CAPÍTULO 05 - ANOS DE CHUMBO DA DITADURA MILITAR - Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.

 CAPÍTULO 05 - ANOS DE CHUMBO DA DITADURA MILITAR - Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto


O Brasil crescia, a ditadura militar mantinha a classe trabalhadora calada, sustentando o crescimento econômico. Entre os anos de 1968 e 1973, o Brasil viveu um expressivo crescimento econômico que contribuiu para o fortalecimento da ditadura militar.

Chamado de "milagre econômico", esse crescimento esteve relacionado a políticas econômicas do Governo Castelo Branco e suas repercussões nos anos seguintes.


Belo horizonte, centro da cidade, 1967.

Enquanto o Brasil crescia, minha família ficava mais pobre. Com a separação dos pais, adeus sonho de uma vida classe média confortável. Adeus sonho do carro próprio, roupas novas, brinquedos no natal, viagens, escolas boas. Quanto as outras famílias estruturadas do prédio, tinham lá seus confortos de classe média média.

Com a separação de meus pais, fomos parar na classe média baixa, quase pobre.


10 cruzeiros, Brasil, 1967.



Fusca, Volkswagen, Brasil, 1967




Cofre do Banco da Lavoura, o Lavorinha, Belo Horizonte, 1967. A moda era ter esse cofrinho para poupar moedas.




DKW Vemag Vemaguet, Brasil, 1967


Com a separação de meus pais, se foi embora, o sonho classe média de ter um carro. O Jeito era andar de Trólebus.

O trólebus de Belo Horizonte foi um sistema de transporte público operado por trólebus na cidade de Belo Horizonte entre 1953 e 1969, quando foi desativado e seus veículos e equipamentos vendidos para a cidade de Recife. Quando me mudei para Recife, em 1993, andei muito de ônibus elétrico, mal sabia eu que eram de Belo Horizonte.


Em Belo Horizonte, em janeiro de 1957, os serviços de implantação das seguintes linhas se encontravam bem adiantados: Santo Antônio, com 7,950 Km de rede bifilar, ide e volta, Afonso Pena, 4,100 Km ida e volta, e Serra, 5,950 Km ida e volta.


Em fevereiro de 1960, foi inaugurado o primeiro trecho da Linha da Serra, onde morava, na Zona Sul. O último trecho, em Belo Horizonte, entra em operação no dia 7 de dezembro de 1960. Após 1969, os ecológicos ônibus elétricos foram substituídos pelos poluentes ônibus à diesel, para fortalecer a indústria automobilística das multinacionais capitalistas.



O trólebus, Belo Horizonte, 1967. Note-se na foto a famosa loja Ingleza Levy, na placa da esquina.


LINHA BAIRRO SERRA, BELO HORIZONTE, ATÉ 1969.


ERAMOS SEIS

Meu pai, segundo minha mãe, tinha instrução primária, apesar de ser terceiro sargento do exército, quanto a ela, tinha instrução mediana, normalista dos anos 50, uma sólida educação, dentro dos padrões da época, para mulheres.


Enquanto meu pai, gostava de temas ligados ao Jazz americano, ocultismo, espiritismo e umbanda, minha mãe preferia os temas de Hollywood, dos anos 50, e a grande literatura nacional.


A cerca desta grande literatura nacional, minha mãe sempre citava a condição de nossa família, associada ao romance Eramos seis, de Maria José Dupré, de 1943, devido à semelhança dos contextos narrados.


Em suma, “Éramos seis” aborda o drama de famílias que precisam lutar para conseguir o básico para a sobrevivência. Com isso, a obra destaca, além da vida comum de uma família de baixa renda, os dramas da terceira idade em função do gênero, diante de uma metrópole e muitas outras questões.


Além disso, funções nas quais muitas vezes passaram despercebidos – como, por exemplo, a falta de reconhecimento de uma dona de casa, e a desvalorização até mesmo dos próprios filhos, que na maior parte das vezes criam um mundo divergente comparado aos pais – vêm à tona na narrativa dos personagens.


A obra “Éramos seis” conta a história de uma família classificada como classe média baixa, que era conduzida por Dona Lola. Júlio Abílio de Lemos é marido de Dona Lola e possui quatro filhos: Carlos, Alfredo, Julinho e Isabel.


Realmente, as realidades do romance e da minha família eram muito parecidas.


Dentre os dramas desta fase da minha vida, entre 7 e 8 anos, me recordo de brigas com meu irmão Alfredo, o castigo paterno que ambos recebemos de ficar de joelhos em cima de bagos de milho, e meu corte de cabelo, no clássico estilo militar, Príncipe Danilo.


Como havia dito, já no casamento, minha mãe fazia alienação parental, com relação à figura do meu pai, o que fez com que toda família fosse apagando ele de nossas histórias. Foi preciso anos de psicanálise, para que pudesse resgatar e reconhecer que tive um pai, presente e participativo, dentro de suas limitações de homem expulso de casa pela mulher.


Estávamos em 1968, a cultura jovem explodia em rebeldia, valores e estética. Cabelos crescidos, longos e desgrenhados na linha black power, estavam na moda, e era um tormento, quando meu pai pronunciava a frase: dia de cortar o cabelo, no maldito estilo príncipe Danilo, que praticamente deixava a gente careca.


Arebeldia black power, associada ao uso de maconha, fez com que meu irmão mais velhos acabasse preso no DOPS ( Departamento de Ordem Política e Social). Só me lembro de eu e minha mãe tendo que ir ao referido Departamento, retirar o rebelde.

Avó Silvina, ainda em Pedreiras, Maranhão, com o irmão Alfredo com 3 anos, com o cabelo cortado no estilo militar Príncipe Danilo.


Homofobia, racismo e preconceito de classe.

Os anos 1968 a 1970, foram anos de pré primário e entrada no primeiro ano do Ensino fundamental, que só concluiria em 1972, no Grupo Escolar Afonso Pena, em Belo Horizonte.

Na minha fase de latência que vai dos 6 aos 14 anos, minha a sexualidade da criança tornou-se ora aflorada, nas brincadeiras da cabana com os meninos, onde fazíamos o famoso troca-troca homoerótico. As seções de brincadeira de médico, examinar o corpo nu, não participei, porque era de um grupo de meninos e meninas restritos. Nas brincadeiras de casinha e boneca, só eu e Beto participávamos. Íamos ver novela na casa da vizinha, que tinha muitas bonecas. Ai, era a tarde toda penteando, escovando e vestindo as bonecas da estrela.



Boneca, Susi, da Estrela, A boneca que você gostará de vestir, 1969.

Nessa fase de latência, ora estava sonhando que estava voando, ora que estava nu, no meio da rua. Voar era prazer, ficar nu, me levava à dor psíquica, da exposição sexual, o que era pecado e proibido. Nessa época o garoto geralmente assimila a lei moral, o que a sociedade espera que ele faça: respeite o poder e seja uma boa criança. Se voar era permitido, ficar nu era contrariar todas regras sociais.

Dentro da lei moral, nada de sexo dentro da família, então que venham os amiguinhos. Arthur, Xandinho, Zé, Beto, Celso, e tantos outros. Life was a cabaret, digo uma cabaninha do clube do bolinha, só para meninos.



Anos 60, clube do Bolinha e sua famosa cabaninha, exclusiva de garotos.

Nessa fase, as descobertas que começam a fazer sobre a sexualidade levam a criança a ficar mais centrada em outras crianças. Os pais e familiares passam a ser modelos inatingíveis. Nessa fase, podem ocorrer jogos de trocas de papéis sociais (meninos se vestirem com a roupa da mãe e meninas com a do pai), e troca de papéis sexuais. No meu caso, a mania de se vestir como mulher e até se comportar com tal, revelava uma tendência à homossexualidade.

A sexualidade infantil, é muito diferente da adulta, e consiste na exploração do corpo do outro, e possibilidades de prazer, como o nome diz o “troca troca” se tratava de dois garotos ou mais se usando e se alternando na obtenção do prazer através de toque corporais.


Em princípio normal, a brincadeira infantil toma caráter de relação de poder social, entre um dominante e um dominando, entre quem é a mulherzinha e quem é o macho: a bichinha e o machinho. Tive uma infância na qual fui socialmente classificado como afeminado, garotos com comportamento feminino.

Para além da sexualidade, ora exprimida, ora reprimida, ora sublimada, as atividades infantis, nessa fase, também centram-se em atividades e aprendizagens intelectuais e sociais, em jogos, escola, igreja, estabelecendo vínculos de amizades que irão fortalecer a identidade social, cultural e sexual da garotada.

Aos 10 anos, já entrando na puberdade, a brincadeira dos meninos era dançar juntos. Então nos reuníamos, em um prédio em construção, ora para brincar de esconde esconde, ora para dançarmos juntos. Eu sempre me escondia com Celso, pra no escuro, junto com ele fazermos nossas carícias sexuais e lúdicas. Na dança, ele era sempre meu par.

A relação com Celso foi se tornando cada mais forte e obsessiva, a ponto de extrapolar as brincadeiras e danças. Ele ia me procurar em casa, para fazermos o tal sexo infantil.

Lembro do pavor quando ele chegava na porta de casa, não tinha como negar. Mas como fazer o sexo com toda família em casa ? Estabelecia-se o terror. O desejo era incontrolável. Sem ninguém perceber nos trancávamos no banheiro e depois de consumado o sexo, mas uma seção de terror, como sair ?

Foram anos de tormento dos 10 aos 15 anos, quando Celso descobriu a sexualidade heterossexual, com meninas, e encerrou nosso vulcânico caso de amor infantil.


Minha mãe suspeitava que eu não era um menino normal, as tentativas foram muitas para me “curar” das tendências afeminadas. Como eu e Beto promovíamos desfiles de moda usando os vestidos dela, minha mãe jogou todos seus vestidos da década de 50 fora, adotando um modelo padrão de se vestir.


Até a sua morte, em 1991 minha mãe vestia-se como nos anos 50.


A CURA GAY:

 Classificação Internacional de Doenças, CID, , em sua   CID-9 incluia a "Homossexualidade" como sub-categoria (302.0) da categoria "Desvios e Transtornos Sexuais" (302), no Capítulo dos "Transtornos Mentais" no Capítulo V.

O homossexualismo passou a existir na CID a partir da 6a Revisão (1948), na Categoria 320 Personalidade Patológica, como um dos termos de inclusão da subcategoria 320.6 Desvio Sexual. 

Manteve-se assim a 7a Revisão (1955), e na 8a Revisão (1965) o homossexualismo saiu da categoria "Personalidade Patológica" ficou na categoria "Desvio e Transtornos Sexuais" (código 302), sendo que a sub-categoria específica passou a 302.0 - Homossexualismo. 

A 9a. Revisão (1975),  em vigor, manteve o homossexualismo na mesma categoria e sub-categoria, porém, já levando em conta opiniões divergentes de escolas psiquiátricas, colocou sob o código a seguinte orientação "Codifique a homossexualidade aqui seja ou não a mesma considerada transtorno mental"


Minha mãe, por ser da área de saúde, sempre trabalhou no Ministério da Saúde, no Departamento de Endemias Rurais, ao perceber minha doença, nos anos 60, ficou muito preocupada, pela doença em si, como as consequências sociais que eu, enquanto elemento doente sofreria na sociedade.


Então, me levou aos órgãos de saúde, para ver se revertia a doença. Fato é que muitos médicos consideram a homossexualidade, per se, como uma

doença e, mais ainda, como uma doença mental.


Existem casos em que o comportamento homossexual condicionado patologicamente, isto é, surge como manifestação de uma doença primária, seja psicose, psicopatia, processo demencial ou outra entidade mórbida.


Como é cristalino, nestas situações a instrução deve ser no sentido de que o enquadramento diagnóstico se dê pela condição patológica básica.


Casos há em que a angústia ou inadequação sentida pelo homossexual resulta apenas do conflito entre ele e a estrutura de valores sociais, ou seja, suas dificuldades se relacionam exclusivamente com a discriminação social de que é vítima.


Noutras vezes o paciente, sentindo-se perfeitamente bem, é trazido à consulta pelo pai ou responsável, o qual alega que trouxe o paciente para que o mesmo seja tratado de homossexualidade. Os atendimentos realizados nestas 2 últimas situações podem perfeitamente ser codificados na Categoria V 62: "Outras circunstâncias Psicossociais"

Fonte: Conselho Federal de Saúde, 1985.


Dos 10 aos 15 anos, no inicio da puberdade, minha mãe tentou a cura gay comigo, primeiro foi me mandando para o judô, ao invés do balé, depois fui para o psicólogo, onde minha mãe teve a triste notícia que eu era uma criança normal.


Não satisfeita, e buscando a cura gay, ela me levou ao endocrinologista, suspeitando que me faltava hormônios masculinos, para sua decepção o médico disse que estava tudo bem comigo.


As consequências das tentativas de cura gay de minha mãe, foram me deixar com a ideia que era uma pessoal anormal, acho que foi ai que comecei a me tornar uma pessoa psicologicamente danificada e adoentada.


Meu pai, devido à sua orientação religiosa afro espírita, dizia que nada estava errado comigo, porque no espiritismo um homem pode receber o espírito de uma mulher ao nascer. Dessa forma desenvolvi uma antipatia pela minha mãe e uma maior simpatia pela figura do pai. A simpatia pelo pai, e os conflitos com a mãe, em grande parte influenciaram minha tendência a gostar mais de homens que de mulheres.


Os conflitos com minha mãe, na infância, geraram várias tentativas de sair de casa, mas ia sempre na esquina, sentava na porta do armazém de Seu Pietro Manetta, por horas, depois voltava, por falta de opções de concretizar meus planos. Sair de casa mesmo, só consegui em 1986.


Hoje revendo o passado, consigo perceber que o preconceito gay de minha mãe era o preconceito estrutural da sociedade contra gays, e que também atrás de sua tentativa de cura gay, ela buscava me proteger de um mundo que iria me massacrar.


As consequências da cura gay, foram eu começar a frequentar consultórios psicológicos, no início, anos 70, com Dr. Daniel Antipoff, filho de Helena Antipoff, o mesmo me ouvia, mas como não dizia nada, acabei abandonando a tal terapia.

Posteriormente nos anos 80 foram muitos terapeutas, como os resultados eram fracos ao meu ver, acabei resolvendo fazer um curso de filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais, na tentativa de tentar em conhecer e entender. Os maiores resultados foi o corte do cordão umbilical com minha mãe, família, igreja e sociedade tradicional.


RACISMO E DESIGUALDADE SOCIAL

Entre os anos de 1968 à 1970, a vida da criança é muito agitada entre brincadeiras de rua, escola , igreja e clubes esportivos. Foi por essa fase que sugeri a minha mãe comprar uma cota no Clube Olympico, do bairro da Serra, onde sofremos um episódio de racismo e discriminação de classe.


No início da década de 60, o Brasil passava pela turbulência política da ditadura militar. Enquanto tudo isso acontecia, a juventude, que vivia na região do Bairro da Serra, buscava formas de lazer e esportes no .Olympico Club.

Fundado em 4 de fevereiro de 1940, foi o segundo clube esportivo e social a se instalar em Belo Horizonte, originado de um sonho em comum dos chamados “onze meninos”, como são conhecidos seus fundadores.


Como não possuíam maioridade jurídica na época, tiveram que contar com o apoio de pessoas adultas para construir a primeira quadra na casa da família Magalhães Pinto. Entre os fundadores, estão: , João Câncio Fernandes Filho, Renato de Magalhães Pinto, Rogério de Magalhães Pinto, Mauro Ferreira, Antônio Carlos Rezende Garcia, Alberto Soares Teixeira, Luciano Passini, Camil Caram, Gil Guatimosim Júnior e José Vieira, tendo como Presidente de Honra Juscelino Kubitscheck de Oliveira.


O Olympico Club, junto ao Minas Tênis Clube eram clubes de elite branca nos anos 60\70 em Belo Horizonte, eu na minha ingenuidade infantil, acreditei que minha família negra\parda de classe média baixa, podia fazer parte daquela realidade. Doce ilusão e trauma social. Entrar no Minas Tênis era praticamente impossível, pois esse clube já tinha fama de racista, restava tentar no Olympico Club.



Olympico Club, Bairro Serra, Belo Horizonte, 1970

Nossa família, minha mãe na época já estava separada de meu pai, apresentou toda a documentação pedida pelo clube. Pediram fotos, logo pensei, meu Deus, vai ser ai que seremos desclassificados pela nossa cor de pele.


O resultado foi fulminante, em nossas almas e corações, a família não tinha perfil social para frequentar o clube. Os filtros socais que a elite, branca, católica, de classe média cria, faz com que, grandes partes da sociedade não pisem em seus espaços sociais de poder, e nos leva, pardos e negros, ao nosso lugar social de subalternos e inferiores.

Essa recusa do Olympico Club da minha família, foi um divisor de águas na minha vida de criança, ali estava mais que provado que socialmente fazíamos parte de uma classe inferior e menor.


Posteriormente, meu irmão Antônio foi admitido no time de basquete do Clube, nos anos 80, mas o prejuízo social e o dano moral já tinha sido feito.


Enquanto meu amigo Beto, filho de pai funcionários dos correios frequentava e era sócio do Minas Tênis Clube, onde ele brincava o carnaval. Eu era o sócio das brincadeiras do carnaval de rua, onde me lembro dele cantando a canção Máscara Negra.



Máscara Negra

Zé Keti e Pereira Matos, Carnaval, 1967


Quanto riso, oh quanta alegria

Mais de mil palhaços no salão

Arlequim está chorando

Pelo amor da Colombina

No meio da multidão


Foi bom te ver outra vez,

Tá fazendo um ano

Foi no carnaval que passou,

Eu sou aquele Pierrô,

Que te abraçou

E te beijou meu amor

A mesma máscara negra,

Que cobre teu rosto

Eu quero matar a saudade


Vou beijar-te agora

Não me leve a mal

Hoje é carnaval (BIS)




1968 1970 - NÃO ME DIGA ADEUS, A SEPARAÇÃO DOS PAIS.


Não Me Diga Adeus

Elza Soares, 1969

Não

Me diga adeus

Pense nos sofrimentos meus


Se alguém lhe der conselhos

Pra você me abandonar

Não devemos nos separar


Não vá

Me deixar por favor

Que a saudade é cruel

Quando existe amor


Não

Me diga adeus

Pense nos sofrimentos meus

Como havia dito, em princípio, a separação de meus pais não me incomodou muito, mas ao nível profundo a separação foi muito danosa para o tecido familiar. Sendo a depressão psicológica, social e econômica da família os fatores mais expressivos.

Ao chegar em Belo Horizonte, em 1965, meu pai mudou muito seu comportamento, adotando hábitos boêmios de sair à noite, beber e provavelmente se envolver com outras mulheres.


Posso me lembrar claramente ele chegando em casa pela manhã, após uma noitada de farra e a raiva que aquilo causou em minha mãe, que queria um casamento tradicional.


Ela, minha mãe, se preparando para sair para trabalhar e meu pai chegando da boemia. Estes comportamentos boêmios se prologaram de 1965 a 1968. Quando minha mãe pediu que ele saísse de casa.


Psicologicamente, meu pai e mãe eram pessoas calmas, e pouco afeitos a brigas, mas cada um , em seu silêncio tomava suas atitudes. Assim na separação não houve brigas, quebradeiras ou discussões, apenas afastamento.


O resultado mais evidente de tudo foi a depressão de minha mãe que começou a tomar ostensivamente o tranquilizante, Dienpax. Não satisfeita, jogou sua cama de casal fora, e como eu adorava olhar as fotos antigas dela e do casamento, a mesma me fez o desfavor de rasgar todas as fotos, relativas ao casamento, fraturando também minha memória existencial.


Rio de Janeiro, anos 50, onde meu pai e minha mãe se conheceram e casaram, em 1958.


Alfredo pai, em Pedreiras, Maranhão e Belo Horizonte, 1695, 1967.

Das poucas fotografias que sobraram da fúria de minha mãe, tinha uma que tinha especial prazer de ver, era um quadro fotografia antiga, daquelas coloridas à mão, ao perceber a adoração que aquela imagem me causava, não pensou duas vezes, minha mãe simplesmente destruiu-a toda.



Foto colorida à mão, anos 60


A separação de meus pais, foi um fato devastador para a família. Foi uma bomba de Hiroshima, nos anos 60, cujas consequências foram se estendendo por anos. Difícil calcular todos os prejuízos. Difícil calcular quantos anos de duração. O filho mais velho, Alfredo estava com 8 anos, eu com 7, Ana com 6 anos, e por fim Antônio. 3 anos.



Ensaio de fotografia, para álbum de família, Belo Horizonte, 1967

Os filhos, em princípio não entenderam muito o que estava acontecendo, porque a separação foi muito discreta e silenciosa. Apenas notamos um afastamento do pai do ambiente doméstico cotidiano. As brincadeiras na rua, a escola, a rotina do dia dia, ocupava nossas cabeças o suficiente para que não percebermos a gravidade do momento e suas consequências.

De repente, o sonho dos anos 50, de uma família unida, perfeita e feliz foi por água abaixo.


A geração do pós-guerra , 1945, com sua modernidade baseada no modelo ideal americano de felicidade, vida e consumo.


O modelo de família feliz dos anos 50, o sonho de consumo de todas as moças modernas da época, vendido pelo cinema americano e sua industria cultural, que envolvia tudo, roupas, produtos de consumo, estilo de vida e comportamento.

Nessa utopia pós guerra, a sociedade era perfeita e tudo funcionava perfeitamente. Mas havia, o mundo real, que era bem diferente.

O contexto simbólico, social e familiar de minha mãe, nascida provavelmente em 1926, remete aos anos 30, 40, 50. Vindo de uma família estruturada, sonhava em constituir sua família nas mesmas bases.


Segundo Tia Albertina, o pai de minha mãe, apesar de ser esposo cuidadoso, tinha duas mulheres fora do casamento, que foram o tormento e ciúme de minha avó.

O trauma e os conflitos de ser uma filha de um pai com 3 mulheres, deve ter levado a minha mãe a uma recusa absoluta de ter um casamento nas mesmas condições de sua mãe.


Seria impensável, minha mãe se casar com um homem da boemia, da noite, de mulheres fora do casamento, mas para sua desgraça, o fato veio acontecer em seu casamento, o que levou ao seu pedido de separação do marido, realidade que ela , com o tempo, veio a questionar, pensando que deveria ser mais tolerante, como sua mãe foi.


Gata em Teto de Zinco Quente, Drama, Tennessee Williams, 1958.

De formação solidamente católica, minha mãe acreditava, na lei da igreja que “o que Deus uniu, o homem não separa”, e assim foi até a sua morte, embora separados, desquitados e divorciados ela sempre manteve o casamento espiritual com meu pai, ao que parece tinha uma adoração inconsciente.

Meu Mundo Caiu – Maysa, Brasil, 1958.

Meu mundo caiu

E me fez ficar assim

Você conseguiu

E agora diz que tem pena de mim


Não sei se me explico bem

Eu nada pedi

Nem a você nem a ninguém

Não fui eu que caí


Sei que você me entendeu

Sei também que não vai se importar

Se meu mundo caiu

Eu que aprenda a levantar


Entre 1965 a 1970, meu pai e minha mãe entram em processo de separação, o mundo de minha mãe caiu.

Como mulher católica, minha mãe nunca aceitou a quebra do pacto nupcial por meu pai. O que Deus une, ninguém separa. Uma vez separados de fato, meu pai, primeiramente foi dedicar-se a sua vida boemia, posteriormente se casou e constitui nova família, tendo dois filhos, um casal, Daniel e Gilmara.


Minha mãe herdou do casamento a obrigação e criar e educar 4 filhos pequenos. Lembro com clareza de suas conclusões sobre seu casamento, segundo ela, havia cometido dois erros, o primeiro, se casar, o segundo ter filhos.


Eu, uma criança de 7 a 8 anos, ouvindo este tipo de comentário, também tirava minhas conclusões: o casamento é um erro, ter filhos é um fardo.


De fato, até aos aos 80, minha mãe teve uma vida distanciada da família, dedicando-se ao seu trabalho, e a igreja católica. As relações melhores que tinha na família era com nossa avó, sua mãe, e seu último filho Antônio, ao qual dava toda atenção, alegando que este havia sido prejudicado por ter nascido sem pai.


Para um filho amoroso, como eu, ter um pai ausente e uma mãe emocionalmente distante, era um banho de água fria, num dia de inverno. Com o tempo Alfredo, o primeiro filho desenvolveu um profundo sentimento de anti patia pela mãe, quanto à filha Ana, fazia tudo que queria e em todos aspectos contrariava minha mãe.


Meu pai não era totalmente ausente das obrigações paternas, ia sempre nos visitar, como minha mãe fazia alienação parental, todos os filhos ignoravam ostensivamente suas visitas.

No final, as visitas do pai se resumiam a pequenas conversas protocolares e de negócios, com minha mãe, geralmente a cobrança de pensão. As conversas mais longas, meu pai, tinha com minha avó, já que ambos se davam muito bem.


As relações interpessoais, dentro da família, refletiam a realidade do casal, eramos distantes e frios uns com os outros, quando não desenvolvíamos sentimos de animosidade e agressão entre nós. Brigas eram constantes dentro de casa, ninguém parecia se ajustar.


Socialmente, como já disse, eramos uma família fora dos padrões e discriminada socialmente. Além de sermos uma família fraturada por uma separação, havia também o problema da fratura econômica, resultante da divisão das economias de minha mãe e meu pai.


Se juntos tinham uma boa renda, separados, a renda caia, e para o lado da minha mãe, com quatro filhos, uma mãe e empregada para manter, a renda ai ao fundo do poço.


O apartamento do casal, ficou com minha mãe, por ser mãe, por ser o elemento mais frágil da relação social, por ter contribuído com a maior parte do dinheiro para compra do imóvel, resultante da herança de meu avó.

Além, do apartamento, minha mãe recebia uma pensão de seu marido militar para sustentar os filhos. Assim, todo mês, minha tarefa era acompanhar minha mãe ao BANERJ, Banco do Estado do Rio de Janeiro, ouvir as reclamações dos atrasos de meu pai e receber a pensão.


Em casa, a cena mais comum era o contato com a depressão de minha mãe, silenciosa e recolhida. Geralmente, se trancava na sala, onde havia pouco movimento, onde fazia suas orações e chorava escondida.



Castigo

Dolores Duran, 1958


A gente briga, diz tanta coisa que não quer dizer

Briga pensando que não vai sofrer

Que não faz mal se tudo terminar

Um belo dia a gente entende que ficou sozinha

Vem a vontade de chorar baixinho

Vem o desejo triste de voltar

Você se lembra, foi isso mesmo que se deu comigo


Eu tive orgulho e tenho por castigo

A vida inteira pra me arrepender

Se eu soubesse

Naquele dia o que sei agora


Eu não seria esse ser que chora

Eu não teria perdido você

Se eu soubesse

Naquele dia o que sei agora

Eu não seria essa mulher que chora

Eu não teria perdido você

A crise conjugal de meus pais, se expandiu por várias áreas, como um maremoto varrendo uma cidade. Foram efeitos catastróficos, nos âmbitos psicológicos, sociais, na educação, na alimentação, na saúde, no lazer. No setor financeiro, a situação familiar deteriorou muito.

As dificuldades econômicas que surgem após a dissolução do casamento tiveram impacto significativo na redução dos níveis de bem-estar e sucesso acadêmico dos filhos.

As escolas públicas foram a escolha para economizar, embora minha mãe tenha, no ensino fundamental e médio, matriculado minha irmã no melhor colégio de Belo Horizonte, o Sacré-Coeur de Marie, no bairro da Serra.

Quanto ao meu irmão mais velho, foi enviado para o Colégio Militar, não se adaptando ao militar, foi transferido para o Colégio Arnaldo, ambos colégios de elite na cidade.

Eu e Antônio, sempre estudamos em escolas públicas, onde, como já se sabe o ensino é sempre precário. Embora nos anos 60, 70, ainda mantivessem um bom padrão de educação.

A redução do rendimento familiar teve impacto no bem-estar real dos filhos, traduzido no decréscimo de recursos financeiros disponíveis para a saúde, atividades extracurriculares, acesso a bens culturais, de entretenimento e aquisição de produtos utilizados diariamente. Poucos livros, sem viagens, presentes de aniversário, festas de natal, ano novo ou páscoa, roupas simples, essa era a rotina de nossa família de baixa renda.

Já quanto ao impacto indireto, as dificuldades econômicas resultantes da separação afetaram minha mãe, influenciando no seu estado de humor, funcionamento e capacidade para providenciar cuidados apropriados aos filhos.

Eu, particularmente, me sentia abandonado pelo pai e pela mãe, já que de ambos, o que apenas queria era um pouco de carinho e afeto, coisa que sempre faltou. Para mim, faltou o essencial, não me importava com nada, desde que houvesse amor, como não tive, acabei por não ter nada, além das obrigações legais de pai e mãe.




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