CAPÍTULO 07 – JUVENTUDE LGBT+, ANOS 70\80, EM BELO HORIZONTE – Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.

 

CAPÍTULO 07 – JUVENTUDE LGBT+, ANOS 70\80, EM BELO HORIZONTE – Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.



1974 ou 75, estudava no Colégio Estadual do bairro da Serra, em Belo Horizonte, também conhecido com Pedro Aleixo, figura política mineira, da ditadura militar, ligada à educação.



Belo Horizonte,1974, 75.


Tudo era novidade, no ensino fundamental II, talvez porque estava deixando de ser criança e me tornando um gay jovem, com suas funções emocionais e sexuais prontas para atuar.

Por felicidade, ou infelicidade, na escola topei com um rapaz negro, que todas vezes que me, via me chamava de mulherzinha, querendo me revelar e revelar a todos da escola que eu era gay.


Eu já sabia e aceitava que era gay, então não havia problemas para enfrentar o bullying escolar e social. O bullying consiste em ameaçar ou intimidar alguém; humilhar por qualquer motivo; excluir; discriminar por cor, raça ou sexo; falar mal sem motivos, etc.


Agressões verbais são mais comuns do que agressões físicas e, na escola, elas ocorriam com bastante frequência. Como o menino não parava com a perseguição, chamei ele para uma conversa. Simplesmente perguntei por que ele fazia aquilo comigo ? Foi uma simples pergunta, mas depois daquela pergunta nos tornamos “Best Friends”.


Nascia naquele momento uma grande amizade que durou anos, eramos gays e precisávamos estar juntos contra o inimigo comum. Posteriormente, Valter, o nome dele, se tornou travesti, já em idade adulta. Foi um guerreiro ele, ou como se deve dizer hoje, foi uma guerreira ela.



Estadual Serra ou Pedro Aleixo, Belo Horizonte, 1974\75.



Estadual Serra ou Pedro Aleixo, Belo Horizonte, 1974\75.



Em 1974 estudei à tarde, no Colégio Estadual da Serra, já em 75 me transferiram para a manhã. Olhando assim, rapidamente para 1975, parece ter sido um ano tranquilo em minha vida, mas quando vou analisar à fundo, vejo que foi uma época de desafios terríveis.


A descoberta do sexo adulto, para mim, foi um choque. De repente meu corpo se modificava, eu perdia as características infantis e as características sexuais maduras apareciam. As pernas ficaram cabeludas, um bigode ralo em aparece na cara, os pelos pubianos se faziam presentes.


Ao olhar meu corpo a impressão que tinha era que estava deixando de ser um anjo e me transformando num monstro, lobisomem. Até ai tudo bem, mas, um dia você começa a sentir uma terrível culpa, a culpa de Eva e Adão, a culpa do desejo e do prazer proibido, a culpa da masturbação, na linguagem da molecada, a famosa punheta.


Filme pornochanchada, Os Canalhas, Belo Horizonte, um dos climas culturais da ditadura militar,1975.


Com 15 anos, ou adolescência, a menina tem sua primeira menstruação, e se torna uma moça, já o menino tem sua primeira ejaculação e se torna rapaz. Esse é o rito de passagem da fase infantil, para a fase jovem.


O assunto da rua, entre os meninos era a masturbação, eu ouvia os relatos, mas não sabia o que era, nem eles, os mais experientes ou velhos, ensinavam a técnica. O assunto era recorrente, o papo do dia, todo dia a mesma história.

Outra via de informação e educação sexual eram as famosas revistinhas de sexo, vendidas nas bancas, embora dirigidas para maiores de idade, eram vendidas para menores e circulavam entre eles.



Revistas Quadrinhos Sexo Catecismo de Estudante, 1970.

Então em 1975, com 15 anos, entrei no banheiro, me tranquei, e pensei vou ver o que é a tal masturbação. A princípio, parecia uma coisa mecânica, chata, repetitiva e sem sentido, realmente, sem graça nenhuma. Dessa forma, quase parei o exercício masturbatório, Até que veio o momento mágico.


De repente, difícil descrever, inclusive porque nesta data não havia tomado nenhuma droga, nem álcool. Enfim, resumindo, o resultado da punheta, foi a saída de um líquido branco, acompanhado, de uma profundo prazer corporal e relaxamento, como se tivesse bebido álcool.


Se o resultado da punheta tenha sido muito positivo, as consequências psicológicas foram péssimas. Após o gozo, veio uma terrível sensação de culpa. A velha culpa cristã, que aprendemos na vida e na igreja, a culpa do prazer, a culpa por comer o fruto proibido, a culpa por pecar, a culpa do sexo.


Prometi a mim nunca mais repetir aquele ato pecaminoso. Doce ilusão, no outro dia, estava lá, no banheiro, trancado, repetindo o pecado, reforçando o vício na droga do sexo e sentido a culpa do prazer.


Pela falta do pai, com 15 anos, perguntava a minha mãe algumas questões relativas ao sexo, ela como mulher dos anos 50, relativamente informada sobre a ciência, me dava as informações técnicas. Mas algumas coisas, digamos assim, são mais complicadas de se perguntar. Então o médico para essas situações e o bate papo com a molecada da rua.


Conversando com meu amigo gay Beto, ele me indicou um livro de seu pai, que foi minha bíblia sexual, por muito tempo: A nossa vida sexual.


A Nossa Vida Sexual - Dr. Fritz Kahn – 1950.



A Nossa Vida Sexual - Dr. Fritz Kahn – 1950.


Este livro, bem “científico” e cheio de preconceitos machistas , me ajudou muito, a simplificar minha vida sexual, embora psicologicamente a culpa, tenha continuado.

A masturbação ou punheta se tornou um rito de prazer, culpa e dor em minha vida. Todo dia, no banheiro da emprega, ia bater minha punheta. O banheiro da empregada amenizava o pecado de fazer o ato no banheiro familiar.


Outro papo dos moleques, com 15 anos, eram sobre mulheres. Todos abandonando brincadeiras sexuais com meninos e se encaminhando para garotas. Que vida difícil, pensei, após vencer o obstáculo do édipo familiar, e do prazer solitário da punheta, agora tinha um novo desafio, arranjar mulheres, uma namorada.


Celso, meu namorado de infância, foi buscar mulheres. Beto, meu primeiro namorado, já não me satisfazia tanto, Tuca e Zé eram amores impossíveis, outros rapazes, ainda não se apresentavam no radar, só me restava procurar mulheres para namorar. Mulheres, logo esse objeto de amor que tanto me deram problemas, na figura de minha mãe e irmã.


Como procurar satisfação em mulheres, quando já tinha tido experiências péssimas com estes objetos ??? A norma sexual social heterossexual, a cartilha dos moleques e o livro do Dr. Fritz Kahn, me apontavam que as mulheres eram o caminho, quem tivesse outros desejos, ficavam sem resposta, pois o tema da homossexualidade e diversidade era proibido, criminalizado, patologizado, era tabu.


Entre, 1974, 75, 76, eram famosos os Bailes Black na Escola Estadual da Serra, onde haviam dois momentos: o da música para dançar separado, mais agitada, e as músicas românticas, chamadas de lentas, onde se dançava junto. Na hora de dançar junto era meu momento de pânico, pois precisava encontrar um par feminino.


Little Anthony And The Imperials, 1976.

I'm Falling In Love With You, 1976.


I'm Falling In Love With You

When you see me once

Will you see me again ?

After tonight

Lets be more than just friends


Cause i'm falling in love with you

Cause i'm falling in love with you


If you kiss me now

Will you kiss me again ?

After tonight

Lets try to make it begin


I've never been in love before

And i've just got to know the story

If you know how i feel

Then say you will

And lets love, love, love

And lets love, love, love


O amor, os afetos, em princípio parecem ser coisas tão maravilhosas, mas também escondem dores, angustias e situações opressivas, um verdadeiro tormento da alma. Sentimentos de recusa e resistência ao amor, é o que diz a canção de 1975, do grupo 10cc , “I’am Not In Love”, tema das baladas românticas da Escola Estadual do bairro da Serra.


10cc , I’am Not In Love, 1975.

Nas músicas lentas românticas, nasciam os namoros, quem sabe até casamentos. Por pressão social e cultural me via obrigado a me relacionar com mulheres de novo.

Minha primeira namorada Selma, que conheci na escola, nos bailes românticos, foi um desastre. Depois tentei com uma empregada do prédio, que morava na comunidade do Pombal, no bairro da Serra, não passamos do primeiro beijo. Definitivamente, nesta época estava escolhendo minha orientação sexual e afetiva. E esta orientação era contrária a da sociedade.


Embora a sociedade seja formada por vários contextos políticos, sociais, econômicos, culturais, ambientais. Na adolescência tudo parece girar em torno do jovem, é como se ele voltasse à fase egocêntrica, na qual ele acha que é o centro do mundo. Nessa fase, a criança ainda não aprendeu a se colocar no lugar do outro, e então só enxerga o mundo de um único ponto de vista: o dela.


Sobre o egocentrismo adolescente, me lembro, depois de ouvir muito uma canção romântica, no rádio, pedi dinheiro à minha mãe e fui à Lojas Americanas em Belo Horizonte, comprar o famoso disco compacto. Comprei o disco compacto, porque não tinha dinheiro para comprar o LP, long Play. Comprei o disco de Michael Jackson, “One day in your life”.


Como as aulas de inglês do professor John Borten, na escola, não permitiam ainda ler frases completas, fui perguntar para minha mãe o que significava “One day in your life”, ela disse: Um dia na sua vida. Explicou, mas não informou. O que eu queria saber era o sentido da música, que tanto me fascinava. Ela deveria ter dito: a música fala que o amor , um dia, o amor vai chegar na sua vida.



Michael Jackson, one day in your life,1975.

One Day In Your Life

Michael Jackson. 1975.


One day in your life

You'll remember a place

Someone touching your face

You'll come back and you'll look around, you'll

One day in your life

You'll remember the love you found here

You'll remember me somehow

Though you don't need me now

I will stay in your heart

And when things fall apart

You'll remember one day

One day in your life

When you find that you're always waiting

For a love we used to share

Just call my name, and I'll be there

You'll remember me somehow

Though you don't need me now

I will stay in your heart

And when things fall apart

You'll remember one day

One day in your life

When you find that you're always lonely

For a love we used to share

Just call my name, and I'll be there



Por essa época de 75, minha irmã Ana, também, estava na sua conturbada adolescência. Era como na música de Luís Gonzaga, Xote das meninas, de 1953, ela só pensava em namorar:


De manhã cedo já tá pintada

Só vive suspirando, sonhando acordada

O pai leva ao dotô a filha adoentada

Não come, nem estuda

Não dorme, não quer nada


Por essa época, já não ouvíamos música na vitrolinha de criança, já estávamos usando a radiola da sala, bem mais potente. Nessa época, também Ana, a irmã, me chega em casa com um disco de Fagner, “Manera Fru Fru Manera ou O Último Pau de Arara”, 1973.


Fagner, “Manera Fru Fru Manera ou O Último Pau de Arara”, 1973.


Ana, não satisfeita, em ouvir esse disco, noite e dia, um belo dia, resolve tentar se matar. Tomou uma lata de veneno para baratas, o famoso Detefon.

O resultado de tudo isso foi uma corrida ao Hospital Evangélico do Bairro da Serra, onde foi socorrida. Felizmente, não morreu. A vida acidentada dessa minha irmã, valia um livro.


Sempre independente, arrogante e depressiva, minha irmã acabou morrendo em um mega depressão, com alcoolismo, após a morte da mãe, em 1991.


Nesta mesma época, meu irmão Alfredo começa a usar maconha, como estávamos em plena ditadura militar e era proibido fumar, como dizia a música de Roberto Carlos, ele foi parar no DOPS, como militante , subversivo político e negro.


O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi um órgão de repressão brasileiro utilizado principalmente durante a Ditadura Militar (1964 à 1985).


Um lugar fortuito, escondido, para os gays se encontrarem, na década de 70, em Belo Horizonte, era o Parque Municipal, à noite.


Quando fui transferido para estudar à noite, tinha o hábito de ir ao parque passar a madrugada em aventuras sexuais e amorosas com gays, e num desses dias a policia me pegou e me fichou como vadiagem, bandidagem, viadagem, sei la. Entrava para as fichas criminais da ditadura. Negro, homossexual, pobre, só podia ser bandido mesmo.


Enquanto meu irmão Alfredo, se envolvia com maconha, eu e Ana começamos a experimentar o álcool, como droga. Antônio, o irmão mais novo, pela idade, não estava envolvido na onda do sexo, drogas e rock and roll. No meu caso, a experiência com álcool, nasceu aos 15 anos, numa festa de crianças.


Dr. Novaes, nosso vizinho, comemorava mais um aniversário de Bebel, sua filha criança, estava lá eu, tomando meu velho e bom Guarana Champanhe Antártica. O engenheiro, Dr. Novaes, me aborda e me pergunta quantos anos eu tenho, respondo que 15, ele retruca, então já pode começar a beber. Trouxe para mim um copo de Whisky.


Ao tomar o tal Whisky, foi igual ou melhor que ter batido uma punheta, com sensação maravilhosa e euforia, e relaxamento, que bebida perfeita, pensei. Começa aí um abismo que iria trilhar na minha vida.


A cultura jovem explodia em nossos corpos e mentes. Sexo, drogas e rock and roll. Minha irmã Ana, gostava de Heavy Metal, Alfredo, Hard Rock, e eu mais bichinha romântica, gostava das baladas românticas americanas, da músIca, na nascente Era Disco, da música popular brasileira e das breguices populares que tocavam no rádio e na televisão.


Uma música, em 1975, marcou os três filhos rebeldes da família, “Ovelha Negra”, de Rita Lee.



Ovelha Negra

Rita Lee, 1975.


Levava uma vida sossegada

Gostava de sombra e água fresca

Meu Deus, quanto tempo eu passei

Sem saber


Foi quando meu pai me disse

Filha, você é a ovelha negra da família

Agora é hora de você assumir e sumir


Baby, baby

Não adianta chamar

Quando alguém está perdido

Procurando se encontrar


Baby, baby

Não vale a pena esperar, oh não

Tire isso da cabeça

E ponha o resto no lugar

Não sabíamos muito o que estávamos fazendo, como se diz, estávamos navegando na onda da cultura. No caso, a geração de 70 estava viajando na contra cultura.


O principal objetivo da contracultura era se opor às normas e padrões estabelecidos pela sociedade dos anos 50 e 60, , que sempre aprisionou os hábitos, costumes, valores e tradições, aos valores de uma cultura ditatorial. Então , se sexo drogas e rock and roll libertam e contestam a opressão, que sejam bem vindos, ainda que suas consequências possam ser não só positivas


Estamos no ano de 1975, auge da ditadura militar, minha família era de classe média baixa, e todo o contexto sócio econômico decorrente desta posição social de classe. Hoje olhando para trás vejo que tínhamos pequenos luxos, como comprar discos ou LP, ou long play de vinil. Numa dessas visitas às lojas de discos acabei comprando, claro com dinheiro de minha mãe, um LP do grupo de música POP, pré era disco: KC and the Sunshine Band.


Ao chegar em casa, foi aquele xarope de adolescente, ou seja ouvir a música (That's the Way (I Like It) até furar o disco, além de mega dançante, o disco era um convite à se soltar, e me soltei tanto ouvindo KC and the Sunshine Band de 1975. que meu irmão simplesmente desapareceu com o disco. O mais incrível foi que sabia que foi ele que deu fim ao meu LP, mas não houve briga por causa disso.


Como ele, meu irmão declarou na década de oitenta, 1979, eu tinha a pomba gira no corpo, em tom de reprovação, me vendo pintar as unhas e me travestir para sair na banda Mole de Belo Horizonte, Risos.


KC And The Sunshine Band, 1975, foi 
 um grupo musical norte-americano. Fundado em 1973, o seu estilo incluiu funk, pop e disco


Comprei o disco do Grupo Inglês Queen , “A Night at the Opera”, nem sabia que era um grupo gay. Sobre o disco do grupo Kc and Sunshine Band, de 75, a música era boa pra dançar. Para coroar esta época de explosões, assistir no Cine Paladium, em Belo Horizonte, a ópera rock Tommy, de Ken Russell, com Roger Daltrey, Oliver Reed, Ann-Margret e Elton John. Em resumo, a angustiante opera fala de repressão e libertação da juventude.


Tommy, de Ken Russell, 1975

Ser gay, ser negro, ser pobre, na década de 70 era muito difícil, era nadar contra a corrente, noite e dia. Não é fácil lutar contra uma cultura que quer te caçar e matar todo dia. É natural que a pessoa desenvolva sintomas depressivos e, que muitas vezes, tente se matar.


Lutar todo dia contra a família, contra a escola, contra a rua, contra a igreja, contra o Estado, muitas vezes nos leva a impotência e à vontade de morrer. O mundo todo nos diz: você está errado, e a gente acaba se sentido errado mesmo.


A família massacrando, a escola massacrando, a igreja massacrando, a sociedade caçando para matar, mesmo assim a bicha resiste. Era um inferno passar todo dia em frente ao Bar do Saloom, no bairro da Serra, e ouvir um couro de machos bêbados me vaiando.



Paciência , tem limites, e a minha, na década de 70 estava se esgotando, a gota d’água estava se aproximando.



Gota d'Água, Simone. 1975.


Já lhe dei meu corpo

Minha alegria

Já estanquei meu sangue

Quando fervia

Olha a voz que me resta

Olha a veia que salta

Olha a gota que falta

Pro desfecho da festa

Por favor



Deixe em paz meu coração

Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não

Pode ser a gota d'água


Um barril de pólvora, esse era o estado do meu baile de 15 anos, “Deixe em paz, meu coração, que ele é um pote cheio de mágoas”, e a qualquer momento podia explodir.


O que tenho a dizer dos meus 16 anos, é que, eu era uma bicha muito feia, era preta, magra, odiava meu cabelo crespo, e para piorar tudo, pobre, ou classe média remediada. Eu me rejeitava, porque o sistema social me rejeitava, é o que se diz, quando a pessoa introjeta a rejeição social como se fosse sua.

O sistema me rejeitava, para piorar a situação, eu aceitava essa opressão estrutural. Então, não precisa mais do sistema social para me reprimir e oprimir, eu mesmo fazia a tarefa de me auto rejeitar e oprimir.

A vida da gay, se tornava um inferno completo. O inferno estava em todos os locais, fora e dentro da vida. A maldição judaíco-cristã se realizava em toda sua plenitude.



Procurado, vivo ou morto, bicha, preta, pobre, Belo Horizonte, 1976.

Depois de ser fichada pela polícia, no parque municipal, porque estava paquerando, eu tinha, finalmente, a minha ficha criminal, marca da Ditadura Militar, que, todos sabem, perseguiu muito os gays.


A cena gay dos anos 70, especificamente, 1975\76, foi marcada por luzes e sombras. Se por um lado o movimento começava a se afirmar socialmente, a gente vivia nas sombras da noite, nos bares, ruas, e lugares escuros e escondidos,  onde o amor proibido podia se fazer. 


MUNDO GAY ANOS 70 EM BELO HORIZONTE, FIGURAS ICÔNICAS: CABELEREIRO NERO E TRAVESTI PAULETTE.


Neste momento, vou citar o pesquisador Luiz Morando, 2022, sobre a cena gay em Belo Horizonte:


“O cabeleireiro Nero é uma verdadeira lenda em Belo Horizonte. Nascido em São João del Rei, Nero se transferiu para BH ainda nos anos 60. Extremamente feminino e andrógino para a época, foi constantemente visado pela “polícia de costumes” na tentativa de ser coibido e “corrigido”.
Em 1969, abriu seu salão na Galeria Ouvidor, no centro da cidade, tornando-se o primeiro salão unissex a atender clientes do sexo masculino e feminino sem distinção de horário (como foi comum até a época). Sua clientela formava longas filas no corredor da galeria, não apenas para cortar cabelo mas também para ver Nero atuando no salão. Clientes e curiosos misturados.
Nero também foi um artista famoso na noite LGBT, criando e participando de shows. Compôs também vários júris de concurso de Miss Gay e Miss Travesti ao longo dos anos 70, 80 e 90.
Ele se mantém fiel ao seu salão até hoje e se tornou Cidadão Honorário de BH pela Câmara de Vereadores da cidade.


O uso do masculino é uma escolha de Nero, que não se importa com os gêneros.








Imagens do acervo de Nero:

no início da década de 70;

na boate La Rue, no final dos anos 70 (e o do meio);

no júri de um concurso de Miss Gay no início dos 80 (à esquerda da foto, ao lado de Sofia de Carlo, no meio, e Valéria).


Eu, particularmente, nunca tive contato com Nero, a não ser visual. Nero era uma lenda. Eu era adolescente, 15 ou 16 anos e ia dar uma espiada, com medo, em seu salão, porque a sociedade criticava muito. Tive mais contato com os travestis Pauleti e Selma, frequentadoras do bar Polo Norte, na Avenida Afonso Pena, do lado do Hotel Financial.






Paulette, com seus grandes olhos azuis e suas pernas impecáveis, muitos brilhos e paetês, ficava junto com Selma bebendo no fundo do bar. Eu como não tinha dinheiro para comprar bebidas ia sempre lá, conversar um pouco e tomar um copo de cerveja de graça.


A cena mais engraçada que me lembro com o travesti Paulette, foi ela nos convidar para irmos à boite La Rue. Fomos de Taxi, até aí, tudo bem, mas na porta, ninguém tinha dinheiro pra entrar. Pauletti sacou um baseado de sua bolsa, deu para o porteiro e botou a galera gay pra dentro da Boate, aí foi só festa.


Para Geraldo de Castro, 2020, Paulette era a Big Star. Quem conheceu nunca mais a esqueceu. O movimento LGBT em BH, passa obrigatoriamente, pela história de Paulete. Era brava, muito brava, mas tinha um coração enorme e ajudou muitas pessoas.


Para Luiz Morando, 2020, Eduardo Saboya pediu para ele, Morando, fazer um resgate da travesti Paulette Star ou Paulette Big Star, aqui de Belo Horizonte. ” Ela viveu o auge de sua carreira nos anos 80 e início dos 90. Ainda é preciso levantar muita informação sobre sua trajetória, mas um ponto de partida pode ser este.

Paulette se estabeleceu primeiro no campo da prostituição, nos anos 70. Ela controlou um território de atuação na av. Afonso Pena, entre a Praça Sete e a praça da Rodoviária. Desde o início dos anos 60, a praça Sete já tinha também essa identidade. Paulette estabeleceu como epicentro de sua área o bar Polo Norte, ao lado do Hotel Financial, e dominava aquela extensão com força. Daí nasceu a imagem ambígua de quem articula controle e violência (a quem surge como ameaça) com acolhimento e solidariedade (a quem precisa de proteção).

Na virada de 70 para 80, ela se afirma como cabeleireira e artista nas boates LGBT da cidade. Em 1981, aos 33 anos, morando na rua Mariana, 231, ela trabalhava em salão de beleza e já fazia show na boate Chez Eux, que pertencia a Norma Sueli, um dos ícones da lesbianidade belo-horizontina.

Paulette esteve presente na inauguração da boate Le Club, em agosto de 1983, onde atuou até o final da década fazendo shows e apresentando concursos. Mas atuou também em diversas outras boates, como a Castelo Rei Ludwig, em agosto de 1986, promovendo a escolha de Mister Boy 86. Na mesma boate, ela apresentou às quartas-feiras o Show de Variedades e Novos Talentos pelo restante daquele ano. Trabalhou ainda nas boates Plumas e Paetês (de Mani França, outro ícone das lésbicas de Beagá), Blue Boy e Fashion, entre outras.

Após se descobrir soropositiva, ela colaborou algumas vezes, por meio de suas atividades artísticas, nos primeiros anos de existência do Grupo de Apoio e Prevenção à AIDS (GAPA-MG), fundado em 1987, doando cachês.

Paulette tinha domínio de palco e cantava bem. Tinha a língua afiada e se defendia muito bem na noite, tanto com relação a um público mais debochado (por ter sido uma das primeiras travestis da cidade a utilizar silicone industrial, foi também uma das primeiras a ter os efeitos deformadores do produto), quanto a suas inimizades.

Não sei dizer exatamente, mas ela faleceu em algum momento de meados dos anos 90.”


Não podemos nos esquecer da travesti Selma, que estava sempre tomando cerveja no Bar Polar, de BH. Ao contrário de Paulette Star, sempre estrela, Selma se caracterizava por ser uma mulher travesti comum. Não chamava atenção e tinha uma postura natural, que facilmente era confundida com uma mulher Cis.




CONJUNTO SULACAP E SULAMÉRICA A GALERIA DO AMOR OU BECO DA MAYSA










Na década de 70, na gíria gay, era chamado o beco da Maysa ou Galeria do Amor. Local de encontro homoafetivos.


Junto com a Avenida Afonso Pena, chamada pelos gays de “A Pista ou Passarela de desfile”, local de pegação, à noite, o conjunto Sulacap, o Parque Municipal, e até mesmo a rodoviária e a zona de prostituição do centro de Belo Horizonte eram, sempre a noite, o sub mundo onde os gays podiam, dar expressão ás suas existências.


O conjunto arquitetônico Sulacap/Sulamérica é no estilo art déco, com a simplificação formal das linhas gerais. O estilo segue ainda representado em diversas construções no Brasil, principalmente em Belo Horizonte, uma cidade planejada e construída no período em que a produção deste estilo estava em destaque. O edifício Sulamérica foi concebido para uso misto e o Sulacap para uso exclusivamente comercial. Roberto Capello, ao projetar o sulacap/Sulamérica integrou as duas torres na geometria do plano urbanístico da cidade, pensando não apenas no terreno a ser trabalhado, mas também na paisagem da cidade e no seu usuário. A implantação proposta possibilitou a criação de uma praça descoberta entre os dois prédios, que ficou conhecida popularmente como Praça da Independência e veio a ser de uso público. A mesma possuía jardins e uma bela vista privilegiada do Viaduto de Santa Teresa. A ideia inicial da praça era a de emoldurar o referido viaduto e criar um espaço de convívio no centro da cidade, mas infelizmente, na década de 1970, esse espaço sofreu drástica descaracterização, com a construção de uma edificação de três pavimentos.

O beco da Maysa ou Galeria do Amor era local de encontro homoafetivos



A Galeria do Amor

Agnaldo Timóteo, 1975.







Numa noite de insônia saí

Procurando emoções diferentes

E depois de algum tempo parei

Curioso por certo ambiente

Onde muitos tentavam encontrar

O amor numa troca de olhar


Na galeria do amor é assim

Muita gente à procura de gente

A galeria do amor é assim

Um lugar de emoções diferentes

Onde a gente que é gente se entende

Onde pode-se amar livremente


Numa noite de insônia saí

E encontrei o lugar que buscava

A galeria do amor me acolheu

Bem melhor do eu mesmo esperava

Hoje eu tenho pra onde fugir

Quando a insônia se apossa de mim


Como dizia Guilherme Arantes, “Eu daria tudo, por um modo de esquecer. Daria tudo, por meu mundo e nada mais”.



Meu Mundo e Nada Mais

Guilherme Arantes, 1976.



Quando eu fui ferido

Vi tudo mudar

Das verdades

Que eu sabia


Só sobraram restos

Que eu não esqueci

Toda aquela paz

Que eu tinha


Eu que tinha tudo

Hoje estou mudo

Estou mudado

À meia-noite, à meia luz

Pensando!

Daria tudo, por um modo

De esquecer


Eu queria tanto

Estar no escuro do meu quarto

À meia-noite, à meia luz

Sonhando!

Daria tudo, por meu mundo

E nada mais

Não estou bem certo

Se ainda vou sorrir

Sem um travo de amargura

Como ser mais livre

Como ser capaz

De enxergar um novo dia


Se por um lado, os hormônios, me davam força para enfrentar, desbravar e explorar o novo mundo que se abria para mim, por outro lado, me retraia, porque me sentia num mundo inóspito. Só queria meu mundo e nada mais.

16 anos era um mix de ansiedade e depressão. Como estava vivo, e a vida tem essa pulsão de vida, essa vontade de viver, instinto de sobrevivência, a gente vai driblando os obstáculos, quando não é derrubado pela depressão.


Meus pais, estavam separados, a vida era dura, pouco dinheiro, vida de classe média baixa. Minha mãe trabalhava para sustentar a família, e a presença do pai se resumia à pensão e as visitas rotineiras aos filhos, que o ignoravam.


Moeda dos anos 70, o Cruzeiro, Brasil, 1976

A rotina cotidiana consistia em ir para a Escola Estadual do Bairro da Serra, com um agravante agora, devido à idade, fui transferido para o turno noturno.

Estudar à noite, para mim, foi maravilhoso, porque, em plena adolescência, tinha contato com adultos. É melhor conviver com adultos, do que com panacas adolescentes, que não sabem o que querem, nem o que são, nem pra onde devem ir.


À noite, depois das aulas, saia com Dalton, um jovem, branco, daqueles bonitões da escola, a gente tinha encontros fortuitos, na noite, nos terrenos abandonados, para fazer sexo. Também conheci o porteiro da escola, Dijon, mas esse foi amor platônico, não deu em nada.


Embora nos meus 16 anos, tivesse pouco ou quase nada de consciência política, sabia que estávamos em uma Ditadura Militar, e esse fato era odiável, pelo simples fato de não haver liberdade. Naturalmente, não podia avaliar mas podia sentir as consequências nefastas desse sistema, na vida de uma pessoa.


Meu pai, apesar de militar, nunca foi metido na política, minha mãe, apesar de uma postura militaresca, era uma democrata. Enfim, no ar, pairava um peso, um medo, um espírito opressivo. Isso para um adolescente, gay, só complica mais a sua situação. Fazia parte da luta contra a opressão consumir certos produtos culturais de protesto. Eis que um belo dia chega meu irmão com um disco de Chico Buarque em casa: Meus caros amigos.


Chico Buarque, 1976.


A música, “O Que Será ? (A Flor Da Terra)”, fazia uma pergunta insistente, o que sera ? O que será? Conversando com amigos, chegamos à conclusão que o objeto da música era a liberdade escondida pela ditadura.


O Que Será (À Flor da Terra)

Chico Buarque, 1976.


O que será, que será?

Que andam suspirando pelas alcovas

Que andam sussurrando em versos e trovas

Que andam combinando no breu das tocas

Que anda nas cabeças, anda nas bocas

Que andam acendendo velas nos becos

Que estão falando alto pelos botecos

E gritam nos mercados que com certeza

Está na natureza


Será, que será?

O que não tem certeza nem nunca terá

O que não tem conserto nem nunca terá

O que não tem tamanho


O que será, que será?

Que vive nas ideias desses amantes

Que cantam os poetas mais delirantes

Que juram os profetas embriagados

Que está na romaria dos mutilados

Que está na fantasia dos infelizes

Que está no dia a dia das meretrizes

No plano dos bandidos, dos desvalidos

Em todos os sentidos


Será, que será?

O que não tem decência nem nunca terá

O que não tem censura nem nunca terá

O que não faz sentido


O que será, que será?

Que todos os avisos não vão evitar

Por que todos os risos vão desafiar

Por que todos os sinos irão repicar

Por que todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá

Olhando aquele inferno vai abençoar

O que não tem governo nem nunca terá

O que não tem vergonha nem nunca terá

O que não tem juízo


O que será, que será?

Que todos os avisos não vão evitar

Por que todos os risos vão desafiar

Por que todos os sinos irão repicar

Por que todos os hinos irão consagrar

E todos os meninos vão desembestar

E todos os destinos irão se encontrar

E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá

Olhando aquele inferno vai abençoar

O que não tem governo nem nunca terá

O que não tem vergonha nem nunca terá

O que não tem juízo


Em 76, nem tudo era divino, muito menos maravilhoso, nem vivíamos na melhor cidade da América do Sul. Como diria, Belchior: “Mas sei Que tudo é proibido. Aliás, eu queria dizer que tudo é permitido, até beijar você, no escuro do cinema, quando ninguém nos vê”.


BELCHIOR – ALUCINAÇÃO, 1976


Aos poucos meu espaço de expressão afetivo e erótico, se mudava das ruas e do parque para os cinemas, espaços escuros, onde o gay podia beijar e ninguém via. Então vivia pelos cinemas, ora assistindo os filmes, ora passando a tarde toda, esperando alguém para amar, no escuro e nos banheiros.


Encontros eróticos gays, em bares, ruas noturnas, praças, parques públicos ou cinemas era uma atividade totalmente clandestina. Nessa época contraí minha primeira doença venérea. Sabia que estava doente, porque já tinha lido o livro do Dr. Fritz Kahn, aquele que recomendava o casamento hétero feliz. Mas o que fazer ? Não tinha dinheiro, não podia ir ao médico sozinho.


Na falta do pai, acabei contando a minha mãe essa situação vexatória. Ela foi muito técnica, me levou no médico. Depois dos antibióticos, tudo bem, então voltar para o vício do sexo, no parque municipal, nos cinemas, e pegar doenças de novo. Como já sabia o caminho, eu mesmo ia me tratar, com o plano de saúde do meu pai, que durou até 1984.


Precisamos falar sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis e Direitos Reprodutivos.


Na minha adolescência, na década de 70, já haviam Doenças Sexualmente Transmissíveis, for falta de educação sexual, nas escolas, acabei contraindo duas doenças, a sífilis e a gonorreia. Não tive filhos porque não me relacionava sexualmente com mulheres.


Além de proteger contra abuso sexual, a educação sexual na escola ajuda a evitar casos de gravidez precoce e doenças sexualmente transmissíveis. Para isso, é recomendado planejar um aprendizado que tenha conteúdo significativo para os estudantes, com o intuito que eles possam aplicar o que aprenderam.


Infelizmente, por ser tema tabu em nossa sociedade conservadora e cristã, a educação sexual é tema pouco trabalhado nas escolas, os resultados desta política são devastadores, principalmente para os jovens.


Carteira de beneficiário do plano de saúde de meu pai, Belo Horizonte, 1984.


Em 1977, com o início do divórcio no Brasil, meus pais se divorciaram, à contragosto de minha mãe, que não queria dar o divorcio, por causa da igreja. A Igreja Católica não reconhece o divórcio, e prega que o casamento é para sempre


Precisamos falar de LGBT+ no mundo do trabalho. Aos 16 anos, estudando à noite, no meio de trabalhadores, minha família passando precariedades econômicas, pensei, devo trabalhar de dia e estudar à noite. Solução perfeita para vários problemas da sobrevivência. Mas gays no mundo do trabalho é um problema social.


Apenas um rapaz latino-americano

Canção de Belchior, 1976.


Eu sou apenas um rapaz

Latino-americano

Sem dinheiro no banco

Sem parentes importantes

E vindo do interior…….



Muitas vezes, a exclusão que essa população sofre desde a sua infância, os impede de traçar um caminho com educação de qualidade, resultando em alguns casos em uma má formação profissional e, por conseguinte, falta de oportunidade de emprego formal.

A discriminação é ainda maior entre pessoas trans e gays denominados como os “afeminados”, aqueles de muitos “trejeitos”, mesmo quando eles possuem as qualificações necessárias, sofrem discriminação e não são contratados.

Quando contratados, é frequente que sejam obrigados a seguir normas sociais, ou seja, são instruídos a não falar ou a se vestir de maneira que oculte sua identidade de gênero e sexualidade, provocando um desconforto tão grande, que na maioria dos casos, pela pressão sofrida, não aguentam e desistem da vaga.


Aos 16 anos, eu, gay, negro pobre, resolvi trabalhar para me ajudar e ajudar minha família, estava bem animado, tudo parecia que ia dar certo. O plano era perfeito. Fiz minha carteira de trabalho, como não tinha qualificação nenhuma, pensei vou começar por baixo, aceitando um emprego de office boy.


No jornal, achei aquele anúncio, bem pequenininho, pedido um office boy. Uma luz se abriu na minha vida. Todo um mundo se oportunidades eu vislumbrava. Via que meus amigos da escola noturna eram livres e autônomos, porque tinham um trabalho. Eu também queria ser assim.


Caos, desilusão e uma péssima impressão foi tudo que restou do mundo do trabalho, após minha primeira experiência, que durou 3 dias apenas. Depois de fazer meu trabalho de office boy, a dona de uma boite, me mandou lavar a casa dela, todinha. Pensei, fui contratado para office boy, não faxineiro.


Como queria o emprego, fiz a faxina da boite toda, após concluir o trabalho, perguntei se podia ir embora. A minha empregadora, me perguntou em tom de deboche e desprezo, porque eu “era assim”, “tinha uma voz tão fina”……….. Meu mundo caiu (risos, Maysa), mas meu mundo desabou mesmo.


Um abismo se abriu debaixo dos meus pés e me engoliu. Fiquei calado e perguntei se podia ir embora. Ela disse que sim. O mundo girava, e tudo parecia perder sentido, realmente, meu mundo ruiu. Se pudesse me matar, naquele momento me mataria. Meu moral foi a zero. O mundo girava e rodopiava diante dos meus pés.


Belo Horizonte, década de 70.

O que fazer ? Voltar para casa, voltar para o quarto escuro ? Me trancar no meu mundo e nada mais. Como dizia a música de Guilherme Arantes: “Daria tudo, por um modo de esquecer”. “Das verdades, que eu sabia, só sobraram restos”. Contei tudo a minha mãe, que me aconselhou a voltar ao trabalho e pedir demissão no terceiro dia de trabalho.


No dia seguinte, morrendo de medo, voltei ao trabalho, para pedir minha carteira de trabalho, de volta, orando à Deus, para que a mulher não me agredisse de novo. Depois dessa experiência, pensei, o mundo do trabalho não é para gays , esqueça isso. Estava configurado mais um trauma na vida do gay: A rejeição pelo mundo do trabalho.


A Consequência deste trauma, foi ficar sem trabalhar de 1976 a 1982 e por mim, nunca mais voltaria ao mundo do trabalho, justamente o mundo que pode salvar o gay. Idas e voltas, entradas e bandeiras. são coisas da vida, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica.


Rita Lee - Coisas Da Vida – 1976.


Quando a lua apareceu

Ninguém sonhava mais do que eu

Já era tarde

Mas a noite é uma criança distraída

Depois que eu envelhecer

Ninguém precisa mais me dizer

Como é estranho ser humano

Nessas horas de partida

Ah ah ah, é o fim da picada

Depois da estrada começa

Uma grande avenida no fim da avenida

Existe uma chance, uma sorte, uma nova saída

Qual é a moral?

Qual vai ser o final dessa história?

Eu não tenho nada pra dizer, por isso digo

Que eu não tenho muito o que perder, por isso jogo

Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho




Minha revolta social, se intensificava, ao mesmo tempo que via poucas saídas para minha vida clandestina. Estava num beco sem saída. Eu não tinha nada pra dizer, por isso dizia. Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonhava.


Os anos de 1977, 1978 foram anos de pré maioridade. Na maioridade, estaria emancipado da tutela da família e do Estado. Aproveitando a oportunidade resolvi também romper definitivamente, meus laços com a Igreja Católica.


A igreja, na década de 70, apesar de combater a ditadura militar, quando o assunto era mundo gay, não ajudava em nada. Então, entre ficar ouvindo as maldições contra gays na igreja, resolvi me lançar nas pistas de música e dança. Estávamos entrando na Era Disco.


A era disco foi a era do “Gay Power”, finalmente os gays chegavam às mídias e ao poder, depois de muitas lutas, eram as estrelas do momento.



Óculos Ray Ban, cabelos alisados, em 1977, se apresentando para o alistamento militar, em Belo Horizonte. Se pegasse o serviço militar iria declarar que era gay, para ser dispensando.


Costumo chamar, os anos de 1977 a 1981, os anos da revolução. Teremos várias revoluções acontecendo ao mesmo tempo, a “Gay Power”, a “Black Power”, a Revolução do feminista, a pressão por democracia, com Greves de trabalhadores e movimentos socais contra a ditadura.


Em 1977, estava no último ano do ensino fundamental, na Escola Estadual do bairro da Serra. Nesse período que vai de 1977 a 1982, foi um tempo no qual vivia economicamente na dependência da pensão de meu pai e apoio de minha mãe, então roupas, discos, finais de semana, cinema, tudo era financiado pela família.  

Em 1978, ainda com 17 anos fui transferido para o Colégio Estadual Central de Belo Horizonte, onde iniciaria o ensino médio. Plena ditadura, estamos no governo do General Geisel. 

O Governo Ernesto Geisel, também conhecido como Governo Geisel, teve início com a posse do General Ernesto Geisel como presidente da República em 15 de março de 1974 e terminou em 15 de março de 1979 quando assumiu a presidência da República o General João Figueiredo. 

Depois de assumir para minha mãe, a minha orientação gay, resolvi me soltar no mundo mesmo. Desta forma, no Colégio Estadual, eu escandalizava me exibindo e mostrando como rapaz gay, ou bicha louca.





Corredor de subida para as salas do Colégio Estadual Central. Quantas vezes subi essa rampa dando show e escândalo, com minha camisa branca de tecido viscose brilhante. ?  Belo Horizonte, 1977.




Quadra de esporte do Colégio Estadual Central, bh, mg anos 70,80.

Vou ter que dar meu depoimento sobre minhas peripécias gays nos, anos 1978 a 1980 no Colégio Estadual. Barbosinha, o professor de educação física botou os meninos pra jogar bola e as meninas pra nadar. Eu, como gay, detestava futebol. Inventei pra Barbosinha que tinha problemas de respiração e precisa fazer natação. Ele, cabeça aberta, aceitou logo. Lá fui eu o único homem, fazer natação com as meninas. 



No primeiro mergulho, um show GAY. O short ficou boiando na agua e entrei pelado na piscina, com o impacto do mergulho. Vida de gay, anos 70-80. Obrigado Barbosinha.

O Colégio Estadual Central, foi para mim um grande palco, onde pude me afirmar em minha sexualidade e me envolver em lutas estudantis.

Meu irmão mais velho, tinha o hábito que comprar todo tipo de jornal de contra cultura da época, os quais eu também lia, embora preferisse o Lampião da Esquina que tinha uma temática mais gay.

Todo o caldo contra cultural dos anos 70 e 80 servirão de fermento para a grande revolução para derrubar a ditadura e libertar os corpos e sexos. Então bebia esse caldo para me fortalecer na luta.

No Colégio Estadual meu jeito contra cultural logo se aliou aos esquerdistas de plantão, que me levaram para o movimento estudantil. Então era movimento estudantil de dia e movimento gay de noite.

Hoje, revistando o Facebook do  Colégio Estadual Central, encontrei uma postagem de um pesquisador sobre a cena politica da referida escola. 

"Bruno Guimarães;
Boa tarde ex-alunos do estadual central!
Venho até vocês conversar um pouco sobre o colégio e sua história. Sou aluno do Mestrado em Educação na UEMG e a minha pesquisa tem o Estadual Central como objeto de pesquisa e a disciplina Educação Moral e Cívica.
Meu estudos buscará através de análise de livros didáticos e da história oral (memórias do ex-alunos) perceber como a disciplina foi introduzida na instituição como instrumento de controle político pedagógico do regime autoritário que regia o país na época.
Para isso estou em busca de ex-alunos da instituição que queira me ajudar nesta pesquisa. Que. Tiver interesse é só chamar no privado aqui no Facebook.
Para começar e quem lembrar o nome do livros ou livros de Educação Moral e Cívica que usaram na época já ficarei muito agradecido."

Fui na página dele e me comuniquei, pedindo para ler sua pesquisa sobre cena politica da referida escola. 
Lendo o trabalho de pesquisa; Caminhando contra o vento: o movimento estudantil do Estadual Central de Belo Horizonte durante a Ditadura Civil-Militar (1977-1979), pude relembrar as lutas do movimento estudantil, nos anos de chumbo da ditadura militar.

Nesta época (1977-1979) estava no movimento estudantil, mas meu olhar rebelde se estendia a vários campos da história e cultura. Naquele momento era preciso militar em várias áreas, racismo, homofobia, machismo, desigualdade social e múltiplas desigualdades.
  


Já sabemos que o jovem sob dependência financeira não pode dar seus gritos de liberdade e rebeldia. Mesmo assim, eles se revoltam, são chamados os rebeldes sem causa. São do contra, pelo simples fato ou desejo de dizer não aos pais.



Sou Rebelde

Lílian, 1978.


Eu sou rebelde por que o mundo quis assim

Por que nunca me trataram com amor

E as pessoas se fecharam para mim


Eu sou rebelde por que sempre sem razão

Me negaram tudo aquilo que sonhei

E me deram tão somente incompreensão


Eu queria ser como uma criança

Cheia de esperança e feliz

E queria dar tudo que há em mim


Tudo em troca de uma amizade

E sonhar, e viver, esquecer o rancor

E cantar, e sorrir e sentir só amor


No ano de 77, minha vida se restringiu, às minhas aventuras sexuais e eróticas nos cinemas de Belo Horizonte. Afetivamente, me sentia abandonado por pai e mãe, o que mês custava uma depressão crônica, que duraria anos.


Às vezes, me pergunto se minha depressão é de fundo genético ou , emocional, causando por desentendimentos com minha família. Uma pessoa passar anos, décadas, deprimido isso não deve ser normal. O resultado artístico dessa depressão foi uma obsessão por “love Songs”. Estava sempre ouvindo à noite aquelas enormes “play list” de músicas altamente depressivas, falando de amores que não deram certo.


Andy Gibb, 1977


Os “love songs”, me confortavam minha alma dizendo que o amor ainda existia, por um lado, me jogavam em uma grande sensação de derrota, pois nada dava certo.



I Just Want To Be Your Everything

Andy Gibb, 1977


For so long

You and me been finding each other for so long

And the feeling that I feel for you is more then strong, girl

Take it from me

If you give a little more then you're asking for

Your love will turn the key

Darling mine

I would wait forever for those lips of wine

Build my world around you, darling

This love will shine girl

Watch it and see

If you give a little more then you're asking for

Your love will turn the key


I, I just want to be your everything

Open up the heaven in your heart and let me be

The things you are to me and not some puppet on a string

Oh, if I stay here without you, darling, I will die

I want you laying in the love I have to bring

I'd do anything to be your everything


Darling for so long

You and me been finding each other for so long

And the feeling that I feel for you is more then strong girl

Take it from me

If you give a little more then you're asking for

Your love will turn the key




Love Songs” e amores realmente nunca deram certo em minha vida, foi nesse período que conheci um grande amor de minha vida, numa madrugada no Parque Municipal de Belo Horizonte. O parque à noite era um ambiente clandestino de namoro entre gays. No escuro, sozinho, lá estava ele, Aluísio, esse mais romântico, que eu.


Aluísio, Belo Horizonte, 1977.

Ao ver aquela figura sombria, misteriosa, linda e solitária me apaixonei platonicamente por ele, ficamos amigos e durante muitos anos. Frequentei sua família, enquanto assistia às suas sucessivas tentativas de suicídio, o que me deixava mais apaixonado por ele. A Trilha sonora do meu amor por ele era uma música de Tom Jobim e Vinícius de Morais, “Falando de amor” , cantada por Ney Matogrosso, ícone musical gay da época de 1979.


FALANDO DE AMOR - NEY MATOGROSSO, 1979.


Se eu pudesse por um dia

Esse amor essa alegria

Eu te juro te daria

Se pudesse esse amor todo dia


Chega perto Vem sem medo

Chega mais meu coração

Vem ouvir esse segredo

Escondido num choro-canção


Se soubesses Como eu gosto

Do teu cheiro teu jeito de flor

Não negavas um beijinho

A quem anda perdido de amor


Chora flauta Chora pinho

Chora eu o teu cantor

Chora manso bem baixinho

Nesse choro falando de amor


Quando passas Tão bonita

Nessa rua banhada de sol

Minha alma segue aflita

E eu me esqueço até do futebol


Vem depressa, vem sem medo

Foi prá ti meu coração

Que eu guardei esse segredo

Escondido num choro-canção

Lá no fundo do meu coração



Devido ao trauma homofóbico da minha primeira tentativa de trabalhar, não quis mais saber disso. Então vivia mesmo só para estudar, e graças à Deus sempre gostei de estudar, pesquisar, conhecer.


Em 1977, finalmente, meus pais se divorciaram, e minha mãe passou o imóvel que morávamos para o uso fruto dela, e os filhos como herdeiros. A presença de meu pai, era algo invisível em minha vida, devido à alienação parental de minha mãe. Apesar de ter um pai relativamente presente, o que minha mãe consegui, foi anula-lo e transformá-la num super poder, que a tudo controlava, ela era o pai e a mãe.


A televisão à cores finalmente chega ao Brasil, minha família, não pode comprar, porque era cara, também não compramos um plástico colorido , que dava a sensação “fake” de estar vendo TV à cores.




TV à cores, Brasil, 1972.

Vivia uma vida mundana, não frequentava mais os ritos da igreja católica, troquei minha espiritualidade pela yoga, que agora frequentava, no Bairro das Mangabeiras, onde pedi para pagar menos, porque era um ambiente para madames e não tinha dinheiro para aquilo.


A professora de arte yoga, Marília Palheta, me perguntava, porque meus desenhos eram todos negros? Não tive coragem de confessar o motivo, essa cor negra e cinza me acompanhou por muitos anos em minhas depressões.

Se meu amigo tinha coragem de tentar se matar, eu só tinha a vontade. Pensando bem, devia ter me matado mesmo. Foi nessa época que Maysa Matarazzo atriz, cantora e compositora se suicidou se jogando da Ponte Rio Niteroí, a tal cantora de “Meu Mundo caiu”.


Se minha mãe gostava dos dramalhões dos anos 50, de Hollywood, meu gosto para cinema balançava entre a indústria cultural americana, como no filme Star War, e os filmes de arte europeus, dessa forma ví filmes tais como: Cet obscur objet du désir, de Luis Buñuel, e Padre padrone, de Paolo e Vittorio Taviani, Cria cuervos, de Carlos Saura, com Geraldine Chaplin, Una giornata particolare, de Ettore Scola, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, esse um filme sobre um gay, no período fascista italiano.


Una giornata particolare, de Ettore Scola, com Sophia Loren e Marcello Mastroianni, filme gay, 1977.


Para não dizer, que 1977, não foi um desastre total, por essa época, comecei , ainda em idade menor, frequentar algumas boites gays de Belo Horizonte, com a “La Rue”, e “Chez Eux”,a era Disco estava começando, trazendo um banho de água fria e alegria nas minhas depressões.


Em 1977, é lançada a pedra fundamental da Era disco, com o filme: “Saturday Night Fever” (no Brasil, Os Embalos de Sábado à Noite); em Portugal, Febre de Sábado à Noite). Belo Horizonte, já tinha vários lugares gays, preparados para receber esta revolução.



Cine pornô, palco da cultura marginal LGBT+ Candelária, Belo Horizonte, 1980.



Local de paqueras gays clandestinas, na década de 70, Cine Metrópole, Belo Horizonte, “Grease” - Nos Tempos da Brilhantina - Filme 1978


Edson Nunes, ativista LGBT da época, conta algumas casas noturnas que existiam em Belo Horizonte nos anos 70\80: Chez eux, Marrom Glacê (de freqüência mista), Brulé (talvez coincida com Bluele, ou La Rue – Barro Preto) que depois veio a se chamar Double Face, Freedom (Bias Fortes), Vaga Lume (Tupis com Olegário Maciel), Quibe Lanche (R. Espírito Santo), Aquarius, Rei do Kibe, Ki-Copacabana, Plumas e Paetês e muitos outros.


Por essa época travei amizade com um gay na boite Brulé, Eduardo. Jovem de classe média média, morava no bairro Vila Paris, sua vida oscilava entre depressão e alegria. Na rua, gay, em casa, no armário. Esse rapaz entrou em uma depressão tão profunda, de anos, e por fim morreu em acidente de carro. Eduardo teve uma vida desgraçada, mesmo.


A revolução Disco, a Banda Mole, e a Era Gay, são um capitulo à parte e merece uma atenção especial.

A arte imita a vida, e a vida imita a arte, esta é uma estrada da mão dupla. A arte é um reflexo da sociedade, mas a sociedade, ao contemplar seu reflexo, se transforma.

Cria Corvos e eles te furarão os olhos, é um filme de 1976, dirigido por Carlos Saura. Através de uma narrativa original, Carlos Saura retrata a infância como o período triste em que a Espanha esteve sob a ditadura franquista. O filme foi lançado em 1976, quando o regime democrático voltava ao poder.



Cria Corvos, 1976.

Por outro lado, a leitura do filme como uma metáfora do fim da ditadura na Espanha impacta com maior contundência. Nesse sentido, Ana ou eu, a personagem central, representa a própria Espanha, olhando para o período franquista como uma triste infância.


Agora adulta, Ana, que poderia ser eu, poderá criticar seus pais, e seu país, observando que o passado deixou marcas profundas em sua vida e não será esquecido.


O título do filme deriva do dito popular “Cria corvos e eles arrancarão teus olhos.”. Por um lado, o ditado traduz a percepção amarga que Ana guardou de sua infância, por outro, traduz a vontade de se vingar, furando os olhos dos pais e do país, como uma reação natural pelo que recebeu.


Na perspectiva de minha vida familiar e no contexto político da ditadura do Brasil, era a hora de me vingar das pessoas e situações que me oprimiram no passado.

Após ver esse filme, contei o enredo para minha mãe, que inconscientemente, repetia o ditador popular espanhol: Cria corvos e eles te furarão os olhos. Era a hora de me vingar das violências pelas quais passei dentro da minha família, e na sociedade ditatorial que vivia.


A minha vida nos anos de 1978 -79, entrou em choque frontal com os valores cristãos, heterossexuais da minha família e país. Foi um período muito difícil. Não bastasse os vexames que havia passado nos 15 anos com a cura gay que minha mãe tentou fazer comigo, agora com 18 anos, ela vinha, da mesma forma violenta, me inquirir, se era gay.

Antes de dizer a resposta que dei a ela, é preciso falar de um filme que a vi, e depois levei minha mãe para ver. Ao leva-la para ver aquele filme, eu queria mostrar como eu via a nossa própria relação de filho e mãe.

Em, 1978, exatamente, no ano que completava 18 anos, e atingia minha maioridade, se passava no cinema o filme: Sonata de Outono de Ingmar Bergman.




Sonata de Outono, 1978.


Em resumo, o filme trata do relacionamento entre uma mãe pianista bem sucedida e sua filha emocionalmente fragilizada. Essa mãe sempre foi relapsa na criação de sua filha que, quando fica adulta, decide fazer um acerto de contas com sua genitora.


Não sei se por influência do filme ou pelo meu comportamento, que estava vivendo um romance homossexual, com um homem de idade superior a minha, um belo dia, minha mãe me chamou no quarto, para uma conversa particular. O assunto era uma pergunta. Uma simples pergunta. Uma pergunta que me destruiria, porque não havia necessidade de ser feita. Uma pergunta que me machucava.


Ela perguntou se eu estava gostando de homens, chorando, até pensei em fugir do assunto, mas não havia como, estava contra a parede e tinha que responder, disse que sim.


Não satisfeita com a minha decepcionante resposta, minha mãe perguntou se eu não gostaria de mudar de ideia, talvez fazer um tratamento psicológico, disse que não, e pedi para sair. Meu mundo, mas uma vez caia. Meu mundo desabava.


Peguei um ônibus, e fui para casa de meu amante, chorar minhas mágoas. Ele me perguntava o motivo do choro, e eu dizia que não era nada. O pior de tudo, era ele querer sexo, naquela hora, e mais pior ainda, depois de tudo voltar para dentro do abismo, a casa de minha mãe.


Neste momento, quem cantava a música “Meu Mundo Caiu”, não era minha mãe, ao ver seu casamento ser desfeito. Quem cantava, era eu, ao ver minha vida destruída. As consequências mais tristes dessa situação foram o agravamento de minha depressão, o desenvolvimento de ideias suicidas e a percepção que era um fracassado na sociedade e na vida.


A melhor tradução da dor que sentia, eu ouvia na canção romântica de Margriet Eshuys Lucifer - “Self Pity” , não me suicidei por um trís.


Self Pity

Lucifer,1978.


Love and friendship slipped away

Hurting us every day

Weeding out every joy

I was just like a toy

And now there we are apart

Breaking each other's heart

The tears that flow are not real

It's from self pity

That we've still

Emotion on our face

The hate hid in our soul

The lies are in your eyes


You and I we had no plan

I tried as hard as I can

To show you that I was right

You don't have to hide

The truth ain't that hard at all

Face it and stand tall

These tears that flow are not real

It's from self pity there is still

Emotion on our face

The hate hid in our soul

The lies are in your eyes


We've got no

We've got no right

Crying out of self pity

Crying out of self pity


Precisamos falar de saúde mental da população LGBT+. O ambiente social e familiar o qual o homossexual está inserido organiza-se a partir das concepções de gênero, sexo e sexualidade, seguindo uma perspectiva heteronormativa e binária, que se legitima através de práticas discriminatórias de violência física e psicológica.

Tais práticas violentas têm como consequência impactos na saúde mental dos indivíduos como a depressão, tentativa de suicídio, diminuição no desempenho escolar, no trabalho, assim como prejuízo na autoestima e no comportamento social dos homossexuais.

Por outro lado, pode haver a produção de uma personalidade reativa, defensiva, agressiva, e superior, onde o LGBT+ Transfere para si a personalidade do opressor.


Dentro do contexto de opressão que vivia, acabei desenvolvendo uma personalidade bipolar, entre o oprimido e o opressor, uma hora me sentia o maior de todos, em outras horas me sentia o pior dos humanos. Assim, destruído e precisando me reconstruir, cheguei aos meus 18 anos.


Composição visual, eu na Era disco, revolução gay, black power, abertura política, Belo Horizonte, 1978




Dancin Days

As Frenéticas, 1978.


Abra suas asas

Solte suas feras

Caia na gandaia

Entre nessa festa


E leve com você

Seu sonho mais lou

Ou, ou, ou, louco

Eu quero ver esse corpo

Lindo, leve e solto


A gente às vezes

Sente, sofre, dança

Sem querer dançar


Na nossa festa

Vale tudo

Vale ser alguém

Como eu

Como você.

Por sorte, o contexto político, social, cultural brasileiro e mundial era favorável aos gays. Vivíamos a luta dos trabalhadores, a “Revolução Gay”, a “Era disco”, o movimento “Black Power”, o feminismo e a abertura democrática da ditadura brasileira. Acho que este contexto social, foi o que me salvou de um suicídio.


TERRITÓRIOS LGBT+, ANOS 1977 Á 1978 EM BELO HORIZONTE


Num contexto histórico e social autoritário e opressivo, faço um  breve resumo, de meu percurso afetivo sexual, nos anos 70, principalmente entre os anos 1977 a 1978, ou seja dos meus 16 anos aos 18 anos, poderia dizer que transitei por vários territórios eróticos em Belo Horizonte.


Na década de 70 80, houve uma transição dos espaços no mundo LGBT em Belo Horizonte, de espaços marginais da cidade, frequentado por mendigos, bandidos e prostitutas, além de local para o encontro de “pederastas” e criminosos, para locais ou espaços de maior aceitação e menor discriminação social, fruto de muita luta por direitos Gays.


Aos poucos meu espaço de expressão afetivo e erótico, se mudava das ruas do bairro, na infância e adolescência, para as ruas do centro da cidade (Rua da Bahia, por exemplo) , avenidas (Avenida Afonso Pena, por exemplo), famosa Praça Raul Soares e o Edifício “gay” JK e o Parque Municipal e seus famosos banheiros públicos, que funcionavam 24 horas.


Dos espaços abertos das ruas, praças e banheiros públicos, eu migrava para os cinemas, (Cinema Metrópole, por exemplo) nesta época não tinha idade para frequentar os cinemas pornôs da cidade (Cinema Candelária, por exemplo) , então a pegação se dava nos cinemas convencionais, onde se passavam os filmes de sucesso, de arte da época ou até uma pornochanchada.


Com relação à pegação, procura de relações afetivas e eróticas, na rua, nós, os gays, íamos para as zonas clássicas de prostituição de Belo Horizonte, em 1977 à 1978. A região que agrupava as atividades de prostituição e de boemia era chamada de zona.


Nem sempre a zona comportava toda a prostituição da cidade, mas era o lugar mais conhecido e de maior concentração. Quem chegasse à cidade à procura de sexo, perguntava apenas: “Onde fica a zona?” Em Belo Horizonte, a zona localizava-se na parte mais baixa da cidade (daí que “descer” significava ir à zona), próxima à rodoviária) e à Praça da Estação Ferroviária, mais precisamente na região que Pedro Nava denominou “quadrilátero da zona”, que ficava entre Ruas da Bahia, Caetés, Curitiba e Oiapoque. Entre as ruas destacavam-se a Guaicurus e a Avenida Oiapoque.


O período, que compreende os anos 70 até 80, foi marcado pela emergência da atividade homossexual nos espaços públicos e semipúblicos, como ruas, praças, parques, saunas, cinemas, boates e bares destinados aos homossexuais.


Nas ruas, a prostituição feminina dividia espaço com os travestis e os michês, homens que se prostituem com uma imagem ligada à virilidade. As partes mais baixas do centro continuam a acolher a prostituição, mas, surgem novos lugares, verificam-se um espraiamento da prostituição e a conquista de novos espaços de afetos e sociabilidade LGBT, muitos deles em áreas nobres da cidade.


Confesso que alguns lugares, eu rapaz gay de classe média baixa, da zona sul de Belo Horizonte, não frequentava. Eram territórios de baixa prostituição, população pobre e crime, tipo a área Lagoinha, Bonfim. A Praça Vaz de Melo, porta de entrada da Lagoinha, atrás da rodoviária, era o centro dessa região, cujas ruas mais famosas eram Paquequer (pra quem quer, era o apelido da rua) e Bonfim.

Por se tratar de bairros vizinhos ao centro, Lagoinha e Bonfim Essas duas áreas eram pouco valorizadas devido à proximidade com as estações ferroviária e rodoviária, o Ribeirão Arrudas, a linha férrea e o Cemitério do Bonfim. Desta forma, estas áreas foram ocupadas pela marginalidade, entenda-se ai, prostitutas, ladrões, criminosos, michês e LGBTs negros ou não, mas na maioria negros e pardos.


A partir dos anos setenta emerge as figuras do gay, bicha, da lésbica ou sapatão, junto a prostituição masculina e gay, nas figuras de michês e travestis, altera-se consideravelmente a forma da prostituição feminina e há uma profunda reorganização espacial das atividades de prostituição, afetos e erotismo LGBT na cidade de Belo Horizonte.


Interessante também marcar, que vários hotéis que serviam à prostituição feminina, nos anos 70 e 80 começaram a admitir casais gays, ou homem com homem. A moral heterossexual se rendia ao poder do dinheiro LGBT, fruto da entrada dessa parte da população no mercado de trabalho.


Os programas, e encontros LGBT, normalmente ocorriam nos chamados “hotéis de alta rotatividade” (hotéis precários, que funcionavam como motéis) localizados no Centro, ou no próprio carro dos sujeitos e clientes. Os LGBT que tinham carro e maior poder aquisitivo optavam pelo Motéis, que entravam na moda no fim dos anos 70.


Definitivamente os motéis entravam na moda, nos anos 70. É famoso o caso da música feita para uma propaganda de motel que ficou muito conhecida na voz do ícone lésbico LGBT, Maria Bethania, o hit CHEIRO DE AMOR de 1979.


O primeiro responsável pela faixa foi o publicitário Duda Mendonça, que compôs, em 1979, um jingle para a campanha de Dia dos Namorados do motel Le Royale, localizado em Salvador, Bahia. No livro Casos e Coisas, o publicitário explica que o jingle estourou, e precisaram fazer diversas cópias para entregar aos frequentadores do motel.



Cheiro de Amor, 1979.

Maria Bethânia

De repente fico rindo à toa, sem saber por que

E vem a vontade de sonhar de novo te encontrar

Foi tudo tão de repente

Eu não consigo esquecer

E confesso, tive medo

Quase disse: Não


Mas o seu jeito de me olhar

A fala mansa, meio rouca

Foi me deixando quase louca

Já não podia mais pensar

Eu me dei toda para você


De repente fico rindo à toa, sem saber por que

E vem a vontade de sonhar de novo te encontrar

Foi tudo tão de repente

Eu não consigo esquecer

E confesso, tive medo

Quase disse: Não


E meio louca de prazer

Lembro teu corpo no espelho

E vem o cheiro de amor

Eu te sinto tão presente

Volte logo, meu amor




Nesse período de 70 e 80 se consolidam os lugares LGBT da cidade e a prostituição de travestis, michês e a definição de seus territórios. O termo “michê” é utilizado para designar um tipo específico de homem que se prostitui com uma auto-imagem e representação ligadas à masculinidade e virilidade.

O michê, boy, garoto de programa ou simplesmente “GP”, normalmente, não se considera homossexual, porque constrói sua masculinidade (papel de gênero) a partir de um comportamento sexual ativo.


Essa construção é válida, mesmo que seu cliente seja um homem e desde que este adote um comportamento sexual passivo. Além do mais, muitos não se consideram profissionais do sexo, encarando a prostituição como uma atividade secundária ou provisória.


Nos anos 1978 a 1979, nas saunas gays de Belo Horizonte não haviam muitos michês, porque as saunas consideravam esses tipos muito marginais para frequentar seus ambientes, então eles “batalhavam” mais nas ruas e bares noturnos.


Nas saunas gays, em funcionamento na cidade, era possível encontrar muitos homens gays ou não, dividindo espaço para a chamada “pegação”, o tipo de interação social mais comum nesses lugares. Posteriormente, os michês vieram a ser muito bem aceitos nas saunas, apesar dos eventuais casos de roubos, mortes e assaltos à gays.


A grande maioria dos michês ou boys de programa são das classes sociais baixas, e o assalto e morte de gays, por michês, neste contexto social, era fato muito corriqueiro. Muitos deles entravam no negócio da prostituição apenas para roubar e matar.


Nunca entrei para a prostituição masculina ou gay, uma vez que minha formação religiosa e de valores condenava a venda do corpo como pecado. Minha condição de classe média baixa, também me possibilitava ficar longe da prostituição, já que obtinha o dinheiro para minhas atividades de lazer no âmbito familiar.


Apesar de não participar do mundo da prostituição gay ou masculina, posso dizer que houve alguns episódios, que pedi algum dinheiro para tomar um drink na boite gay, ou mesmo ajudar no pagamento de minha entrada, mas nada comparado ao exercício continuo de uma atividade de prostituição. Trilha sonora desta época: Joanna, allbum Descaminhos, canção: No seu corpo, 1979.


Seu Corpo

Joanna, 1979.

No seu corpo

É que eu encontro

Depois do amor o descanso

E esta paz infinita

No seu corpo

Minhas mãos

Se deslizam e se firmam

Numa curva mais bonita

No seu corpo

Meu momento é mais perfeito

E eu sinto no seu peito

O meu coração bater

E no meio deste abraço

É que eu me amasso

E me entrego pra você

E continuo a viagem

No meio dessa paisagem

Onde tudo me fascina

E me deixo ser levado

Por um caminho encantado

Que a natureza me ensina

E embora eu já conheça bem

Os seus caminhos

Me envolvo e sou tragado

Pelos seus carinhos

E só me encontro

Se me perco

No seu corpo .





Uma vez, lá pelos meus 18 anos , no cinema pornô Candelária, um sujeito implorou que eu cobrasse pela transa, pois era o fetiche dele, então para agradar, cobrei o preço simbólico de 5 reais ou cruzeiros, não me lembro a moeda da época. Só me lembro que ao final, o sujeito não queria pagar, aí exigí que ele pagasse. Risos.


Procurava sempre em minhas transas, no fim de minha adolescência pessoas mais velhas, era a certeza que teríamos momentos agradáveis sem problemas com dinheiro para bebidas e moteis. Até que em 1982, quando comecei a trabalhar, comecei também a bancar e arcar com todas as minhas despesas LGBT.


Já nos anos 80 foi feita a transição do mundo gay maldito, povoado por marginais e criminosos para um mundo mais aceito socialmente.




REFERÊNCIAS


A territorialidade da prostituição em Belo Horizonte

LT de Andrade, AE Teixeira - Cadernos Metrópole, 2004 – revistas.pucsp.br


https://rollingstone.uol.com.br/noticia/um-dos-maiores-sucessos-de-maria-bethania-cheiro-de-amor-nasceu-de-uma-propaganda-de-motel/


Espaços, corpos e desejos: a cidade e o urbano na arquitetura da pegação em Belo Horizonte, Minas Gerais. AE Teixeira - Revista Periódicus, 2017 - periodicos.ufba.br


Cheiro de Amor, 1979.

Maria Bethânia


Seu Corpo

Joanna, 1979.

RECIFE, 2023.


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