CAPÍTULO 02 - O diabo é gay: 1960-1970 - Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.

 

Capítulo 02 - O diabo é gay: 1960-1970 - Biografia de

 Manuel Romário Saldanha Neto.



Romário, nasceu na cidade interiorana de Pedreiras, Estado do Maranhão, no Brasil, em 1960, dia 14 de novembro, às 02:10 horas . De cor “morena” segundo a Certidão de nascimento, fazia parte de uma família afro- euro- indígena. Embora de uma família etnicamente misturada e mestiça, se identificou como negro.

Devido às diversas matrizes étnico raciais, a condição sócio econômica da família. oscilava entre a pobreza, classe média e classe com alguns recursos.

Rico mesmo, segundo sua tia Albertina, Mãe e tia Lúcia foi o avó Manuel Romário Saldanha, um negro casado com uma mulher branca, a avó cearense, Silvina de Sousa, tendo sido este coronel da velha república, no início do século XX.



Notícia da chegada do Coronel Manuel Romário, à capital do Maranhão, São Luís, 1950.




Notícia da chegada do Coronel Manuel Romário, à capital do Maranhão, transcrição da Tia Maria Lúcia Saldanha, São Luís, 1950


Casamento interracial de Manuel Romário Saldanha e Silvina de Sousa, povoado de Pau D’Arco\Pedreiras, Maranhão, 1920.


Casa dos avós de Romário, no Povoado de Pau D’arco, Município de Pedreiras, Maranhão, 1950.


Contabilidade da Empresa de meu avó, Manuel Romário, Pedreiras\MA, 1945.

Pedreiras é um município brasileiro do estado do Maranhão. É a cidade polo do Médio Rio Mearim, uma típica cidade do interior nordestino.



Ruínas da casa de meu  Avô, Pau D'arco, Pedreiras, Maranhão, 2022. 




Ribamar Macedo, filho de Valdemar Macedo, que após a saída da família de Pedreiras, ficaram responsáveis para tocar os  negócios, como novos proprietários, Pau D'arco, Maranhão, 2020.







Família, Macedo, responsável  por  tocar os  negócios, como novos proprietários, Pau D'arco, Maranhão, 2020.

Como é de domínio público o Brasil, nasceu de um projeto colonial europeu\português, onde as terras dos povos originários indígenas foram invadidas e a mão de obra foi escravizada da América e da África, ou seja o Brasil nasceu da violência, escravidão e exploração de indígenas e Africanos.


A HERANÇA INDÍGENA DOS POVOS ORIGINÁRIOS

Com certeza, Romário tem sangue indígena, da etnia Guajajara. O município de Pedreiras foi fundado em áreas dos índios Guajarás ou Guajajaras, de família linguística Tupi-Guarani, que originariamente habitavam a região, até que as fazendas de colonos brancos invadissem as terras indígenas e escravizassem seu povo.

Os Guajajara são um dos povos indígenas mais numerosos do Brasil. Habitam mais de 10 Terras Indígenas na margem oriental da Amazônia, todas situadas no Maranhão.

Além de guajajara, este grupo tem uma outra autodenominação mais abrangente, Tenetehára, que inclui também os Tembé. Guajajara significa "donos do cocar" e Tenetehára, "somos os seres humanos verdadeiros"

Sua história de mais de 380 anos de contato foi marcada tanto por aproximações com os brancos, como por recusas totais, submissões, revoltas e grandes tragédias. A revolta de 1901 contra os missionários capuchinhos teve como resposta a última "guerra contra os índios" na história do Brasil.

Os Guajajara compõem uma das etnias mais numerosas do Brasil, segundo o Instituto Socioambiental (ISA). De acordo com dados da Secretaria de Saúde Indígena (Sesai) de 2014, estima-se uma população de 27.616 pessoas; de acordo com o Censo do IBGE de 2010, mais de 8.000 falavam a língua guajajara

As principais ameaças à vida do povo Guajajara advêm de ataques por parte de madeireiros, que usam estratégias de intimidação, queimadas e assassinatos para barrar o processo de demarcação de terras e expulsá-los da região.




Mapa de Conflitos envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil. 2022.


Entre os anos 2016 e 2020, vêm a público novos assassinatos, tal como os de Zezico Guajajara, Jorginho Guajajara e Paulino Guajajara, reconhecidos como importantes lideranças indígenas.


A HERANÇA PORTUGUESA EUROPEIA

A herança portuguesa cearence se deu em virtude do território Guajajara de Pedreiras ter sido invadido e colonizado pelos cidadãos Cel. Joaquim Pinto Saldanha, João Emiliano da Luz e José Carlos de Almeida Saldanha, no local onde hoje está situada a cidade.

Provavelmente, as famílias Saldanha, de lado paterno e Sousa, de lado materno, invasoras e colonizadora das terras guajajaras de Pedreiras vieram do Ceará, em virtude das várias secas que assolaram aquele estado.

Nesse particular, destaco a recepção de cearenses na segunda metade do século XIX. A política de “prestação de socorro” aos migrantes atingidos pela seca no Ceará esteve presente em diferentes administrações nos últimos anos da década de 1870.



Raízes de 1877 resistem na identidade de Fortaleza, 2017.

Acredita-se que a Grande Seca que ocorreu de 1877 a 1879 ceifou a vida de mais da metade das 1.754.000 pessoas que residiam na área atingida pela tragédia. Esse foi de longe a maior catástrofe gerada por fenômenos naturais que ocorreu no país.


O ano de 1877 foi de grande importância para o povoamento de Pedreiras,com a chegada de cerca de cem famílias nordestinas, fugindo da seca,especificamente do Ceará.

Comprovada a fertilidade das terras pedreirense, chegava a cada dia novas caravanas de pessoas (imigrantes) impulsionando significativamente a colonização da região. Delas fazendo parte homens, dentre eles destacando-se: José Carlos de Almeida Saldanha, Raimundo Nonato de Araújo, Francisco Messias da Costa, José Evangelista Pereira Soares, João Emiliano da Luz, Joaquim Pinto Saldanha, Simão Titarra Henriques, Jeremias Batista Caldeira, Tiago Duarte Soeiro, Luís Manoel Saldanha, Mariano Martins Lisboa, Raimundo César de Sousa, Severo Teodoro Pires de Almeida e Augusto Ferreira Brabo, aos quais contribuíram para a elevação do território pedreirense a categoria de cidade.

O povoado de Pedreiras foi elevado à categoria de vila e distrito com a denominação de Pedreiras pela lei provincial nº 1453, de 04-03-1889,

A seca de 1915 foi o cenário para obras escritas como o livro O Quinze, de Rachel de Queiroz, bem como para a implantação do primeiro campo de concentração no Ceará, no Alagadiço, ao oeste de Fortaleza. No Alagadiço, estima-se um ajuntamento de 8 mil pessoas, cuidadas com alguma comida e sob a vigília de soldados.


A HERANÇA AFRICANA

Os Saldanhas e Sousas cearenses, fugidos das secas fixaram suas residências no território Guajajara e . fizeram-se acompanhar por escravizados, provenientes da costa ocidental da África (Guiné, Serra leoa, Costa do Marfim, Gana, Benin, Nigéria) .



Tráfico português de escravizados para o Brasil, século XVI até 1850.


A mão de obra dos povos originários e africanos foram o motor das atividades comerciais e agrícola do povoado.

Retirado o nome Guajajara da terra foi atribuído o nome de Pedreiras à cidade devido a um grande bloco de pedras existentes na margem esquerda do Rio Mearim.

Enquanto propriedade de escravizados pelo Coronel . Joaquim Pinto a família afro indígena foi obrigada a adotar o nome Saldanha.

O tirano branco Saldanha “bisavô de Romário" era dono de escravos, e brigou com a princesa Isabel, porque não queria libertar seus escravos.

Chamo, à contra gosto, o Cel. Joaquim Pinto Saldanha, de "Meu bisavô" porque antigamente, os escravizados recebiam o nome do de seu proprietário. Hoje adoto o nome social de Romário d’oxum guajajara.

Provavelmente sua bisavó negra foi escrava do coronel Joaquim Pinto Saldanha, também. Além de ser sua propriedade, também ela era escrava sexual, segundo conta um jornal da época.

A Lei Áurea, foi oficialmente decretada em 13 de maio de 1888. Após dois anos de decretada a abolição da escravatura em todo país, o povoado pedreirense ficou conhecidao no cenário nacional por um fato inusitado protagonizado pelo então Intendente Major Joaquim Pinto Saldanha, o mais poderoso e rigoroso senhor de escravos no Mearim, que permanecia com os negros cativos em sua Fazenda Lençóis, localizado no povoado de Pedreiras.





Jornal Pacotilha, São Luís , Maranhão, 1990

O Jornal Pacotilha, que era editado em São Luís e Circulava por todo o interior do Estado denunciou o fato: “Mais de dois anos são decorridos, depois da fulgurante lei e, quando supunha-se que não houvesse uma sombra sequer, em parte alguma do Estado, das maquinações escravistas, rebentadas no mesmo dia em que caiu por terra a escravidão, chega -nos a notícia de que não muito longe daqui, na Comarca do Alto- Mearim, acima das Pedreiras, vive coacta a mulher Antônia Benedita Saldanha, liberta de 13 de m aio, que, até hoje, não pode reunir-se a os seus parentes, porque a seguram os elos do cativeiro embora disfarçado.”


Segundo Levantamento de Comunidades Quilombolas do Ministério do Desenvolvimento, existem em pedreiras 05 Comunidades, a saber :Centro do meio, Gameleira, Lago da onça, São domingos e Saudade


Manuel Romário avó de Romário, embora filho de escravizada, tornou-se homem rico e próspero comerciante em Pau D'alho, Pedreiras, onde detinha a patente de coronel, tendo se casado com mulher branca de origem cearense, Silvina de Sousa . Sua morte foi em 04 de julho de 1955.


Maria José, Filha de Manuel Romário, havia estudado em colégio de freiras francesas em São Luís, onde obteve o grau escolar de normalista, após fez concurso para o Ministério da saúde.


Nos anos 50 viajando pelo Brasil, à trabalho, conheceu o pai de Romário, Alfredo Ribeiro, no Rio de Janeiro. Em 1958 a mãe de Romário se casa com seu pai Alfredo, no rio de janeiro, na igreja de Santo Antônio. do pobres.



Casamento de Maria José e Alfredo, Rio de Janeiro, 1958


1959, em janeiro, Maria José , a mãe, se mudou do Rio de Janeiro para Pau D”arco, com seu marido Alfredo e irmão do marido, Geraldo. De 1959 até 1965, 06 anos, Maria José ficou em pedreiras, junto com Alfredo e Geraldo. Neste período, sua e mãe e pai resolvem morar em Pedreiras, Maranhão. No ano de 1960 nasce Romário, sendo o segundo filho, de 03.

O primeiro filho do casal foi um menino de nome Alfredo Júnior nascido em 1959. O segundo filho, o gay, Romário, nascido em 1960, e por fim a irmã menina de nome Ana, nascida em 1961. Acredita Romário que sua mãe, tendo o primeiro filho homem, queira que o segundo fosse uma menina, mas esta criança veio gay, ou melhor, tornou-se gay.



Certidão de Nascimento original de Romário, expedida em São Luís,1961.


Com a morte do avô de Romário, a família resolve se mudar para Belo Horizonte, buscando melhorias sociais e econômicas, no sudeste em desenvolvimento.

Em 1965, com 4 anos , época já tinha tido algumas experiências “gays” ainda em Pedreiras, no Maranhão.



Casa da mãe de Romário, na cidade de Pedreiras, com meu pai Alfredo na frente, 1965.


Me lembro de uma estrada de terra, meu Padrinho parou os cavalos da tropa para urinar, fui lá ver, o ato, e confesso que fiquei impressionado com o tamanho do órgão genital.

Outra experiência, foi brincando com alguns garotos, em um terreno próximo à minha casa, os garotos , digamos, tentaram ter experiências sexuais comigo. Foi um choque, realmente não queria aquilo.


EM DIREÇÃO AO SUL DESENVOLVIDO - Migração do Maranhão agrário para Minas Gerais industrializada.

1965, a família sai de Pedreiras, interior do Maranhão e chega à Belo Horizonte, capital do Estado de Minas Gerais, aonde nasce o quarto filho do casal , de nome Antônio.

Cidade de Pedreiras, entre 1950 a 1965



Belo Horizonte, Minas Gerais, 1960- 1965.

Em 1965, segundo ano da ditadura militar – por meio do Ato Institucional nº 2 – todos os partidos políticos foram fechados e foi adotado o bipartidarismo, ou seja, a partir desse momento passaram a existir apenas dois partidos: a Aliança Renovadora Nacional (ARENA), conservadora e o Movimento Democrático Brasileiro (MDB), liberal.

A capital do país havia se mudado para Brasília em 1960. Segundo minha mãe, o projeto de mudança foi um desperdício de dinheiro público, para que construir uma nova capital, se já havia uma ? Foi o comentário da época de criança, que ouvi dentro de casa. Eramos uma família de classe média baixa, cujos os pais eram funcionários públicos federais.


Homenagem aos Fundadores de Belo Horizonte, note-se a presença ostensiva de militares, em função do golpe militar, 1964 – 1965.


Censura Federal aos programas de TV, ditadura militar, nos 60\80


Praça 7 de setembro, Monumento aos Fundadores de Belo Horizonte, 1965.


Precisamos falar sobre alienação parental, Em 1968, Alfredo, pai de Romário se separa de Maria José, sua mãe, a partir desta época ou mesmo antes, a mãe inicia um processo de alienação parental dos filhos contra seu marido.


O ato de alienação parental, é entendido como a interferência na formação psicológica da criança ou do adolescente, promovida ou induzida por um dos genitores, que leva ao repúdio de genitor ou que cause prejuízo ao estabelecimento ou à manutenção de vínculo com este.


Esta foi uma situação muito traumática que Romário vivenciou quando sua mãe fez de tudo para que ele e seus irmãos apagassem e cancelassem a existência de seu pai em suas vidas.

Esta foto da Praça 7 de setembro, no monumento aos fundadores de Belo Horizonte, 1965, diz respeito à uma memória de um passeio que meu pai fez comigo ao centro da capital. Uma memória que minha mãe tentou apagar mas que resistiu ao tempo.

Naturalmente, houve muitos acontecimentos neste ano de 1965, mas citaremos apenas alguns no qual Romário teve conhecimento esteve mais próximo.

Em 1965 é inaugurado o estádio do Mineirão, com a - Estreia de Cruzeiro e Atlético-MG.

Como minha família morava no Bairro da Serra, com outras famílias de origem italianas e portuguesas, acabei torcendo pelo time do Cruzeiro, que era de origem italiana, Em 1921 surgia o Societá Sportiva Palestra Italia, criado por italianos, e que a partir de 1942 viria a se chamar Cruzeiro, mas depois mudei a torcida para o Atlético em 1971, porque era mais popular e queria estar com o povo.

Como família predominantemente católica, frequentávamos a igreja. Foi em um culto que o padre perguntou quem era do Cruzeiro, poucas pessoas se manifestaram, quando perguntou pelo Atlético, a massa gritou. Nessa hora Romário se converteu ao Galo ou Atlético de futebol.


CLUBE ATLÉTICO MINEIRO E HOMOFOBIA ESTRUTURAL

Não me lembro bem, o ano no qual sofri homofobia estrutural em uma partida de futebol no estádio do Mineirão, onde jogava o Clube Atlético Mineiro. Em 1974,  já tinha mania de mandar fazer minhas roupas exclusivas, como minha calça boca sino, estilo Black Power da Época.

 Acredito que também nesta época , 1974, 75,  mandei fazer uma camisa exclusiva, na costureira, com as cores preto e branco do meu time, o Atlético,  pois tinha o intuito de estreia-la em uma partida de futebol, envolvendo o time, no Mineirão.

No dia do jogo, vesti orgulhoso minha camisa, que projetei com bastante estilo, bem diferente das camisas convencionais de times de futebol. Era um modelo gráfico, geométrico, op art, . A expressão "op-art" vem do inglês e significa “arte óptica”. Defendia a arte "menos expressão e mais visualização. 


Em linhas gerais, o modelo que mandei fazer , seguia esse estilo. Muito orgulhoso de meu time e de minha camisa, fui homenagear o time de coração, na partida, no Mineirão.  Comprei meu ingresso e me dirigi para as arquibancadas feliz.

Me sentei junto ao público e o jogo começou, mas um macho de plantão, notou que minha roupa, estava destoando um pouco , ou muito, do usual, como era homofobico, logo começou a me dirigir palavras agressivas estimulando o público à volta que fizesse o mesmo.

Meu mundo desabou, de repente, senti um gigantesco sentimento de PÂNICO, e todo o mudo parecia se abrir num abismo que eu seria engolido, linchado e morto talvez.

No instinto de sobrevivência, me levantei imediatamente e saí correndo do Estádio.

Arquibancadas, corredores, andares e escandas tudo girava e balançava em minha cabeça, era mesmo um pesadelo. Parecia que o mundo todo se voltava contra mim, a torcida toda, o Estádio todo.  Logo atingi a parada de ônibus , tomei o primeiro que ví e literalmente fugí da morte.

Nunca mais quis saber de voltar à Estadios de futebol, não eram ambientes para gays. Eram um ambiente hostil e masculino, machista. O time de futebol ainda mantive no coração, mas ir a um estado nunca mais.

Só muito recentemente a FIFA e a CBF, se posicionaram contra a homofobia e o racismo no futebol. Em 2019, o Código Disciplinar da FIFA se posicionou de maneira firme, apresentando caminho para punições à violação de Direitos Humanos, como injúria racial e homofobia.   Mas meu trauma estava consolidado.  A sociedade homofóbica, mais uma vez , me ensinava, que eu estava errado, condenando e deveria ser punido.



Nas arte, só posso mesmo falar da música, a família não frequentava cinema, não tinha televisão, nem radiola, nem telefone, só o rádio trazia alguma notícia sobre cultura, ou então ouvíamos comentários dos pais.


Em março, 1965, estreava o filme: A noviça rebelde, foi um grande sucesso na época, o filme e a música: The Sound Of Music, não sei qual ano vi no cinema, mas me lembro muito bem dessa cena babadeira, da noviça que nos convidava a revolucionar tudo.



Filme: A noviça rebelde, 1965.

Mais ou menos nessa data ouvia minha mãe cantar a única canção que ela cantava, o samba canção: Nossos momentos de 1961, composição de Luiz Reis e Haroldo Barbosa com interpretação de Elizeth Cardoso, com certeza minha máe, devia estar relacionando a música com a separação do casal que aconteceria em 1968.




Nossos Momentos, Elizeth Cardoso, 1965.


Momentos são iguais àqueles

Em que eu te amei

Palavras são iguais àquelas

Que eu te dediquei

Eu escrevi na fria areia

Um nome para amar

O mar chegou, tudo apagou

Palavras leva o mar


Teu coração praia distante

Em meu perdido olhar

Teu coração, mais inconstante

Que a incerteza do mar

Meu castelo de carinhos

Eu nem pude terminar

Momentos meus que foram teus

Agora é recordar..


Precisamos falar sobre o famoso Complexo de Édipo: o desejo da criança pelo pai, pela mãe ou outra figura de poder.....e o desfecho dessa historia. Será que vou virar gay???

No ano de 1965, estava com 5 anos, na fase fálica, aquela fase que o menino descobre seu pinto, como objeto de prazer, e me lembro, estava muito enamorado por minha irmã, seria uma relação incestuosa ?


Família Saldanha Ribeiro, Belo Horizonte, 1966


Crianças, por falta das barreiras morais, acabam se envolvendo em todo tipo de relações de poder, afetivas e sexuais. Quando não estão fantasiando relações amorosas com os pais, estão fantasiando com irmãos, parentes, conhecidos ou até desconhecidos. Coisas da idade, mas que podem se estender pela vida toda. È o famoso complexo de Édipo de Freud.

O complexo de Édipo é um conceito que foi defendido pelo psicanalista Sigmund Freud, que se refere a uma fase de desenvolvimento da criança, chamada fase fálica, em que ela descobre os órgãos genitais, e começa a sentir desejo por sua mãe\pai e ódio e ciúme de seu pai\mãe, ou qualquer pessoa que desempenhe esse papel.

Freud, em sua teoria do desenvolvimento infantil, afirmou que a origem da vida psicossexual se divide em fases, das quais se destacam: Fase Oral: do nascimento até aproximadamente dois anos de idade. Fase Anal: de cerca dos dois anos de idade até cerca de três ou quatro anos de idade. Fase Fálica: dos três ou quatro anos até aproximadamente seis anos de idade, normalmente quando surgiria o Complexo de Édipo.

O primeiro objeto de amor é a mãe, porque a criança vê nela, a única forma de sobreviver, através do alimento e proteção. Com o passar do tempo a criança, exposta a todo tipo de relação de poder, vai escolhendo novos objetos de amor, ódio e desejo, depois da mãe, que tal a irmã ?



Mãe e irmã, dois amores fracassados da infância, Belo Horizonte, 1965.

Em 1965, meus objetos de desejo, mãe e irmã entram em crise, sentia que amor com mulheres era uma coisa muito complicada e que não valia investir muito. A figura do pai se apresentava como uma alternativa mais viável de satisfação de desejos. Na falta do pai, vamos então transferir esse desejo para algo mais possível, um amiguinho talvez. Nascia assim os primeiros impulsos gays.




Romário e Roberto, Belo Horizonte, Minas Gerais, 1966.

Na fase de Latência: dos seis anos de idade até o início da puberdade, aos 11 anos, a sexualidade da criança tende a diminuir. Com o início da puberdade e os hormônios sexuais, os problemas do desejo sexual voltam à tona, com toda força, e o Complexo de Édipo se intensifica novamente, buscando uma nova solução para o velho problema da satisfação, do prazer, do poder e dos afetos.

De acordo com Freud, o complexo de Édipo tem um papel muito importante na fase fálica do desenvolvimento psicossexual. Para Freud, a conclusão bem resolvida desta etapa envolveria a identificação do menino com o pai, isto é, o menino deixar de rivalizar-se com o pai e passar a aceitar a impossibilidade do incesto ou amor com a mãe.

A aceitação da ordem moral, ou seja, dos costumes dominantes, levaria a criança abandonar seus desejos inconscientes, ou conscientes, pela mãe, pelo pai, parentes e conhecidos, transferindo-os para outros objeto possíveis, em função da necessidade de viver em paz com o sistema de poder , o que nem sempre acontece.


Muitas vezes a criança se rebela contra a ordem dominante e vai desafiar os pais, a sociedade e o mundo. Pense aonde vai dar esta história ?. Na maioria dos casos, pais e filhos vão procurar a satisfação de seus desejos sexuais dentro da ordem social, ou seja, fora do círculo familiar, é o famoso processo de transferência.

O que eu posso dizer do complexo de édipo, no âmbito familiar , é que a família se transforma em um campo de guerra e amor, ódio e desejo, um verdadeiro vale tudo, onde as regras sociais tendem a ser respeitadas ou não.

A maioria das famílias se constitui e acaba em guerra , amor e ódio. A minha família não ia fugir a esta regra de ouro. Nunca ví uma família tão conflituosa e neurótica como a minha.

O complexo de Édipo não tem uma idade precisa para estar completamente elaborado, portanto pode aflorar na infância, adolescência, fase adulta e até fase idosa. O amor e o ódio pela mãe e pelo pai, vai se transferindo para os vários objetos de desejo na vida, quando não ficam estacionados nas figuras familiares. É guerra, (risos).

Fracassadas as tentativas de amor junto ao pai , a mãe e os irmãos, o gay vai procurar satisfazer seus desejos em outros objetos. Nascia em 1966, meu primeiro namorado gay, aos 6 anos de idade.

Em 1965, estava com 5 anos, mas ao final do ano, em novembro, completo sempre anos, então acabo o ano com 6 anos. Sendo de novembro, nascido no dia 14, às 02:10 horas, meu signo solar é Escorpião, com ascendente em virgem e lua em virgem.

Sendo uma pessoa muito mística, e acreditando em todo tipo de ocultismo e magia, adoro astronomia, astrologia e tudo que envolva as ciências ocultas e exotéricas.

Com o sol no signo de escorpião tenho as seguintes características: Energia física e coragem. paixões fortes, regeneração e melhoria, fortes poderes sexuais. Meus problemas potenciais: posso ser suspeito, desafiador, extremista e vingativo.

Com a lua em virgem tenho uma memória muito boa, os estudos científicos ou médicos são preferíveis a todos os outros, sou humilde e moderado, calmo e reservado. Tenho Disciplina emocional e estou disposto a ajudar além de ser dedicado e gentil.

Sendo o signo de virgem meu ascendente, tenho muita vitalidade, gosto da vida pública, sou popular e minha companhia é apreciada. Sou equilibrado, tranquilo com meus problemas e geralmente me dou bem com pais ou responsáveis. Resumindo tudo, os extremos do signo de escorpião, são equilibrados pelas razões e calma de virgem.

Entre 1965 e 1968 fui matriculado no pré primário, ou jardim da infância no Grupo Escolar Afonso Pena, em Belo Horizonte. A grande novidade desta época, 1966, foi mudança da casa alugada para o apartamento definitivo que ficara pronto.

As lembranças mais fortes de 1966 eram os desentendimentos que ouvia entre meu pai e mãe, relativos à vida boemia do pai. Outra cena que me marcou muito foi o início de minha primeira amizade gay com Roberto, que morava vizinho ao novo endereço.


Belo Horizonte, Minas Gerais, 1966.


Quero Que Vá Tudo Pro Inferno - Roberto Carlos, 1965-66

Em 1966, estávamos no segundo ano da ditadura militar, no contexto global, estávamos na guerra fria. A Guerra Fria foi um conflito político-ideológico que foi travado entre Estados Unidos (EUA) e União Soviética (URSS), entre 1947 e 1991. O conflito travado entre esses dois países foi responsável por polarizar o mundo em dois grandes blocos, um alinhado ao capitalismo e outro alinhado ao comunismo.

Mas o que uma criança com 6 anos tem a haver com a ditadura militar e a guerra fria ? Naturalmente, a criança com essa idade não é, exatamente, um analista político global, mas, digamos assim, sente alguns reflexos disso em sua vida cotidiana.

Os reflexos mais fortes desse contexto em minha vida foi ter sido criado em um ambiente autoritário, com uma família com hábitos de consumo e de vida americanizados, já que o Brasil, se aliou aos Estados Unidos após a guerra e ao golpe militar.

Muitas coisas aconteciam no mundo e no Brasil, mas apenas vou citar os fatos que de alguma forma foram captados pelo olhar de uma criança de 6 anos.

Com relação às artes e a cultura, havia uma predominância da música, que chegava através do rádio de minha avó Silvina, que havia se mudado com minha mãe para Belo Horizonte.

O rádio sempre teve uma história muito presente na vida de minha família .Me lembro de minha avó se gabando que o primeiro rádio de Pau D’arco, em Pedreiras, foi comprado por meu avô, rico comerciante negro do povoado. Segundo avó Silvina, todo o povo do povoado, vinha para a casa dela para ouvir a novidade do rádio.


Rádio National Panasonic T-100D Transistor, 1966.

E o que se ouvia pelo rádio nessa época ? Alguns sambas famosos, músicas de carnaval, o movimento da jovem guarda que explodia, e alguns sucessos internacionais. Me lembro de vovó ou la mamma cantando a canção: Guarânia da saudade, do Trio das Guarânias, sucesso de 1960.

"Não demores muito, não demores nada

Venhas ligeirinho, sejas camarada

Não demores muito, não demores nada

Venhas ligeirinho, sejas camarada."


Minha mãe era influenciada pelo cinema dos anos 50 de hollywood e meu pai, pelo Jazz negro americano.


Brasil Pandeiro – Assis Valente, quem gostava de cantar essa música era meu novo amigo mineiro, Roberto, 1966.


Letra

Chegou a hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor

Eu fui a Penha, fui pedir a padroeira para me ajudar

Salve o Morro do Vintém, pendura a saia eu quero ver

Eu quero ver o Tio Sam tocar pandeiro para o mundo sambar

O Tio Sam está querendo conhecer a nossa batucada

Andou dizendo que o molho da baiana melhorou seu prato

Vai entrar no cuzcuz, acarajé e abará

Na Casa Branca já dançou a batucada com Ioiô e Iaiá.

Brasil esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros

Que nós queremos sambar

Há quem samba e diferente noutras terras outra gente

O batuque de matar

Batucada reunir vossos valores, pastorinhas e cantores

Expressão que não tem par. Oh, meu Brasil!

Brasil... esquentai vossos pandeiros, iluminai os terreiros

Que nós queremos sambar.



African Beat, Bert Kaempfert Sua Orquestra, Estados Unidos, 1966.

Minha mãe detestava Jazz, e vivia dizendo que era uma música de bêbados, já meu pai, que também bebia, adorava. Nos anos 50 a influência americana na cultura brasileira misturou o samba com jazz, gerando a Bossa Nova.



Adeus às Ilusões, Estados Unidos, 1966.

Como o casamento de minha mãe e meu pai estava em crise, nada mais característico, que ela citar sempre esse filme que marcou sua vida. A trilha sonora do filme é bem marcante: "The Shadow of Your Smile."


"The Shadow of Your Smile." A Sombra do Seu Sorriso

Um dia nos andamos ao longo da areia

Um dia no começo da primavera

Você segurava um pássaro em sua mão

Para consertar sua asa quebrada

Agora eu lembrarei por muitos dias

E por muitas milhas solitárias

O eco da canção do pássaro

A sombra do sorriso A sombra do seu sorriso

Quando você tiver ido

Irão as cores dos meus sonhos

E as luzes da alvorada

Olhe dentro dos meus olhos Meu amor

E veja Todas as coisas adoráveis

Você é minha

Nossa pequena estrela melancólica

Era tão alta

Uma lágrima beijou seus lábios

E assim eu fiz

Agora quando eu lembrar da primavera

Todas as diversões que o amor pode trazer

Eu estarei lembrando

Da sombra do seu sorriso


Movimento da jovem guarda, na música e cultura, Brasil, 1966.


The More I See You, 1966.

The more I see you, the more I want you

Somehow this feeling just grows and grows

With every sigh, I become more mad about you

More lost without you and so it goes

CHRIS MONTEZ - The More I See You, 1966.


Digamos, que a jovem guarda foi um gênero musical, um modo de comportamento, e um modo de vestir inspirado na cultura jovem que nasceu no pós guerra com o rock americano.

Jovem Guarda e algumas musicas populares brasileiras foram a marca cultural no Brasil, em 1966, para as crianças além dos disquinhos coloridos de histórias infantis, que ouvíamos na vitrolinha, que minha mãe pegava emprestado em seu local de trabalho, a Delegacia Federal de Saúde, em Belo Horizonte.


Coleção Disquinho – Estória da Baratinha, 1966.


Vitrola , Philips Stereo Modelo RF 685, 1966.


Na casa nova, em 1966, a família comprou uma Radiola ( rádio mais vitrola), mas as crianças não tinham acesso. Era só para os adultos.




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