visitas às lojas de discos acabei comprando, claro com dinheiro de minha mãe, um LP do grupo de música POP, pré era disco: KC and the Sunshine Band.
Ao chegar em casa, foi aquele xarope de adolescente, ou seja ouvir a música (That's the Way (I Like It) até furar o disco, além de mega dançante, o disco era um convite à se soltar, e me soltei tanto ouvindo KC and the Sunshine Band de 1975. que meu irmão simplesmente desapareceu com o disco. O mais incrível foi que sabia que foi ele que deu fim ao meu LP, mas não houve briga por causa disso.
Como ele, meu irmão declarou na década de oitenta, 1979, eu tinha a pomba gira no corpo, em tom de reprovação, me vendo pintar as unhas e me travestir para sair na banda Mole de Belo Horizonte, Risos.
Comprei o disco do Grupo Inglês Queen , “A Night at the Opera”, nem sabia que era um grupo gay. Sobre o disco do grupo Kc and Sunshine Band, de 75, a música era boa pra dançar. Para coroar esta época de explosões, assistir no Cine Paladium, em Belo Horizonte, a ópera rock Tommy, de Ken Russell, com Roger Daltrey, Oliver Reed, Ann-Margret e Elton John. Em resumo, a angustiante opera fala de repressão e libertação da juventude.
Tommy, de Ken Russell, 1975
Ser gay, ser negro, ser pobre, na década de 70 era muito difícil, era nadar contra a corrente, noite e dia. Não é fácil lutar contra uma cultura que quer te caçar e matar todo dia. É natural que a pessoa desenvolva sintomas depressivos e, que muitas vezes, tente se matar.
Lutar todo dia contra a família, contra a escola, contra a rua, contra a igreja, contra o Estado, muitas vezes nos leva a impotência e à vontade de morrer. O mundo todo nos diz: você está errado, e a gente acaba se sentido errado mesmo.
A família massacrando, a escola massacrando, a igreja massacrando, a sociedade caçando para matar, mesmo assim a bicha resiste. Era um inferno passar todo dia em frente ao Bar do Saloom, no bairro da Serra, e ouvir um couro de machos bêbados me vaiando.
Paciência , tem limites, e a minha, na década de 70 estava se esgotando, a gota d’água estava se aproximando.
Gota d'Água, Simone. 1975.
Já lhe dei meu corpo
Minha alegria
Já estanquei meu sangue
Quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água
Um barril de pólvora, esse era o estado do meu baile de 15 anos, “Deixe em paz, meu coração, que ele é um pote cheio de mágoas”, e a qualquer momento podia explodir.
O que tenho a dizer dos meus 16 anos, é que, eu era uma bicha muito feia, era preta, magra, odiava meu cabelo crespo, e para piorar tudo, pobre, ou classe média remediada. Eu me rejeitava, porque o sistema social me rejeitava, é o que se diz, quando a pessoa introjeta a rejeição social como se fosse sua.
O sistema me rejeitava, para piorar a situação, eu aceitava essa opressão estrutural. Então, não precisa mais do sistema social para me reprimir e oprimir, eu mesmo fazia a tarefa de me auto rejeitar e oprimir.
A vida da gay, se tornava um inferno completo. O inferno estava em todos os locais, fora e dentro da vida. A maldição judaíco-cristã se realizava em toda sua plenitude.
Depois de ser fichada pela polícia, no parque municipal, porque estava paquerando, eu tinha, finalmente, a minha ficha criminal, marca da Ditadura Militar, que, todos sabem, perseguiu muito os gays.
A cena gay dos anos 70, especificamente, 1975\76, foi marcada por luzes e sombras. Se por um lado o movimento começava a se afirmar socialmente, a gente vivia nas sombras da noite, nos bares, ruas, e lugares escuros e escondidos, onde o amor proibido podia se fazer.
MUNDO GAY ANOS 70 EM BELO HORIZONTE, FIGURAS ICÔNICAS: CABELEREIRO NERO E TRAVESTI PAULETTE.
Neste momento, vou citar o pesquisador Luiz Morando, 2022, sobre a cena gay em Belo Horizonte:
“O
cabeleireiro Nero é uma verdadeira lenda em Belo Horizonte. Nascido
em São João del Rei, Nero se transferiu para BH ainda nos anos 60.
Extremamente feminino e andrógino para a época, foi constantemente
visado pela “polícia de costumes” na tentativa de ser coibido e
“corrigido”.
Em 1969, abriu seu salão na Galeria Ouvidor,
no centro da cidade, tornando-se o primeiro salão unissex a atender
clientes do sexo masculino e feminino sem distinção de horário
(como foi comum até a época). Sua clientela formava longas filas no
corredor da galeria, não apenas para cortar cabelo mas também para
ver Nero atuando no salão. Clientes e curiosos misturados.
Nero
também foi um artista famoso na noite LGBT, criando e participando
de shows. Compôs também vários júris de concurso de Miss Gay e
Miss Travesti ao longo dos anos 70, 80 e 90.
Ele se mantém fiel
ao seu salão até hoje e se tornou Cidadão Honorário de BH pela
Câmara de Vereadores da cidade.
O uso do masculino é uma escolha de Nero, que não se importa com os gêneros.
Imagens do acervo de Nero:
no início da década de 70;
na boate La Rue, no final dos anos 70 (e o do meio);
no júri de um concurso de Miss Gay no início dos 80 (à esquerda da foto, ao lado de Sofia de Carlo, no meio, e Valéria).
Eu, particularmente, nunca tive contato com Nero, a não ser visual. Nero era uma lenda. Eu era adolescente, 15 ou 16 anos e ia dar uma espiada, com medo, em seu salão, porque a sociedade criticava muito. Tive mais contato com os travestis Pauleti e Selma, frequentadoras do bar Polo Norte, na Avenida Afonso Pena, do lado do Hotel Financial.
Paulette, com seus grandes olhos azuis e suas pernas impecáveis, muitos brilhos e paetês, ficava junto com Selma bebendo no fundo do bar. Eu como não tinha dinheiro para comprar bebidas ia sempre lá, conversar um pouco e tomar um copo de cerveja de graça.
A cena mais engraçada que me lembro com o travesti Paulette, foi ela nos convidar para irmos à boite La Rue. Fomos de Taxi, até aí, tudo bem, mas na porta, ninguém tinha dinheiro pra entrar. Pauletti sacou um baseado de sua bolsa, deu para o porteiro e botou a galera gay pra dentro da Boate, aí foi só festa.
Para Geraldo de Castro, 2020, Paulette era a Big Star. Quem conheceu nunca mais a esqueceu. O movimento LGBT em BH, passa obrigatoriamente, pela história de Paulete. Era brava, muito brava, mas tinha um coração enorme e ajudou muitas pessoas.
Para Luiz Morando, 2020, Eduardo Saboya pediu para ele, Morando, fazer um resgate da travesti Paulette Star ou Paulette Big Star, aqui de Belo Horizonte. ” Ela viveu o auge de sua carreira nos anos 80 e início dos 90. Ainda é preciso levantar muita informação sobre sua trajetória, mas um ponto de partida pode ser este.
Paulette se estabeleceu primeiro no campo da prostituição, nos anos 70. Ela controlou um território de atuação na av. Afonso Pena, entre a Praça Sete e a praça da Rodoviária. Desde o início dos anos 60, a praça Sete já tinha também essa identidade. Paulette estabeleceu como epicentro de sua área o bar Polo Norte, ao lado do Hotel Financial, e dominava aquela extensão com força. Daí nasceu a imagem ambígua de quem articula controle e violência (a quem surge como ameaça) com acolhimento e solidariedade (a quem precisa de proteção).
Na virada de 70 para 80, ela se afirma como cabeleireira e artista nas boates LGBT da cidade. Em 1981, aos 33 anos, morando na rua Mariana, 231, ela trabalhava em salão de beleza e já fazia show na boate Chez Eux, que pertencia a Norma Sueli, um dos ícones da lesbianidade belo-horizontina.
Paulette esteve presente na inauguração da boate Le Club, em agosto de 1983, onde atuou até o final da década fazendo shows e apresentando concursos. Mas atuou também em diversas outras boates, como a Castelo Rei Ludwig, em agosto de 1986, promovendo a escolha de Mister Boy 86. Na mesma boate, ela apresentou às quartas-feiras o Show de Variedades e Novos Talentos pelo restante daquele ano. Trabalhou ainda nas boates Plumas e Paetês (de Mani França, outro ícone das lésbicas de Beagá), Blue Boy e Fashion, entre outras.
Após se descobrir soropositiva, ela colaborou algumas vezes, por meio de suas atividades artísticas, nos primeiros anos de existência do Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS (GAPA-MG), fundado em 1987, doando cachês.
Paulette tinha domínio de palco e cantava bem. Tinha a língua afiada e se defendia muito bem na noite, tanto com relação a um público mais debochado (por ter sido uma das primeiras travestis da cidade a utilizar silicone industrial, foi também uma das primeiras a ter os efeitos deformadores do produto), quanto a suas inimizades.
Não sei dizer exatamente, mas ela faleceu em algum momento de meados dos anos 90.”
Não podemos nos esquecer da travesti Selma, que estava sempre tomando cerveja no Bar Polar, de BH. Ao contrário de Paulette Star, sempre estrela, Selma se caracterizava por ser uma mulher travesti comum. Não chamava atenção e tinha uma postura natural, que facilmente era confundida com uma mulher Cis.
CONJUNTO
SULACAP E SULAMÉRICA A GALERIA DO AMOR OU BECO DA MAYSA
Na década de 70, na gíria gay, era chamado o beco da Maysa ou Galeria do Amor. Local de encontro homoafetivos.
Junto com a Avenida Afonso Pena, chamada pelos gays de “A Pista ou Passarela de desfile”, local de pegação, à noite, o conjunto Sulacap, o Parque Municipal, e até mesmo a rodoviária e a zona de prostituição do centro de Belo Horizonte eram, sempre a noite, o sub mundo onde os gays podiam, dar expressão ás suas existências.
O conjunto arquitetônico Sulacap/Sulamérica é no estilo art déco, com a simplificação formal das linhas gerais. O estilo segue ainda representado em diversas construções no Brasil, principalmente em Belo Horizonte, uma cidade planejada e construída no período em que a produção deste estilo estava em destaque. O edifício Sulamérica foi concebido para uso misto e o Sulacap para uso exclusivamente comercial. Roberto Capello, ao projetar o sulacap/Sulamérica integrou as duas torres na geometria do plano urbanístico da cidade, pensando não apenas no terreno a ser trabalhado, mas também na paisagem da cidade e no seu usuário. A implantação proposta possibilitou a criação de uma praça descoberta entre os dois prédios, que ficou conhecida popularmente como Praça da Independência e veio a ser de uso público. A mesma possuía jardins e uma bela vista privilegiada do Viaduto de Santa Teresa. A ideia inicial da praça era a de emoldurar o referido viaduto e criar um espaço de convívio no centro da cidade, mas infelizmente, na década de 1970, esse espaço sofreu drástica descaracterização, com a construção de uma edificação de três pavimentos.
O beco da Maysa ou Galeria do Amor era local de encontro homoafetivos
A Galeria do Amor
Agnaldo Timóteo, 1975.
Numa noite de insônia saí
Procurando emoções diferentes
E depois de algum tempo parei
Curioso por certo ambiente
Onde muitos tentavam encontrar
O amor numa troca de olhar
Na galeria do amor é assim
Muita gente à procura de gente
A galeria do amor é assim
Um lugar de emoções diferentes
Onde a gente que é gente se entende
Onde pode-se amar livremente
Numa noite de insônia saí
E encontrei o lugar que buscava
A galeria do amor me acolheu
Bem melhor do eu mesmo esperava
Hoje eu tenho pra onde fugir
Quando a insônia se apossa de mim
Como dizia Guilherme Arantes, “Eu daria tudo, por um modo de esquecer. Daria tudo, por meu mundo e nada mais”.
Meu Mundo e Nada Mais
Guilherme Arantes, 1976.
Quando eu fui ferido
Vi tudo mudar
Das verdades
Que eu sabia
Só sobraram restos
Que eu não esqueci
Toda aquela paz
Que eu tinha
Eu que tinha tudo
Hoje estou mudo
Estou mudado
À meia-noite, à meia luz
Pensando!
Daria tudo, por um modo
De esquecer
Eu queria tanto
Estar no escuro do meu quarto
À meia-noite, à meia luz
Sonhando!
Daria tudo, por meu mundo
E nada mais
Não estou bem certo
Se ainda vou sorrir
Sem um travo de amargura
Como ser mais livre
Como ser capaz
De enxergar um novo dia
Se por um lado, os hormônios, me davam força para enfrentar, desbravar e explorar o novo mundo que se abria para mim, por outro lado, me retraia, porque me sentia num mundo inóspito. Só queria meu mundo e nada mais.
16 anos era um mix de ansiedade e depressão. Como estava vivo, e a vida tem essa pulsão de vida, essa vontade de viver, instinto de sobrevivência, a gente vai driblando os obstáculos, quando não é derrubado pela depressão.
Meus pais, estavam separados, a vida era dura, pouco dinheiro, vida de classe média baixa. Minha mãe trabalhava para sustentar a família, e a presença do pai se resumia à pensão e as visitas rotineiras aos filhos, que o ignoravam.
Moeda dos anos 70, o Cruzeiro, Brasil, 1976
A rotina cotidiana consistia em ir para a Escola Estadual do Bairro da Serra, com um agravante agora, devido à idade, fui transferido para o turno noturno.
Estudar à noite, para mim, foi maravilhoso, porque, em plena adolescência, tinha contato com adultos. É melhor conviver com adultos, do que com panacas adolescentes, que não sabem o que querem, nem o que são, nem pra onde devem ir.
À noite, depois das aulas, saia com Dalton, um jovem, branco, daqueles bonitões da escola, a gente tinha encontros fortuitos, na noite, nos terrenos abandonados, para fazer sexo. Também conheci o porteiro da escola, Dijon, mas esse foi amor platônico, não deu em nada.
Embora nos meus 16 anos, tivesse pouco ou quase nada de consciência política, sabia que estávamos em uma Ditadura Militar, e esse fato era odiável, pelo simples fato de não haver liberdade. Naturalmente, não podia avaliar mas podia sentir as consequências nefastas desse sistema, na vida de uma pessoa.
Meu pai, apesar de militar, nunca foi metido na política, minha mãe, apesar de uma postura militaresca, era uma democrata. Enfim, no ar, pairava um peso, um medo, um espírito opressivo. Isso para um adolescente, gay, só complica mais a sua situação. Fazia parte da luta contra a opressão consumir certos produtos culturais de protesto. Eis que um belo dia chega meu irmão com um disco de Chico Buarque em casa: Meus caros amigos.
Chico Buarque, 1976.
A música, “O Que Será ? (A Flor Da Terra)”, fazia uma pergunta insistente, o que sera ? O que será? Conversando com amigos, chegamos à conclusão que o objeto da música era a liberdade escondida pela ditadura.
O Que Será (À Flor da Terra)
Chico Buarque, 1976.
O que será, que será?
Que andam suspirando pelas alcovas
Que andam sussurrando em versos e trovas
Que andam combinando no breu das tocas
Que anda nas cabeças, anda nas bocas
Que andam acendendo velas nos becos
Que estão falando alto pelos botecos
E gritam nos mercados que com certeza
Está na natureza
Será, que será?
O que não tem certeza nem nunca terá
O que não tem conserto nem nunca terá
O que não tem tamanho
O que será, que será?
Que vive nas ideias desses amantes
Que cantam os poetas mais delirantes
Que juram os profetas embriagados
Que está na romaria dos mutilados
Que está na fantasia dos infelizes
Que está no dia a dia das meretrizes
No plano dos bandidos, dos desvalidos
Em todos os sentidos
Será, que será?
O que não tem decência nem nunca terá
O que não tem censura nem nunca terá
O que não faz sentido
O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
O que será, que será?
Que todos os avisos não vão evitar
Por que todos os risos vão desafiar
Por que todos os sinos irão repicar
Por que todos os hinos irão consagrar
E todos os meninos vão desembestar
E todos os destinos irão se encontrar
E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá
Olhando aquele inferno vai abençoar
O que não tem governo nem nunca terá
O que não tem vergonha nem nunca terá
O que não tem juízo
Em 76, nem tudo era divino, muito menos maravilhoso, nem vivíamos na melhor cidade da América do Sul. Como diria, Belchior: “Mas sei Que tudo é proibido. Aliás, eu queria dizer que tudo é permitido, até beijar você, no escuro do cinema, quando ninguém nos vê”.
BELCHIOR – ALUCINAÇÃO, 1976
Aos poucos meu espaço de expressão afetivo e erótico, se mudava das ruas e do parque para os cinemas, espaços escuros, onde o gay podia beijar e ninguém via. Então vivia pelos cinemas, ora assistindo os filmes, ora passando a tarde toda, esperando alguém para amar, no escuro e nos banheiros.
Encontros eróticos gays, em bares, ruas noturnas, praças, parques públicos ou cinemas era uma atividade totalmente clandestina. Nessa época contraí minha primeira doença venérea. Sabia que estava doente, porque já tinha lido o livro do Dr. Fritz Kahn, aquele que recomendava o casamento hétero feliz. Mas o que fazer ? Não tinha dinheiro, não podia ir ao médico sozinho.
Na falta do pai, acabei contando a minha mãe essa situação vexatória. Ela foi muito técnica, me levou no médico. Depois dos antibióticos, tudo bem, então voltar para o vício do sexo, no parque municipal, nos cinemas, e pegar doenças de novo. Como já sabia o caminho, eu mesmo ia me tratar, com o plano de saúde do meu pai, que durou até 1984.
Precisamos falar sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis e Direitos Reprodutivos.
Na minha adolescência, na década de 70, já haviam Doenças Sexualmente Transmissíveis, for falta de educação sexual, nas escolas, acabei contraindo duas doenças, a sífilis e a gonorreia. Não tive filhos porque não me relacionava sexualmente com mulheres.
Além de proteger contra abuso sexual, a educação sexual na escola ajuda a evitar casos de gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis. Para isso, é recomendado planejar um aprendizado que tenha conteúdo significativo para os estudantes, com o intuito que eles possam aplicar o que aprenderam.
Infelizmente, por ser tema tabu em nossa sociedade conservadora e cristã, a educação sexual é tema pouco trabalhado nas escolas, os resultados desta política são devastadores, principalmente para os jovens.
Carteira de beneficiário do plano de saúde de meu pai, Belo Horizonte, 1984.
Em 1977, com o início do divórcio no Brasil, meus pais se divorciaram, à contragosto de minha mãe, que não queria dar o divorcio, por causa da igreja. A Igreja Católica não reconhece o divórcio, e prega que o casamento é para sempre
Precisamos falar de LGBT+ no mundo do trabalho. Aos 16 anos, estudando à noite, no meio de trabalhadores, minha família passando precariedades econômicas, pensei, devo trabalhar de dia e estudar à noite. Solução perfeita para vários problemas da sobrevivência. Mas gays no mundo do trabalho é um problema social.
Apenas um rapaz latino-americano
Canção de Belchior, 1976.
Eu sou apenas um rapaz
Latino-americano
Sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes
E vindo do interior…….
Muitas vezes, a exclusão que essa população sofre desde a sua infância, os impede de traçar um caminho com educação de qualidade, resultando em alguns casos em uma má formação profissional e, por conseguinte, falta de oportunidade de emprego formal.
A discriminação é ainda maior entre pessoas trans e gays denominados como os “afeminados”, aqueles de muitos “trejeitos”, mesmo quando eles possuem as qualificações necessárias, sofrem discriminação e não são contratados.
Quando contratados, é frequente que sejam obrigados a seguir normas sociais, ou seja, são instruídos a não falar ou a se vestir de maneira que oculte sua identidade de gênero e sexualidade, provocando um desconforto tão grande, que na maioria dos casos, pela pressão sofrida, não aguentam e desistem da vaga.
Aos 16 anos, eu, gay, negro pobre, resolvi trabalhar para me ajudar e ajudar minha família, estava bem animado, tudo parecia que ia dar certo. O plano era perfeito. Fiz minha carteira de trabalho, como não tinha qualificação nenhuma, pensei vou começar por baixo, aceitando um emprego de office boy.
No jornal, achei aquele anúncio, bem pequenininho, pedido um office boy. Uma luz se abriu na minha vida. Todo um mundo se oportunidades eu vislumbrava. Via que meus amigos da escola noturna eram livres e autônomos, porque tinham um trabalho. Eu também queria ser assim.
Caos, desilusão e uma péssima impressão foi tudo que restou do mundo do trabalho, após minha primeira experiência, que durou 3 dias apenas. Depois de fazer meu trabalho de office boy, a dona de uma boite, me mandou lavar a casa dela, todinha. Pensei, fui contratado para office boy, não faxineiro.
Como queria o emprego, fiz a faxina da boite toda, após concluir o trabalho, perguntei se podia ir embora. A minha empregadora, me perguntou em tom de deboche e desprezo, porque eu “era assim”, “tinha uma voz tão fina”……….. Meu mundo caiu (risos, Maysa), mas meu mundo desabou mesmo.
Um abismo se abriu debaixo dos meus pés e me engoliu. Fiquei calado e perguntei se podia ir embora. Ela disse que sim. O mundo girava, e tudo parecia perder sentido, realmente, meu mundo ruiu. Se pudesse me matar, naquele momento me mataria. Meu moral foi a zero. O mundo girava e rodopiava diante dos meus pés.
Belo Horizonte, década de 70.
O que fazer ? Voltar para casa, voltar para o quarto escuro ? Me trancar no meu mundo e nada mais. Como dizia a música de Guilherme Arantes: “Daria tudo, por um modo de esquecer”. “Das verdades, que eu sabia, só sobraram restos”. Contei tudo a minha mãe, que me aconselhou a voltar ao trabalho e pedir demissão no terceiro dia de trabalho.
No dia seguinte, morrendo de medo, voltei ao trabalho, para pedir minha carteira de trabalho, de volta, orando à Deus, para que a mulher não me agredisse de novo. Depois dessa experiência, pensei, o mundo do trabalho não é para gays , esqueça isso. Estava configurado mais um trauma na vida do gay: A rejeição pelo mundo do trabalho.
A Consequência deste trauma, foi ficar sem trabalhar de 1976 a 1982 e por mim, nunca mais voltaria ao mundo do trabalho, justamente o mundo que pode salvar o gay. Idas e voltas, entradas e bandeiras. são coisas da vida, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica.
Rita Lee - Coisas Da Vida – 1976.
Quando a lua apareceu
Ninguém sonhava mais do que eu
Já era tarde
Mas a noite é uma criança distraída
Depois que eu envelhecer
Ninguém precisa mais me dizer
Como é estranho ser humano
Nessas horas de partida
Ah ah ah, é o fim da picada
Depois da estrada começa
Uma grande avenida no fim da avenida
Existe uma chance, uma sorte, uma nova saída
Qual é a moral?
Qual vai ser o final dessa história?
Eu não tenho nada pra dizer, por isso digo
Que eu não tenho muito o que perder, por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho
Minha revolta social, se intensificava, ao mesmo tempo que via poucas saídas para minha vida clandestina. Estava num beco sem saída. Eu não tinha nada pra dizer, por isso dizia. Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonhava.
Os anos de 1977, 1978 foram anos de pré maioridade. Na maioridade, estaria emancipado da tutela da família e do Estado. Aproveitando a oportunidade resolvi também romper definitivamente, meus laços com a Igreja Católica.
A igreja, na década de 70, apesar de combater a ditadura militar, quando o assunto era mundo gay, não ajudava em nada. Então, entre ficar ouvindo as maldições contra gays na igreja, resolvi me lançar nas pistas de música e dança. Estávamos entrando na Era Disco.
A era disco foi a era do “Gay Power”, finalmente os gays chegavam às mídias e ao poder, depois de muitas lutas, eram as estrelas do momento.
Óculos Ray Ban, cabelos alisados, em 1977, se apresentando para o alistamento militar, em Belo Horizonte. Se pegasse o serviço militar iria declarar que era gay, para ser dispensando.
Costumo chamar, os anos de 1977 a 1981, os anos da revolução. Teremos várias revoluções acontecendo ao mesmo tempo, a “Gay Power”, a “Black Power”, a Revolução do feminista, a pressão por democracia, com Greves de trabalhadores e movimentos socais contra a ditadura.
Em 1977, estava no último ano do ensino fundamental, na Escola Estadual do bairro da Serra. Nesse período que vai de 1977 a 1982, foi um tempo no qual vivia economicamente na dependência da pensão de meu pai e apoio de minha mãe, então roupas, discos, finais de semana, cinema, tudo era financiado pela família.
Em 1978, ainda com 17 anos fui transferido para o Colégio Estadual Central de Belo Horizonte, onde iniciaria o ensino médio. Plena ditadura, estamos no governo do General Geisel.
O Governo Ernesto Geisel, também conhecido como Governo Geisel, teve início com a posse do General Ernesto Geisel como presidente da República em 15 de março de 1974 e terminou em 15 de março de 1979 quando assumiu a presidência da República o General João Figueiredo.
Depois de assumir para minha mãe, a minha orientação gay, resolvi me soltar no mundo mesmo. Desta forma, no Colégio Estadual, eu escandalizava me exibindo e mostrando como rapaz gay, ou bicha louca.
Quadra de esporte do Colégio Estadual Central, bh, mg anos 70,80.
No primeiro mergulho, um show GAY. O short ficou boiando na agua e entrei pelado na piscina, com o impacto do mergulho. Vida de gay, anos 70-80. Obrigado Barbosinha.
Já sabemos que o jovem sob dependência financeira não pode dar seus gritos de liberdade e rebeldia. Mesmo assim, eles se revoltam, são chamados os rebeldes sem causa. São do contra, pelo simples fato ou desejo de dizer não aos pais.
Sou Rebelde
Lílian, 1978.
Eu sou rebelde por que o mundo quis assim
Por que nunca me trataram com amor
E as pessoas se fecharam para mim
Eu sou rebelde por que sempre sem razão
Me negaram tudo aquilo que sonhei
E me deram tão somente incompreensão
Eu queria ser como uma criança
Cheia de esperança e feliz
E queria dar tudo que há em mim
Tudo em troca de uma amizade
E sonhar, e viver, esquecer o rancor
E cantar, e sorrir e sentir só amor
No ano de 77, minha vida se restringiu, às minhas aventuras sexuais e eróticas nos cinemas de Belo Horizonte. Afetivamente, me sentia abandonado por pai e mãe, o que mês custava uma depressão crônica, que duraria anos.
Às vezes, me pergunto se minha depressão é de fundo genético ou , emocional, causando por desentendimentos com minha família. Uma pessoa passar anos, décadas, deprimido isso não deve ser normal. O resultado artístico dessa depressão foi uma obsessão por “love Songs”. Estava sempre ouvindo à noite aquelas enormes “play list” de músicas altamente depressivas, falando de amores que não deram certo.
Andy Gibb, 1977
Os “love songs”, me confortavam minha alma dizendo que o amor ainda existia, por um lado, me jogavam em uma grande sensação de derrota, pois nada dava certo.
I Just Want To Be Your Everything
Andy Gibb, 1977
For so long
You and me been finding each other for so long
And the feeling that I feel for you is more then strong, girl
Take it from me
If you give a little more then you're asking for
Your love will turn the key
Darling mine
I would wait forever for those lips of wine
Build my world around you, darling
This love will shine girl
Watch it and see
If you give a little more then you're asking for
Your love will turn the key
I, I just want to be your everything
Open up the heaven in your heart and let me be
The things you are to me and not some puppet on a string
Oh, if I stay here without you, darling, I will die
I want you laying in the love I have to bring
I'd do anything to be your everything
Darling for so long
You and me been finding each other for so long
And the feeling that I feel for you is more then strong girl
Take it from me
If you give a little more then you're asking for
Your love will turn the key
“Love Songs” e amores realmente nunca deram certo em minha vida, foi nesse período que conheci um grande amor de minha vida, numa madrugada no Parque Municipal de Belo Horizonte. O parque à noite era um ambiente clandestino de namoro entre gays. No escuro, sozinho, lá estava ele, Aluísio, esse mais romântico, que eu.
Aluísio, Belo Horizonte, 1977.
Ao ver aquela figura sombria, misteriosa, linda e solitária me apaixonei platonicamente por ele, ficamos amigos e durante muitos anos. Frequentei sua família, enquanto assistia às suas sucessivas tentativas de suicídio, o que me deixava mais apaixonado por ele. A Trilha sonora do meu amor por ele era uma música de Tom Jobim e Vinícius de Morais, “Falando de amor” , cantada por Ney Matogrosso, ícone musical gay da época de 1979.
FALANDO DE AMOR - NEY MATOGROSSO, 1979.
Se eu pudesse por um dia
Esse amor essa alegria
Eu te juro te daria
Se pudesse esse amor todo dia
Chega perto Vem sem medo
Chega mais meu coração
Vem ouvir esse segredo
Escondido num choro-canção
Se soubesses Como eu gosto
Do teu cheiro teu jeito de flor
Não negavas um beijinho
A quem anda perdido de amor
Chora flauta Chora pinho
Chora eu o teu cantor
Chora manso bem baixinho
Nesse choro falando de amor
Quando passas Tão bonita
Nessa rua banhada de sol
Minha alma segue aflita
E eu me esqueço até do futebol
Vem depressa, vem sem medo
Foi prá ti meu coração
Que eu guardei esse segredo
Escondido num choro-canção
Lá no fundo do meu coração
Devido ao trauma homofóbico da minha primeira tentativa de trabalhar, não quis mais saber disso. Então vivia mesmo só para estudar, e graças à Deus sempre gostei de estudar, pesquisar, conhecer.
Em 1977, finalmente, meus pais se divorciaram, e minha mãe passou o imóvel que morávamos para o uso fruto dela, e os filhos como herdeiros. A presença de meu pai, era algo invisível em minha vida, devido à alienação parental de minha mãe. Apesar de ter um pai relativamente presente, o que minha mãe consegui, foi anula-lo e transformá-la num super poder, que a tudo controlava, ela era o pai e a mãe.
A televisão à cores finalmente chega ao Brasil, minha família, não pode comprar, porque era cara, também não compramos um plástico colorido , que dava a sensação “fake” de estar vendo TV à cores.
TV
à cores, Brasil, 1972.
Vivia uma vida mundana, não frequentava mais os ritos da igreja católica, troquei minha espiritualidade pela yoga, que agora frequentava, no Bairro das Mangabeiras, onde pedi para pagar menos, porque era um ambiente para madames e não tinha dinheiro para aquilo.
A professora de arte yoga, Marília Palheta, me perguntava, porque meus desenhos eram todos negros? Não tive coragem de confessar o motivo, essa cor negra e cinza me acompanhou por muitos anos em minhas depressões.
Se meu amigo tinha coragem de tentar se matar, eu só tinha a vontade. Pensando bem, devia ter me matado mesmo. Foi nessa época que Maysa Matarazzo atriz, cantora e compositora se suicidou se jogando da Ponte Rio Niteroí, a tal cantora de “Meu Mundo caiu”.
Se minha mãe gostava dos dramalhões dos anos 50, de Hollywood, meu gosto para cinema balançava entre a indústria cultural americana, como no filme Star War, e os filmes de arte europeus, dessa forma ví filmes tais como: Cet obscur objet du désir, de Luis Buñuel, e Padre padrone, de Paolo e Vittorio Taviani, Cria cuervos, de Carlos Saura, com Geraldine Chaplin, Una giornata particolare, de Ettore Scola, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, esse um filme sobre um gay, no período fascista italiano.
Una giornata particolare, de Ettore Scola, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, filme gay, 1977.
Para não dizer, que 1977, não foi um desastre total, por essa época, comecei , ainda em idade menor, frequentar algumas boites gays de Belo Horizonte, com a “La Rue”, e “Chez Eux”,a era Disco estava começando, trazendo um banho de água fria e alegria nas minhas depressões.
Em 1977, é lançada a pedra fundamental da Era disco, com o filme: “Saturday Night Fever” (no Brasil, Os Embalos de Sábado à Noite); em Portugal, Febre de Sábado à Noite). Belo Horizonte, já tinha vários lugares gays, preparados para receber esta revolução.
Cine pornô, palco da cultura marginal LGBT+ Candelária, Belo Horizonte, 1980.
Edson Nunes, ativista LGBT da época, conta algumas casas noturnas que existiam em Belo Horizonte nos anos 70\80: Chez eux, Marrom Glacê (de freqüência mista), Brulé (talvez coincida com Bluele, ou La Rue – Barro Preto) que depois veio a se chamar Double Face, Freedom (Bias Fortes), Vaga Lume (Tupis com Olegário Maciel), Quibe Lanche (R. Espírito Santo), Aquarius, Rei do Kibe, Ki-Copacabana, Plumas e Paetês e muitos outros.
Por essa época travei amizade com um gay na boite Brulé, Eduardo. Jovem de classe média média, morava no bairro Vila Paris, sua vida oscilava entre depressão e alegria. Na rua, gay, em casa, no armário. Esse rapaz entrou em uma depressão tão profunda, de anos, e por fim morreu em acidente de carro. Eduardo teve uma vida desgraçada, mesmo.
A revolução Disco, a Banda Mole, e a Era Gay, são um capitulo à parte e merece uma atenção especial.
A arte imita a vida, e a vida imita a arte, esta é uma estrada da mão dupla. A arte é um reflexo da sociedade, mas a sociedade, ao contemplar seu reflexo, se transforma.
Cria Corvos e eles te furarão os olhos, é um filme de 1976, dirigido por Carlos Saura. Através de uma narrativa original, Carlos Saura retrata a infância como o período triste em que a Espanha esteve sob a ditadura franquista. O filme foi lançado em 1976, quando o regime democrático voltava ao poder.
Cria Corvos, 1976.
Por outro lado, a leitura do filme como uma metáfora do fim da ditadura na Espanha impacta com maior contundência. Nesse sentido, Ana ou eu, a personagem central, representa a própria Espanha, olhando para o período franquista como uma triste infância.
Agora adulta, Ana, que poderia ser eu, poderá criticar seus pais, e seu país, observando que o passado deixou marcas profundas em sua vida e não será esquecido.
O título do filme deriva do dito popular “Cria corvos e eles arrancarão teus olhos.”. Por um lado, o ditado traduz a percepção amarga que Ana guardou de sua infância, por outro, traduz a vontade de se vingar, furando os olhos dos pais e do país, como uma reação natural pelo que recebeu.
Na perspectiva de minha vida familiar e no contexto político da ditadura do Brasil, era a hora de me vingar das pessoas e situações que me oprimiram no passado.
Após ver esse filme, contei o enredo para minha mãe, que inconscientemente, repetia o ditador popular espanhol: Cria corvos e eles te furarão os olhos. Era a hora de me vingar das violências pelas quais passei dentro da minha família, e na sociedade ditatorial que vivia.
A minha vida nos anos de 1978 -79, entrou em choque frontal com os valores cristãos, heterossexuais da minha família e país. Foi um período muito difícil. Não bastasse os vexames que havia passado nos 15 anos com a cura gay que minha mãe tentou fazer comigo, agora com 18 anos, ela vinha, da mesma forma violenta, me inquirir, se era gay.
Antes de dizer a resposta que dei a ela, é preciso falar de um filme que a vi, e depois levei minha mãe para ver. Ao leva-la para ver aquele filme, eu queria mostrar como eu via a nossa própria relação de filho e mãe.
Em, 1978, exatamente, no ano que completava 18 anos, e atingia minha maioridade, se passava no cinema o filme: Sonata de Outono de Ingmar Bergman.
Em resumo, o filme trata do relacionamento entre uma mãe pianista bem sucedida e sua filha emocionalmente fragilizada. Essa mãe sempre foi relapsa na criação de sua filha que, quando fica adulta, decide fazer um acerto de contas com sua genitora.
Não sei se por influência do filme ou pelo meu comportamento, que estava vivendo um romance homossexual, com um homem de idade superior a minha, um belo dia, minha mãe me chamou no quarto, para uma conversa particular. O assunto era uma pergunta. Uma simples pergunta. Uma pergunta que me destruiria, porque não havia necessidade de ser feita. Uma pergunta que me machucava.
Ela perguntou se eu estava gostando de homens, chorando, até pensei em fugir do assunto, mas não havia como, estava contra a parede e tinha que responder, disse que sim.
Não satisfeita com a minha decepcionante resposta, minha mãe perguntou se eu não gostaria de mudar de ideia, talvez fazer um tratamento psicológico, disse que não, e pedi para sair. Meu mundo, mas uma vez caia. Meu mundo desabava.
Peguei um ônibus, e fui para casa de meu amante, chorar minhas mágoas. Ele me perguntava o motivo do choro, e eu dizia que não era nada. O pior de tudo, era ele querer sexo, naquela hora, e mais pior ainda, depois de tudo voltar para dentro do abismo, a casa de minha mãe.
Neste momento, quem cantava a música “Meu Mundo Caiu”, não era minha mãe, ao ver seu casamento ser desfeito. Quem cantava, era eu, ao ver minha vida destruída. As consequências mais tristes dessa situação foram o agravamento de minha depressão, o desenvolvimento de ideias suicidas e a percepção que era um fracassado na sociedade e na vida.
A melhor tradução da dor que sentia, eu ouvia na canção romântica de Margriet Eshuys Lucifer - “Self Pity” , não me suicidei por um trís.
Self Pity
Lucifer,1978.
Love and friendship slipped away
Hurting us every day
Weeding out every joy
I was just like a toy
And now there we are apart
Breaking each other's heart
The tears that flow are not real
It's from self pity
That we've still
Emotion on our face
The hate hid in our soul
The lies are in your eyes
You and I we had no plan
I tried as hard as I can
To show you that I was right
You don't have to hide
The truth ain't that hard at all
Face it and stand tall
These tears that flow are not real
It's from self pity there is still
Emotion on our face
The hate hid in our soul
The lies are in your eyes
We've got no
We've got no right
Crying out of self pity
Crying out of self pity
Precisamos falar de saúde mental da população LGBT+. O ambiente social e familiar o qual o homossexual está inserido organiza-se a partir das concepções de gênero, sexo e sexualidade, seguindo uma perspectiva heteronormativa e binária, que se legitima através de práticas discriminatórias de violência física e psicológica.
Tais práticas violentas têm como consequência impactos na saúde mental dos indivíduos como a depressão, tentativa de suicídio, diminuição no desempenho escolar, no trabalho, assim como prejuízo na autoestima e no comportamento social dos homossexuais.
Por outro lado, pode haver a produção de uma personalidade reativa, defensiva, agressiva, e superior, onde o LGBT+ Transfere para si a personalidade do opressor.
Dentro do contexto de opressão que vivia, acabei desenvolvendo uma personalidade bipolar, entre o oprimido e o opressor, uma hora me sentia o maior de todos, em outras horas me sentia o pior dos humanos. Assim, destruído e precisando me reconstruir, cheguei aos meus 18 anos.
Composição visual, eu na Era disco, revolução gay, black power, abertura política, Belo Horizonte, 1978
Dancin Days
As Frenéticas, 1978.
Abra suas asas
Solte suas feras
Caia na gandaia
Entre nessa festa
E leve com você
Seu sonho mais lou
Ou, ou, ou, louco
Eu quero ver esse corpo
Lindo, leve e solto
A gente às vezes
Sente, sofre, dança
Sem querer dançar
Na nossa festa
Vale tudo
Vale ser alguém
Como eu
Como você.
Por sorte, o contexto político, social, cultural brasileiro e mundial era favorável aos gays. Vivíamos a luta dos trabalhadores, a “Revolução Gay”, a “Era disco”, o movimento “Black Power”, o feminismo e a abertura democrática da ditadura brasileira. Acho que este contexto social, foi o que me salvou de um suicídio.
TERRITÓRIOS LGBT+, ANOS 1977 Á 1978 EM BELO HORIZONTE
Num contexto histórico e social autoritário e opressivo, faço um breve resumo, de meu percurso afetivo sexual, nos anos 70, principalmente entre os anos 1977 a 1978, ou seja dos meus 16 anos aos 18 anos, poderia dizer que transitei por vários territórios eróticos em Belo Horizonte.
Na década de 70 80, houve uma transição dos espaços no mundo LGBT em Belo Horizonte, de espaços marginais da cidade, frequentado por mendigos, bandidos e prostitutas, além de local para o encontro de “pederastas” e criminosos, para locais ou espaços de maior aceitação e menor discriminação social, fruto de muita luta por direitos Gays.
Aos poucos meu espaço de expressão afetivo e erótico, se mudava das ruas do bairro, na infância e adolescência, para as ruas do centro da cidade (Rua da Bahia, por exemplo) , avenidas (Avenida Afonso Pena, por exemplo), famosa Praça Raul Soares e o Edifício “gay” JK e o Parque Municipal e seus famosos banheiros públicos, que funcionavam 24 horas.
Dos espaços abertos das ruas, praças e banheiros públicos, eu migrava para os cinemas, (Cinema Metrópole, por exemplo) nesta época não tinha idade para frequentar os cinemas pornôs da cidade (Cinema Candelária, por exemplo) , então a pegação se dava nos cinemas convencionais, onde se passavam os filmes de sucesso, de arte da época ou até uma pornochanchada.
Com relação à pegação, procura de relações afetivas e eróticas, na rua, nós, os gays, íamos para as zonas clássicas de prostituição de Belo Horizonte, em 1977 à 1978. A região que agrupava as atividades de prostituição e de boemia era chamada de zona.
Nem sempre a zona comportava toda a prostituição da cidade, mas era o lugar mais conhecido e de maior concentração. Quem chegasse à cidade à procura de sexo, perguntava apenas: “Onde fica a zona?” Em Belo Horizonte, a zona localizava-se na parte mais baixa da cidade (daí que “descer” significava ir à zona), próxima à rodoviária) e à Praça da Estação Ferroviária, mais precisamente na região que Pedro Nava denominou “quadrilátero da zona”, que ficava entre Ruas da Bahia, Caetés, Curitiba e Oiapoque. Entre as ruas destacavam-se a Guaicurus e a Avenida Oiapoque.
O período, que compreende os anos 70 até 80, foi marcado pela emergência da atividade homossexual nos espaços públicos e semipúblicos, como ruas, praças, parques, saunas, cinemas, boates e bares destinados aos homossexuais.
Nas ruas, a prostituição feminina dividia espaço com os travestis e os michês, homens que se prostituem com uma imagem ligada à virilidade. As partes mais baixas do centro continuam a acolher a prostituição, mas, surgem novos lugares, verificam-se um espraiamento da prostituição e a conquista de novos espaços de afetos e sociabilidade LGBT, muitos deles em áreas nobres da cidade.
Confesso que alguns lugares, eu rapaz gay de classe média baixa, da zona sul de Belo Horizonte, não frequentava. Eram territórios de baixa prostituição, população pobre e crime, tipo a área Lagoinha, Bonfim. A Praça Vaz de Melo, porta de entrada da Lagoinha, atrás da rodoviária, era o centro dessa região, cujas ruas mais famosas eram Paquequer (pra quem quer, era o apelido da rua) e Bonfim.
Por se tratar de bairros vizinhos ao centro, Lagoinha e Bonfim Essas duas áreas eram pouco valorizadas devido à proximidade com as estações ferroviária e rodoviária, o Ribeirão Arrudas, a linha férrea e o Cemitério do Bonfim. Desta forma, estas áreas foram ocupadas pela marginalidade, entenda-se ai, prostitutas, ladrões, criminosos, michês e LGBTs negros ou não, mas na maioria negros e pardos.
A partir dos anos setenta emerge as figuras do gay, bicha, da lésbica ou sapatão, junto a prostituição masculina e gay, nas figuras de michês e travestis, altera-se consideravelmente a forma da prostituição feminina e há uma profunda reorganização espacial das atividades de prostituição, afetos e erotismo LGBT na cidade de Belo Horizonte.
Interessante também marcar, que vários hotéis que serviam à prostituição feminina, nos anos 70 e 80 começaram a admitir casais gays, ou homem com homem. A moral heterossexual se rendia ao poder do dinheiro LGBT, fruto da entrada dessa parte da população no mercado de trabalho.
Os programas, e encontros LGBT, normalmente ocorriam nos chamados “hotéis de alta rotatividade” (hotéis precários, que funcionavam como motéis) localizados no Centro, ou no próprio carro dos sujeitos e clientes. Os LGBT que tinham carro e maior poder aquisitivo optavam pelo Motéis, que entravam na moda no fim dos anos 70.
Definitivamente os motéis entravam na moda, nos anos 70. É famoso o caso da música feita para uma propaganda de motel que ficou muito conhecida na voz do ícone lésbico LGBT, Maria Bethania, o hit CHEIRO DE AMOR de 1979.
O primeiro responsável pela faixa foi o publicitário Duda Mendonça, que compôs, em 1979, um jingle para a campanha de Dia dos Namorados do motel Le Royale, localizado em Salvador, Bahia. No livro Casos e Coisas, o publicitário explica que o jingle estourou, e precisaram fazer diversas cópias para entregar aos frequentadores do motel.
Cheiro de Amor, 1979.
Maria Bethânia
De repente fico rindo à toa, sem saber por que
E vem a vontade de sonhar de novo te encontrar
Foi tudo tão de repente
Eu não consigo esquecer
E confesso, tive medo
Quase disse: Não
Mas o seu jeito de me olhar
A fala mansa, meio rouca
Foi me deixando quase louca
Já não podia mais pensar
Eu me dei toda para você
De repente fico rindo à toa, sem saber por que
E vem a vontade de sonhar de novo te encontrar
Foi tudo tão de repente
Eu não consigo esquecer
E confesso, tive medo
Quase disse: Não
E meio louca de prazer
Lembro teu corpo no espelho
E vem o cheiro de amor
Eu te sinto tão presente
Volte logo, meu amor
Nesse período de 70 e 80 se consolidam os lugares LGBT da cidade e a prostituição de travestis, michês e a definição de seus territórios. O termo “michê” é utilizado para designar um tipo específico de homem que se prostitui com uma auto-imagem e representação ligadas à masculinidade e virilidade.
O michê, boy, garoto de programa ou simplesmente “GP”, normalmente, não se considera homossexual, porque constrói sua masculinidade (papel de gênero) a partir de um comportamento sexual ativo.
Essa construção é válida, mesmo que seu cliente seja um homem e desde que este adote um comportamento sexual passivo. Além do mais, muitos não se consideram profissionais do sexo, encarando a prostituição como uma atividade secundária ou provisória.
Nos anos 1978 a 1979, nas saunas gays de Belo Horizonte não haviam muitos michês, porque as saunas consideravam esses tipos muito marginais para frequentar seus ambientes, então eles “batalhavam” mais nas ruas e bares noturnos.
Nas saunas gays, em funcionamento na cidade, era possível encontrar muitos homens gays ou não, dividindo espaço para a chamada “pegação”, o tipo de interação social mais comum nesses lugares. Posteriormente, os michês vieram a ser muito bem aceitos nas saunas, apesar dos eventuais casos de roubos, mortes e assaltos à gays.
A grande maioria dos michês ou boys de programa são das classes sociais baixas, e o assalto e morte de gays, por michês, neste contexto social, era fato muito corriqueiro. Muitos deles entravam no negócio da prostituição apenas para roubar e matar.
Nunca entrei para a prostituição masculina ou gay, uma vez que minha formação religiosa e de valores condenava a venda do corpo como pecado. Minha condição de classe média baixa, também me possibilitava ficar longe da prostituição, já que obtinha o dinheiro para minhas atividades de lazer no âmbito familiar.
Apesar de não participar do mundo da prostituição gay ou masculina, posso dizer que houve alguns episódios, que pedi algum dinheiro para tomar um drink na boite gay, ou mesmo ajudar no pagamento de minha entrada, mas nada comparado ao exercício continuo de uma atividade de prostituição. Trilha sonora desta época: Joanna, allbum Descaminhos, canção: No seu corpo, 1979.
Seu Corpo
Joanna, 1979.
No seu corpo
É que eu encontro
Depois do amor o descanso
E esta paz infinita
No seu corpo
Minhas mãos
Se deslizam e se firmam
Numa curva mais bonita
No seu corpo
Meu momento é mais perfeito
E eu sinto no seu peito
O meu coração bater
E no meio deste abraço
É que eu me amasso
E me entrego pra você
E continuo a viagem
No meio dessa paisagem
Onde tudo me fascina
E me deixo ser levado
Por um caminho encantado
Que a natureza me ensina
E embora eu já conheça bem
Os seus caminhos
Me envolvo e sou tragado
Pelos seus carinhos
E só me encontro
Se me perco
No seu corpo .
Uma vez, lá pelos meus 18 anos , no cinema pornô Candelária, um sujeito implorou que eu cobrasse pela transa, pois era o fetiche dele, então para agradar, cobrei o preço simbólico de 5 reais ou cruzeiros, não me lembro a moeda da época. Só me lembro que ao final, o sujeito não queria pagar, aí exigí que ele pagasse. Risos.
Procurava sempre em minhas transas, no fim de minha adolescência pessoas mais velhas, era a certeza que teríamos momentos agradáveis sem problemas com dinheiro para bebidas e moteis. Até que em 1982, quando comecei a trabalhar, comecei também a bancar e arcar com todas as minhas despesas LGBT.
Já nos anos 80 foi feita a transição do mundo gay maldito, povoado por marginais e criminosos para um mundo mais aceito socialmente.
REFERÊNCIAS
A territorialidade da prostituição em Belo Horizonte
LT de Andrade, AE Teixeira - Cadernos Metrópole, 2004 – revistas.pucsp.br
https://rollingstone.uol.com.br/noticia/um-dos-maiores-sucessos-de-maria-bethania-cheiro-de-amor-nasceu-de-uma-propaganda-de-motel/
Espaços, corpos e desejos: a cidade e o urbano na arquitetura da pegação em Belo Horizonte, Minas Gerais. AE Teixeira - Revista Periódicus, 2017 - periodicos.ufba.br
Cheiro de Amor, 1979.
Maria Bethânia
Seu Corpo
Joanna, 1979.
RECIFE, 2023.



















































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