CAPÍTULO 01 - CAÇADO VIVO OU MORTO - GAY , PRETO E POBRE. BIOGRAFIA DE MANUEL ROMÁRIO SALDANHA NETO, RECIFE, PERNAMBUCO, BRASIL, 2022.
CAÇADO VIVO OU MORTO - GAY , PRETO E POBRE.
BIOGRAFIA DE MANUEL ROMÁRIO SALDANHA NETO
RECIFE, PERNAMBUCO, BRASIL, 2022.
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MANUEL ROMÁRIO SALDANHA
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RECIFE, PERNAMBUCO, BRAZIL
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PROCURADO VIVO OU MORTO :
NEGRO, GAY, POBRE.
PROCURADO VIVO OU MORTO :
ÍNDICE
Introdução: 1 – Uma vida no Inferno
2 - O diabo é gay: 1960-1969
3 - Anos de Chumbo: 1970 - 1979
4 – Tempo de Exílio: 1980 – 1989
5 - Time to Die: 1990 – 1999
6 – laroyê Exú : 2000 - 2009
7 - Tempo Rei : 2010 - 2020
INTRODUÇÃO:
1 - Uma vida no inferno
Às vezes penso que minha vida toda foi uma estupidez, uma vida sem sentido, um inferno e que sou um derrotado, um perdedor, como dizem os ingleses, um "loser"... Nos anos 60, sempre lembro de uma frase de minha mãe, repetindo a maldição judaico cristã: “Todo gay vai para o inferno”.
Na lógica do Mito bíblico, Deus criou o homem e a mulher, fora disso é criação do diabo. Portanto, o gay, assim como a cobra do paraíso, são criações do demônio.
Virgin of Victory, detalhe, Andrea Mantegna. 1496.
A cobra era o animal mais esperto que Deus havia feito. Ela levou a mulher e o homem à comerem a fruta da árvore proibida levando-os a conhecer bem e o mal.
Irritando com a inteligência da cobra, Deus a amaldiçoou: Por causa do que você fez você será castigada. Entre todos os animais só você receberá esta maldição: de hoje em diante você vai andar se arrastando pelo chão e vai comer o pó da terra.
Não sendo o gay o homem, ou a mulher do paraíso bíblico, só pode ser a serpente ou o próprio diabo. Dessa forma, mesmo que o gay não seja um demônio, ele viverá no inferno. Ele encontrará na família, na rua, na escola, na igreja, no trabalho, no Estado, pessoas e instituições que se encarregarão de transformar a vida dele num inferno.
Portanto, a vida do Gay é um inferno. Se o gay é negro duplicam os problemas, se é pobre, triplicam, e por ai vão as intensificações de dificuldades de vida e sobrevivência.
Como cultura, predominante, de matriz Abrâamica, judaíco cristã, por imposição, o Brasil carrega em si todos os preconceitos que essa matriz cultural forjou ao longo de sua história.
O HOMOSSEXUALISMO CORROMPE PRINCIPALMENTE A JUVENTUDE: Ministério da Justiça, Informação Confidencial, DITADURA MILITAR, 1979.
PAPA FRANCISCO AFIRMA QUE "HOMOSSEXUALIDADE NÃO É CRIME, MAS É PECADO" 2023.
Me digam ? qual a diferença entre a ditadura brasileira, igreja católica e evangélicos ?
Além da maldição bíblica LGBT fóbica, também encontramos no mesmo livro maldições referentes à negritude e a condenação de LGBTs e Afrodescentes à miséria, escravidão, castigo e todo tipo reprovação social.
Pastor amaldiçoa raça negra, Brasil, 2011.
O racismo, na bíblia, se fundamenta na maldição de Noé, a um de seus filhos. A maldição ocorre na embriaguez de Noé, e é provocada por um ato vergonhoso perpetrado pelo filho de Noé, Cam, que "viu a nudez de seu pai". A nudez na Bíblia se refere ao pecado, à vergonha e ao sexo.
O pecado de Cam é a razão pela qual Noé amaldiçoou os descendentes de Cam à escravidão. Cam tem a conotação de “escuro” no hebreu antigo, dessa forma, a cultura judaíco cristã associou à raça negra\escura a maldição de Noé.
Deduz-se do texto bíblico que gays e negros são maldições divinas, que devem ser punidos, com todo rigor.
A Criança nasce e já encontra toda uma cultura desfavorável à ela, dependendo de sua raça, classe ou gênero.
Eu, aos 6 anos, em Belo Horizonte, MG, 1967.
Quanto mais fora e distante do padrão da classe dominante, mas o sujeito é discriminado e violentado. Quando nasci, eu, simplesmente, era, mas aos poucos, descobri que fazia parte de uma família, de uma cultura, de um período histórico, de uma classe social, de uma etnia, de um gênero, onde me vi taxado como algo diferente e errado.
A bicha não nasce gay. Ninguém nasce gay: torna-se gay. De repente, me ví numa teia de relações sociais, na qual era visto como um mal que devia ser caçado, procurado vivo ou morto, por ser pobre, ou quase pobre, negro e gay.
Por ser diverso, por ser uma alteridade, que não se encaixava nos padrões dominantes do homem heterossexual, branco, rico, cristão, não enquadrado nas relações de produção capitalistas, devia ser eliminado, ou reduzido à situação de doente e inferior.
Minha história de vida: Procurado Vivo ou Morto, busca refletir como as desigualdades sociais, como motor da história, podem destruir uma pessoa ou servir de elemento de superação.
As desigualdades sociais fazem de alguns arruinados e escravos, e de outros livres, iguais e fraternos. É uma via de mão dupla.
Basta dar uma olhada, por ai, pra se ver que as desigualdades sociais de todo tipo, o racismo, homofobia, a desigualdade de gênero estão presente em todo lugar, no micro, no macro, à nível global, regional e local.
A exclusão social sempre me acompanhou, e com certeza não deixariam de estar na cidade interiorana que nasci, em pedreiras no Maranhão, nem em Belo Horizonte, na grande metrópole do sul, na qual fui criado, nem nas minhas viagens internacionais e muito menos em Recife, cidade onde resido atualmente.
Cidade de Pedreiras, Maranhão, de onde saí com 5 anos década de 1965.
Digamos que minha vida foi sempre um inferno, da infância à idade adulta. Encontrava pouco apoio na família, na escola era discriminado, na rua perseguido, na igreja e trabalho tolerado.
Aos poucos, o gay, vai descobrindo que é gay, não porque isso faça parte da essência dele, mas porque o conjunto social e cultural, através de suas práticas de tortura, vai dizendo isso para ele: “Olha, você é esquisito, você é estranho, você é afeminado, você é uma bicha, você é um viado, você não é útil ao sistema, morre desgraça”.
É apanhando da sociedade que o gay se torna gay. A escola e o trabalho são um capítulo à parte, na vida do gay. São nesses espaços de negação extrema, com muita luta, que ele pode sair do buraco, para o qual o sistema vai lhe empurrando. Por contraditório que possa ser, e na opressão que as gay, preta e pobre vão aprendendo as táticas de guerra para sobreviver.
Grupo Escolar Afonso Pena, Belo Horizonte, MG, 1965. De 1965 a 1972, dos 5 aos 11 anos, foi nesta foi a escola que estudei.
Foram muitas histórias e lembranças, nesses 7 anos de pré primário, o tal Jardim da Infância, e ensino fundamental I. Estavamos em plena ditadura militar, morava no Bairro da Serra, meu pai era militar do exército e minha mãe trabalhava no ministério da saúde.
A condição social de minha família de classe média baixa, não nos impedia de sentir o fantasma da pobreza batendo todo dia na porta, principalmente, morando em um bairro de brancos de classe alta.
Até aos 12 anos, eu era apenas uma criança, com poucas condições econômicas e “tendências estranhas”.
Aos cinco anos conheci meu primeiro amiguinho gay, nem eu, nem ele sabíamos que eramos gays, mas foi isso que nos uniu.
Fui uma criança de classe média baixa, pobre ou quase pobre. Tinha uma mãe culturalmente homofóbica e um pai culturalmente tolerante ; ela, educada na tradição judaíco-cristã, ele nas tradições libertárias do espiritismo afro indígena.
Meu comportamento, minha sexualidade, nunca foi problema para meu pai militar da ditadura, mas para minha mãe católica, era a visão do inferno.
O que pode fazer uma criança de 5 aos 11, quando dentro do seio familiar já recebe vários recados e expressões de violência ? Acreditar que está errada mesmo, calar a boca e tentar se adequar às ordens.
Recebia a passagem do ônibus para ir para escola, que ficava no bairro Funcionários, mas voltava à pé para a casa, que ficava no bairro Serra. Fazia esse esforço pra comprar o pirulito zorro e frumelo, na porta da escola.
Grupo Escolar Afonso Pena, Belo Horizonte, MG, 1972.
Quando chegava atrasado, e era barrado na portaria, ou pulava o muro para entrar ou ia brincar na Igreja de Lourdes. Os riquinhos da escola levavam sua merendeira. Eu comia a merenda de Dona Durvalina, preta velha, que ajudava e protegia minha família pobre. A música, hinos da pátria, as orações e as filas, no pátio, antes de entrar para as aulas, o asfaltamento da Avenida João Pinheiro e o Detran formam lembranças que ficaram. Voltar à pé do bairro Funcionários à serra era terrível, mas o vício nos pirulitos compensava tudo.
A adolescência chegava aos 12 anos e aquela tristeza profunda, vindo não sei da onde. Parecia que tudo foi ou estava errado. Uma revolução vulcânica de hormônios se aproximava e tudo tremia. Afinal o que eu era? Homem, mulher, um disco voador? Masturbação , sexo e pecado eram uma mistura explosiva na cabeça da bicha. Com certeza ela batia nas portas do inferno. Ela agora tinha certeza que estava no inferno.
15 anos, o baile de debutante gay, nesse momento, ele se adéqua às regras sociais, ela se revolta e explode ou se suicida.
Nunca tive sorte com mulheres, meu relacionamento com minha mãe era conflituoso, minha irmã, um amor mal resolvido, só me restava a figura paterna como lugar de acolhimento. Amar homens para mim era mais fácil que amar mulheres, foi assim que resolvi meu quebra cabeça afetivo, sexual e edipiano.
Aos 15 anos, 1976, fui transferido, no ensino fundamental II, para o turno da noite. Deixei de conviver com adolescentes de dia e fui conviver com adultos, adorei. A noite me libertava, instigava minha sexualidade.
A escola, apesar de estar em um bairro nobre, Mangabeiras\Serra, era pública e atendia um público que ia de classe média média às favelas.
Com 16 anos, saí da igreja católica e resolvi trabalhar, de office boy, já que passava o dia inteiro à toa e estudava a noite com trabalhadores. Mas minha primeira patroa logo me perguntou: “Por que você fala tão fino ?” foi um choque para a bicha preta, descobrir que ela já era identificada como gay pela voz. Fiquei em estado de Trauma e abandonei o emprego. O mundo do trabalho fechava as portas para o gay, logo na primeira tentativa.
Os anos 80, foram, digamos, mais respiráveis, a Ditadura Militar estava enfraquecida, e as bichas podiam respirar mais tranquilas. Tudo que elas pediam, nessa década, era liberdade para dançar, e protestar nas escolas, sindicatos, nas ruas e discotecas.
Colégio Estadual Central, Ensino Médio, ex segundo grau, Belo horizonte, início da década de 80.
Após terminar o Ensino Médio, a bicha preta, pobre é convocada pela mãe para ir trabalhar. Trabalho ou morte. Naturalmente, seguindo a tradição da família, trabalhar no Serviço Público Federal. Nada de trabalhar como Cabeleireiro, Costureira, Maquiador ou Estilista de moda, tem que se ocupar de trabalho de homem decente.
Bicha preta, pobre, se apresentando para trabalhar como funcionário público federal , Belo Horizonte, 1982.
Por ter introjetado a ordem social que eu era um indivíduo patológico, tinha sempre receio de entrar no mercado de trabalho, e quando fui aprovado em um concurso público, passei meses a fio sofrendo com a ideia que a banca médica, da ditadura militar, ia me recusar por ser doente (gay).
Diante deste tormento, coloquei minha melhor roupa, alisei os cabelos crespos e fui treinar o controle da voz, para não dar pinta de viado, na entrevista com a junta médica. Falar pouco e só o essencial foi a fórmula.
(Departamento de Ordem Política e Social) em Belo Horizonte, anos 80.Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), foi um órgão de repressão brasileiro utilizado principalmente durante a Ditadura Militar (1964 à 1985).
A ditadura não foi apenas um sistema político de repressão, foi uma complexa máquina, que perpassava todo o tecido social, e por consequência estava presente na família, dentro dos corpos e das almas das pessoas.
A ditadura militar no Brasil era um complexo sistema global, pós segunda guerra, de alinhamento aos interesses do capitalismo americano. Era pau e cacete na cabeça das gays na ditadura. Elas eram a face anárquica da sociedade que deveriam ser também eliminadas, pois atentavam contra todas as instituições.
Como dizia Sartre, o inferno é o outro, no caso, o inferno era eu, não a sociedade. A inexistência de políticas sociais efetivas, que contemplassem a promoção de uma cultura de direitos humanos e respeito às diferenças e diversidades, abria, na ditadura, precedentes para que estes temas serem marginalizados e negligenciados no Estado, na família, escola, trabalho e sociedade, gerando todo tipo de dano a quem é ou se sente diferente.
Diante de uma sociedade tão preconceituosa, da infância à velhice, ter sido diferente foi meu maior pecado, e na lógica repressiva do capitalismo católico e seu cristianismo bonzinho, quem peca deve ir para o inferno.
Os inúmeros episódios e casos individuais, coletivos e institucionais de violência social, que sofri e muitos sofreram, demonstram que Estado e sociedade além de promotores de violência também careciam de marcos legais, jurídicos ou culturais que protegesse e apoiasse suas vítimas.
A bicha preta e pobre nasce, cresce e morre no inferno, então quais serão as estratégias que ela vai criar para sobreviver ? Essa é a pergunta que tentaremos mostrar nesse livro.














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