CAPÍTULO 06 - Precisamos falar sobre Abandono Afetivo social e familiar – Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
CAPÍTULO 06 - Precisamos falar sobre Abandono Afetivo social e familiar – Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
Belo
Horizonte, 1968
A constituição federal estabelece que o Estado Social de Direito deve garantir direitos fundamentais aos indivíduos. Esses direitos são referentes à educação, saúde, trabalho, previdência social, lazer, segurança, proteção à maternidade e à infância e assistência aos desamparados. Sua finalidade é a melhoria das condições de vida dos menos favorecidos, concretizando assim, a igualdade social.
Ainda, que o Estado e a sociedade civil garantam em lei que as pessoas não devam ser abandonadas à sorte da vida, isto de fato não acontece. As classes e grupos subalternos da sociedade são de fato abandonadas pelo Estado e pela sociedade, quando não são abandonadas pela própria cultura do país.
Este é o caso de pessoas LGBT, negras, mulheres, indígenas originários e outras minorias, que são cotidianamente massacrados por uma cultura, Estado e sociedade, que pregam valores cristãos e liberais, de igualdade, liberdade e fraternidade.
Este abandono da sociedade, do Estado e da cultura de grupos vulneráveis, tem como consequência a vivência e o sentimento de abandono do mundo a este sujeitos, que se sentem isolados no mundo, que o mundo não lhes é favorável, enfim que nem deveriam pertencer ao mundo.
Estes sentimentos negativos experimentados por pessoas LGBT, negras, mulheres, indígenas originários e outras minorias, levam esses grupos a desenvolver uma baixa autoestima, levando-os ao fracasso social. Uma vez que fracassam socialmente, reforçam a teoria da exclusão e do abandono.
As teorias da exclusão e do abandono do Estado, sociedade e cultura pregam que nós, grupos minoritários, somos o lixo da sociedade e devemos, por isso, sermos eliminados, por não termos valor social.
Da negligência Estado, sociedade e cultura resultam de fato grupos sociais que são levados ao fracasso, e dessa forma o círculo perfeito do extermínio é completado.
A Constituição Federal, atribui aos pais e responsáveis o dever geral de cuidado, criação e convivência familiar de seus filhos, bem como de preservá-los de negligencias, discriminação, violência, entre outros deveres.
Não há como obrigar um pai ou mãe a amar um filho, mas a legislação lhe assegura um direito de ser cuidado. Os responsáveis que negligenciam ou são omissos quanto ao dever geral de cuidado podem responder judicialmente por terem causado danos morais a seus próprios filhos.
O abandono afetivo pode ser conceituado como a ausência de afeto necessário aos filhos, falta de apoio emocional, psicológico e social, por um ou ambos genitores, seja na convivência familiar costumeira ou no abandono do direito de visitas ou convivência.
O resultado mais visível do abandono afetivo que sentia resultou num maior cuidado e atenção para com meus pais, tentando reconquistá-los, ou conquistar o amor deles. A consequência mais cruel foi, já na infância, desenvolver uma depressão afetiva familiar. Me sentia abandonado e desprotegido, pelo menos, dentro dos padrões que gostaria.
Essa depressão infantil, atravessou a adolescência, afetou a juventude, entrou pela idade adulta, criando uma situação de trauma irrecuperável. De forma que dos 14 anos em diante, comecei a frequentar os consultórios psicológicos, tentando entender meu caos social, sentimental e existencial.
Fracasso
Mário Lago, 1946.
Relembro sem saudade o nosso amor
O nosso último beijo e último abraço
Porque só me ficou da história desse amor
A história dolorosa de um fracasso
Fracasso, por te querer assim como quis
Fracasso, por não saber fazer-te feliz
Fracasso, por te amar como a nenhuma outra amei
Chorar o que já chorei, fracasso eu sei
Fracasso, por compreender que devo esquecer
Fracasso, porque já sei que não esquecerei
Fracasso, fracasso, fracasso, fracasso afinal
Por querer tanto bem e me fazer tanto mal
Criança deprimida, adolescente em depressão chegamos assim aos anos 70.
Minha vizinha, do andar de cima, na área do serviço cantava a música de Elis Regina, - "Dois Pra Lá, Dois Pra Cá", eu em casa ouvia atentamente a música me identificando com o contexto depressivo da canção.
Dois Pra Lá, Dois Pra Cá, Elis Regina, 1974.
Aldir Blanc / João Bosco. 1974.
Sentindo o frio
Em minha alma
Te convidei pra dançar
A tua voz me acalmava
São dois pra lá
Dois pra cá
Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor
Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me perguntes mais
A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias
No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar
Eu hoje, me embriagando
De wisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois pra lá
Dois pra cá
No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar
Eu hoje, me embriagando
De wisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois pra lá
Dois pra cá
Dejaste abandonada la ilusión
Que había en mi corazón por ti
Definitivamente, a sociedade e minha família me jogavam num abismo de desajustes de toda ordem. Realmente, começava a me sentir uma criança não muito bem adaptada à sociedade, pela minha condição familiar, por ser afeminado, negro, pobre. Todo este contexto desfavorável, foi só piorando com a chegada a puberdade e adolescência nos anos 70.
3 - Anos de Chumbo: 1970 - 1979.
Acredito que os fatos mais importantes dos anos 70, até eu bater a minha primeira punheta em 1975, foram a chegada da televisão e do telefone em minha casa. Foi uma revolução nas comunicações, finalmente saímos com muito atraso da era do jornal impresso, do rádio e do cinema pra entrar na televisão e do caro mundo dos telefones fixos domésticos.
1970, estou com 10 anos, é nessa fase, que ouvimos muito: você já é um homenzinho. Este conceito homenzinho, deve dizer que a pessoa esta na fase de pré adolescência, que vai dos 10 anos até aos 14 anos. Uma passagem da infância para a vida jovem\ sexual reprodutiva.
Minha pré adolescência começou com 10 anos e terminou com 15, quando descobri, junto com a molecada do bairro, a masturbação ou famoso bater punheta. A partir da minha primeira punheta, aos 15 anos, deixei de ser criança e entrei de fato na adolescência.
Politicamente, em 1970, ainda estamos na ditadura militar, no governo do general Emílio Garrastazu Médici, que eu e outros pre adolescentes chamavam de Garrafa Azul, em clara zombaria à ditadura.
Apesar do Brasil ser campeão mundial de futebol, em 1970. A Seleção Brasileira conquista o terceiro título da Copa do Mundo de Futebol, pouco ou nada me lembro disso. Me lembro, mais, que era um péssimo jogador de futebol, e por causa disso, e por preguiça também, ficava sempre no gol, quando estava batendo minhas peladas: peladas, não punhetas. (risos).
Culturalmente, maio de 68, o movimento da jovem guarda, os hippies e a contra cultura já tinham começado. Eu, enquanto pré adolescente, não conseguia entender bem o que estava, de fato, acontecendo, mas em poucos anos, mais precisamente em 1974 já estaria aderindo aos ideais libertários da época, contrários aos de chumbo brasileiros, com minha primeira calça de boca sino.
No rádio de minha avó, recebia sempre muitas informações culturais do mundo, na maioria das vezes, através da música. Uma inovação dessa época foi a compra de uma vitrolinha para os quatro filhos curtirem suas músicas, o primeiro disco dessa vitrolinha, foi tocado em uma festa de aniversário, com a presença de outros vizinhos, “É proibido fumar”.
Como já havia dito, não havia festas em minha casa, porque não tinha dinheiro extra para isso.
Vitrola Philips, 610, Maletinha, Belo Horizonte, 1970.
Lp Vinil, É Proibido Fuma, Roberto Carlos, Belo Horizonte, 1970. É proibido é uma clara alusão às proibições da ditadura militar, já a palavra fumar diz respeito ao uso da maconha, também proibida. A cultura jovem exigia liberdade.
Na rua do prédio, a famosa Rua do Ouro, havia uma casa com jovens em idade maior, acima de 15 anos, com hábitos hippies, que nós, a turma pré adolescente, chamávamos de a casa das maconheiras. Sem saber, a garotada fazia o papel de polícia ideológica da ditadura, apontando e julgando aqueles que se rebelavam contra ela.
Esse período de 1970 a 1974 estavamos na época do milagre econômico brasileiro, foi a época de crescimento econômico elevado durante a ditadura militar brasileira, entre 1969 e 1973, também conhecido como "anos de chumbo". Chumbo nos trabalhadores e crescimento econômico para os ricos.
Minha família, de classe média baixa, também colhia os frutos da estabilidade de ferro, da economia que os militares criaram, tanto que compramos nossa primeira televisão preta e branca, não havia TV à cores, e o telefone.
Em 1970, minha mãe, depois de muita pressão minha, comprou uma televisão, que era um eletrodoméstico caro, coisa de gente que tinha dinheiro. Para me lembrar da data da compra, tive que recorrer ao fato que primeiro vimos no aparelho de TV, me lembro bem que um foguete subia para a lua, a partir disso localizei que a TV foi comprada em 1970.
A Apollo 13 foi um voo espacial tripulado norte-americano que tinha a intenção de realizar o terceiro pouso tripulado na Lua. Foi lançada do Centro Espacial John F. Kennedy em 11 de abril de 1970 por um foguete Saturno V, tendo sido a sétima missão tripulada do Programa Apollo da NASA. Wikipédia Data: 11 de abr. de 1970 – 17 de abr. de 1970.
Outro fato que fez me lembrar a data da compra da TV, foi a primeira telenovela que assistimos em casa: A Fábrica. Antigamente víamos as novelas e programas com todos os artistas brancos. Parecia normal, aceitar esse racismo estrutural, e achar que só os brancos eram bonitos e dignos de aparecer nas novelas. Os pretos quando apareciam eram apenas em papeis secundários, como empregados, empregadas, ou marginais, ladrões e bandidos.
A Fábrica foi uma telenovela brasileira que foi produzida pela extinta Rede Tupi e exibida no horário das 19 horas, de 1 de março de 1971 a 11 de março de 1972, teve 288 capítulos[1]. Teve como missão tirar a TV Tupi de sua má fase em telenovelas, na época.
Outro fator que me fez lembrar a compra da TV, foi minha mãe ter adquirido, também, o LP (long Play ) com a trilha sonora da referida telenovela.
Tv Philco Ford solid state Belo Horizonte, 1970.
Socialmente e economicamente, minha família estava no grupo social classificado como classe média baixa. Afinal que grupo é esse ? E o que é ser classe média baixa, morando em um bairro de elite ?
Sendo filho de pai e mãe funcionários públicos federais, de nível médio, era de se esperar, que a família fosse de classe média-média, mas como meus pais se separaram, fomos rebaixados à classe média baixa.
Prédio, onde morava na década de 70, de padrão classe média-média.
Condomínio Edifício Hydra – Serra, década 70, Belo Horizonte, padrão de classe média alta.
Deixando de lado a renda familiar, a a sociologia de Bourdieu privilegia o marcador “estilo de vida” para entender o processo de definição de estratos sociais das classes, a saber: extremamente pobre; pobre, mas não extremamente pobre; vulnerável; baixa classe média; média classe média; e alta classe média.
Ainda que minha família fosse de origem negra e tenha sido rebaixada à classe média baixa, ainda tinha um capital cultural simbólico referente à classe média alta, devido a fortuna do meu avó, que atuava como sinal, socialmente reconhecido, de um estrato social superior.
Se simbolicamente, nossa família tinha um certo conjunto de marcadores, que seriam socialmente reconhecidos como distintivos do estrato “classe média média e media alta”, de fato estava, pelo nível de renda incluída na classe média baixa.
Não tínhamos uma vida estável. Embora a casa fosse própria, não tínhamos renda alta, educação universitária, profissão de prestígio, acesso a lazer e diversão, nem boas escolas.
Os predicados “estável”, “própria”, “alta”, “universitária”, “de prestígio”, “boas”, além da inclusão de acesso a coisas não consideradas necessidades primárias, como lazer e diversão, seriam indicativos que minha família estava mais para classe média baixa remediada, do que classes média média e alta.
Embora uma família lascada socialmente, minha mãe, devido ao capital simbólico e cultural herdado de seu pai, insistia no fator educação como forma de ascensão social e recuperação de padrão de renda perdido. Dessa forma, os grandes investimentos familiares estavam focados na saúde, educação e alimentação.
Meu irmão Alfredo, e minha irmã foram direcionados aos melhores colégios de elite de Belo Horizonte, na época, enquanto eu e meu irmão Antônio, estudamos em escolas públicas, como forma de economia familiar.
Entender o contexto de minha família, nos anos 60, 70 é assistir ao seriado do televisão A Grande Família.
Seriado de TV A grande família, seriado homônimo transmitido de 1972 a 1975
O enredo do seriado de TV, em muito se assemelha ao vivido por minha família. Moradores da zona norte do Rio de Janeiro e pertencentes à classe média baixa, a família Silva tenta lutar para sobreviver com o pouco que tem.
Com a compra da televisão, na década de 70, deixei de assistir ao seriado “I Love Lucy”, na casa de meu amigo, namorado Beto, e comecei a assistir o que se passava no mundo, em minha casa. As lembranças mais fortes foram de I Love Lucy, a missão espacial Apollo 13 , e a novela Irmãos Coragem.
Seriado de TV “I Love Lucy”, anos 60\70. Um programa de TV cretino, que se esforçava em mostrar uma dona de casa de forma estúpida, para que todos rissem de sua condição social.
Novela Irmãos Coragem, 1970.
A luta pela liberdade e contra a opressão são o tema central deste folhetim que narra a história dos irmãos Coragem: João, Jerônimo e Duda, na fictícia cidade de Coroado, no cerrado goiano, cuja principal atividade econômica é o garimpo, bem diferente da abordagem de “I Love Lucy”.
Outra novela que assisti, em 1972, foi Selva de Pedra, na Rede Globo, havia um casal romântico, no qual, a novela girava em torno. Mas vendo um fragmento da novela, notei que toda minha atenção não se voltava para o casal romântico, mas para uma mulher frustrada, abandonada no altar, pelo Homem do par romântico.
Esta mulher abandonada era o personagem que me atraia, mais, por ser apaixonada, abandonada e vingativa, e através desse personagem pude ver as características da minha personalidade, que se formava.
Novela Selva de Pedra, Rede Globo, 1972.
Além dos seriados, a família também assistia ao famoso programa Flávio Cavalcanti, na TV. Flávio foi dos mais famosos e polêmicos comunicadores brasileiros, fez sucesso no comando de alguns programas de rádio e televisão nas décadas de 1960 e 1970. Até hoje não sei se ele defendia a ditadura ou não, só sei que o programa era muito agitado.
Programa Flávio Cavalcanti, na TV, 1970
Os vizinhos do andar de cima, tinham um poder econômico bem mais alto que da nossa família, tinham aquele carrão Dodge Dart, um carrinho cheio de bebidas, na sala, e foi na casa deles que ouvi o disco de Pink Floyd, “The Dark Side of the Moon” de 1973. Definitivamente, não tínhamos dinheiro pra comprar lançamento de discos, o jeito era ouvir no vizinho.
The Dark Side of the Moon de 1973.
Fiquei muito impressionado com o tal disco, as novidades do rock a gente ouvia no programa de rádio, Ritmos da Noite, da Rádio Cultura AM
Outro Hit Pop, dos anos 70 foi a Revista POP, Primeira investida da grande imprensa num novo mercado jovem, centrado em música e comportamento jovem, a Revista Pop (ou Geração Pop, como era seu nome completo) da editora Abril abraçou a década, sendo publicada mensalmente de 1972 a 1979.
Virgindade, para que tanto Grilo? Revista POP, 1974.
Quando tinha dinheiro, ia na banca de revista, comprar minha POP, até ganhei um premio pelo melhor desenho referente ao disco do Pink Floyd, “The Dark Side of the Moon”. Ganhei uma camiseta da banda.
Ainda na área de cultura, nas bancas foram lançadas duas coleções de livros, minha mãe comprou os Livros da Coleção "Obras imortais da nossa literatura" , 1973. Coleção bem ao gosto dela, com formação clássica. Já meu pai, que tinha uma cultura inferior a da minha mãe trouxe para casa a coleção de livros de banca de revista: Biblioteca Planeta - “Ciências Ocultas - Esoterismo” - 20 volumes.
Pela seleção de livros, via-se bem, que meu pai e minha mãe viviam em mundos bem diferentes.
"Obras imortais da nossa literatura" , 1973. Não vou dizer que lí todos os livros, mas alguns eu li, gostei muito de Luzia Homem, e o Ateneu, obras que eu interpretava com da cultura gay.
Fiz uma leitura totalmente gay do romance O Ateneu, de Raul Pompeia. O romance é uma das principais obras do Naturalismo brasileiro, utiliza a teoria determinista para criticar o ambiente corruptor dos internatos do século XIX.
O romance, na minha cabeça, falava de uma escola que era um verdadeiro antro de putarias. Ao fim do livro a escola estava carbonizada, o culpado do incêndio proposital era um aluno recém chegado que fora deixado ali contra a vontade, o pai pediu a Aristarco que lhe curasse o mau comportamento.
Já no romance Luzia Homem de Domingos Olímpio , para mim tratava-se de uma história de uma lésbica ou sapatão. Luzia Homem é um exemplo do naturalismo regionalista. Passado no interior do Ceará, nos fins de 1878, durante uma grande seca, vai contando a história da retirante Luzia, mulher arredia, de grande força física.
Sempre gostei de ocultismo e tudo ligado a isso, então essa coleção que meu pai trouxe para casa, caiu no meu gosto. Apesar de estar separado de minha mãe, em uma das suas visitas, deixou esse presente que me marcou a memória, tão apagada com relação a ele.
De vez em quando dava uma lida em alguma coisa dessa coleção, até satanismo tinha, só li o livro todo de Krishnamurti já que estava fazendo yoga, e a filosofia indiana me interessava.
Centro da cidade de Belo Horizonte, 1970.
Avenida Afonso Pena, à esquerda Bairro da Serra, ao fundo , bairro Mangabeiras, 1970.
Entre 1970 a 1974, frequentava o centro da cidade de Belo Horizonte, mas apenas em dois endereços: na Escola Afonso Pena, e o Mercado Central, em frente a antiga Secretaria de Saúde, onde minha mãe trabalhava.
No restante do tempo brincava e perambulava pelo Bairro da Serra, Mangabeiras, e pela mata da Ferrobel, hoje Parque das Mangabeiras. Por estranho que pareça, adorava andar sozinho, e me embrenhava pelas matas e montanhas, descobrindo novos espaços, naquele tempo, selvagens ainda.
Neste período de pré adolescência, entre 10 e 14 anos, era um moleque, digamos assim, normal, ou quase normal. Durante esse período as brincadeiras de cabaninha ficaram para trás, Depois de voltar da Escola, ia fazer os deveres da escola, após estava liberado para brincar na rua.
Neste período, 1970-71, o grande quintal que havia atrás do prédio que morava, foi rasgado por uma rua e dividido em quatro lotes, para construção de 4 edifícios novos. Já não podíamos brincar no meio das mangueiras ou do capim navalha, nem no córrego da Serra, que foi canalizado, agora as brincadeiras eram nos prédios em construção.
Foi na construção desses prédios, que a sexualidade pre adolescente se manifestou, nas famosas festas de meninos dançando com meninos à noite. E também os meninos mais adultos começaram a falar em masturbação, chamada de bater punheta. Eu não fazia a menor ideia do que se tratava aquela nova brincadeira, prazer, perversão sexual.
No Mercado Central ai sempre, quando acompanhava minha mãe ao serviço. Como não podia ficar dentro da repartição, passava o dia todo dentro do mercado perambulando e explorando os espaços. Tudo no mercado me fascinava.
Secretaria de Saúde e mercado central, antes da cobertura, em 1970.
Mercado Central, antes da cobertura, em 1970.
Adorava as barracas de plantas, os peixinhos, as lojas de macumba, amava profundamente toda aquela magia. Também por essa época, entre os 10 aos 14 anos, digamos que comecei a frequentar meu primeiro “banheirão”. “Banheirão” é um termo gay para designar um banheiro onde se pode ter algumas experiências sexuais. No banheirão, só olhar mesmo, os frequentadores eram adultos e eu ainda uma criança entrando na puberdade.
Após o trabalho de minha mãe, era a hora de fazer a feira no mercado central, e nas supermercados barateiros locais. Nessa hora, eu recebia sólidas aulas de economia doméstica e luta pela sobrevivência.
Escolher as melhores frutas e hortaliças, procurar os produtos melhores e mais baratos. Depois do Mercado Central e do supermercado EPA, agora subir a terrível ladeira da Avenida Augusto de lima, até à parada do ônibus Serra, era um esforço sobre humano, mas a condição de classe média baixa obrigava.
Um episódio de pobreza que me marcou, foi um dia à tarde, com fome, minha avó mandar eu misturar farinha com água e açúcar para matar a fome, pensei, chegamos no fundo do poço.
Um dos fatos que marcaram minha vida adolescente foi o acidente da queda do Pavilhão de Exposições da Gameleira. Estava perambulando no mercado, quando ouvi sirenes de ambulâncias passando sem parar, aquilo me chamou a atenção e perguntei o que houve. Um cidadão me informou que havia tido um desabamento.
Desabamento do Pavilhão de Exposições da Gameleira, Belo Horizonte, 1971.
Pavilhão da Gameleira: desabamento deixou 65 mortos e 50 feridos em 1971. Dez mil toneladas de concreto caíram sobre os operários, que finalizavam trabalhos para a inauguração da obra, em BH. Foi o maior acidente da construção civil no país, na época.
Chegamos ao final de 1972, concluí meu ensino fundamental I, no Grupo Escolar Afonso Pena. Era o momento de ir para a Escola Estadual da Serra, para continuar os estudos, mas minha mãe, achou que eu estava fraco e me mandou para um reforço, em uma escola particular que detestei.
De repente estava estudando, ainda que por um curto período, no famoso colégio Champgnat, colégio de elite de Belo Horizonte nos anos 70, Localizado no coração da Savassi. Odiei estudar nessa escola, por vários motivos, a escola era uma bagunça, os alunos eram aquela patota zona sul de Belo Horizonte, classe média alta. Realmente, sentia que aquele não era meu mundo, nem aquela juventude minha amiga, pedi logo a minha mãe para me retirar da escola.
Estava já finalizando minha pré adolescência, estava me sentido horrível, feio, magrelo, cheio de espinhas, meu cabelo crespo, minha pele morena, minha pobreza, tudo me incomodava muito. Pra piorar, já sabia de minhas tendências gays. Estava naquela fase da vida, que você olha para o espelho e quer fazer duas coisas, quebrar o espelho e se matar.
Igreja de São João Evangelista, Bairro Serra, Belo Horizonte, 1970.
Desde de criança, fui obrigado a frequentar as missas da igreja católica, com 10 anos, entrei para o processo da primeira comunhão, após até os 15 anos era a época de renovar os votos cristão, através da crisma.
Uma das formas que a igreja católica inventou para atrair a os jovens eram os grupos de jovens. Então lá estava eu participando da juventude cristã católica, das obras sociais da igreja, paquerando o padre, que não me dava bola e sendo infeliz com um amigo\amante que arranjei no tal grupo.
Quando Conheci Marcelo, na igreja fiquei encantado com ele. Levei-o em minha casa, fui à casa dele. Enfim , nos frequentávamos. O que de fato queria com ele, além da amizade, era ter uma relação amorosa e sexual. Amor e sexo não tive, só a amizade mesmo. De família muito tradicional mineira, tinham uma famosa livraria na cidade. A livraria Itatiaia. Por mais que eu me insinuasse para Marcelo não havia resposta positiva nenhuma.
Cada dia que passava em minha vida era um tormento a mais, os hormônios sexuais aflorando, os desejos, os afetos, tudo parecia que ia muito mal, até que uma canção começou a bater mais forte em meu peito: Pare, olhe, ouça seu coração, “Stop, look, listen to your heart”.
Diana Ross & Marvin Gaye - Stop, look, listen to your heart, 1972.
Era a hora de eu parar de olhar para o mundo e começar a me olhar, era a hora de eu começar a me valorizar, enquanto ser humano. Comecei da dar os primeiros passos para abandonar a igreja católica.
A igreja não me amava, as pessoas lá , apenas me suportavam, eu não era bem vindo. A igreja não aceitava homossexuais, nosso espaço era da maldição, do pecado e do diabo. Realmente não fazia mais nenhum sentido continuar naquela instituição.
Fazendo a opção por mim, por minha sexualidade, pelo meu corpo e prazer, estava começando a dar os passos certos.
Secos & Molhados, álbum de 1973.
Sangue Latino
Jurei mentiras e sigo sozinho
Assumo os pecados
Os ventos do norte não movem moinhos
E o que me resta é só um gemido
Minha vida, meus mortos, meus caminhos tortos
Meu sangue latino
Minh'alma cativa
Rompi tratados, traí os ritos
Quebrei a lança, lancei no espaço
Um grito, um desabafo
E o que me importa é não estar vencido
Em 1974, estava em uma escola nova, o Colégio Estadual da Serra, estava no ensino fundamental II, a minha calça era boca sino, eu me aceitava como gay, havia o black power. Uma onda , uma brisa fresca varria o deserto de minha vida. Nada melhor para se afirmar do que ouvir uma banda de música gay: Secos e Molhados.
O ano de 1974, se inicia como um vulcão, prestes à entrar em erupção. Muitas emoções, sexualidade explodindo. Um mundo morrendo e outro mundo nascendo. Como toda época da vida, marcada por dor e alegrias.
Saindo da fase de latência, ou dormência, o inconsciente volta a aflorar com força, agora com um componente explosivo, os hormônios sexuais. Já sabemos que o inconsciente é aquela força que tudo quer, tudo pode, mas tem diante de si e contra si a sociedade e suas leis morais.
Desse conflito entre o inconsciente, que tudo quer, e a lei moral da sociedade nasce a personalidade do sujeito, como um resultado dessa luta.
O Complexo de Édipo em Freud, e a luta de classes em Marx consistem numa triangulação vivida pela criança e suas figuras parentais, representantes do prazer e do poder. Nessa fase a criança rejeita um dos cuidadores e se apega ao outro. Um deles representa o objeto de desejo e o outro, a proibição ou inscrição na lei social.
O resultado do conflito entre o desejo da criança e suas figuras parentais, pode ter as mais variadas soluções. No meu caso, abandonei a figura da mãe e da irmã, como objetos do desejos, e adotei a figura do pai como objeto de desejo.
Na impossibilidade de ter o pai, como objeto de desejo, foi feita a transferência dos desejos para outros homens, ou pessoas do sexo masculino. Falando assim, parece que foi fácil, mas foi um processo muito doloroso e cheio de conflitos de toda ordem.
Um homem amar outro homem ainda é tabu, em 2022, imagine nos anos 60, 70 ?
Complexo de Édipo é um dos conceitos fundamentais de Freud, na Psicanálise. Este conceito refere-se a uma fase no desenvolvimento infantil em que existe uma “disputa” entre a criança e seus pais. O primeiro objeto de desejo e prazer é naturalmente a mãe, mas pode se descolar para o pai, para outros parentes, ou mesmo outras pessoas.
A disputa por prazer e satisfação é uma fase. é um conflito que deveria ficar bem resolvido na infância. Mas muitas vezes não é, e também pode se manifestar, com todos seus problemas, na adolescência ou qualquer outra fase da vida.
Como o édipo pode voltar na adolescência, no meu caso voltou com muita força com a explosão dos hormônios sexuais. Pode parecer absurdo, mas me enamorei novamente de minha mãe, é claro, que ela descartou aquelas pretensões absurdas. Por mais que insistisse em um beijinho, aqui e ali, ela simplesmente detestava aquilo.
Já disse que minha mãe era uma pessoa fria e distante, minha irmã era totalmente egocêntrica e individualista, enfim, essas duas mulheres como objeto de desejo e amor não faziam o menor sentido para mim. Eram só causa de sofrimento e dor. Nem o amor sublimado, que se pode ter com relações aos parentes, com elas não era possível. Melhor esquecê-las para sempre e seguir a vida.
A Cruz Que Carrego
Evaldo Braga, 1971.
Sinto que é grande a tristeza
Intenso o inverno
O meu destino cruel
Me expõe ao inferno
Em nada mais posso crer
Para mim nada existe
Somente eu sei dizer
Por que vivo tão triste
Sinto a cruz que carrego bastante pesada
Já não existe esperança
No amor que morreu
Há solidão, amargura
Desprezo e mais nada
Vou amargando a sorte
Que a vida me deu
Na figura paterna e dos homens, eu via todo um horizonte de possibilidades de satisfação. Como era fácil amar os homens, eles eram tranquilos, objetivos, também amorosos e no sexo não tinham restrições. Aos 14, 15 anos. minha opção por amar homens então se tornou uma realidade concreta e viável, porém socialmente proibida.
Mesmo achando uma solução viável para meus desejos, isso não me impediu que desenvolvesse uma depressão que se arrastaria por anos, ou mesmo décadas. Depressão de fundo familiar ? De fundo social? De fundo genético? De fundo psicológico? Realmente não sei. Mas sempre um gosto de algo ia muito errado me perseguiu durante décadas.
Paulo Freire diz, quando uma educação não é libertadora, não houve educação. A verdade é que conflitos de desejo se prologavam por toda minha vida, e parecia que não havia saída, para meu caso, mesmo diante das soluções adotadas. Será que desenvolvi um sentimento de fracasso? Fracasso psicológico? Social, fracasso na vida?
Como dizia minha mãe: a vida do gay é um inferno, e todo gay vai para o inferno. Será que ela, o Estado, a cultura e a sociedade estão certas?
































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