CAPÍTULO 08 - ANOS DE REVOLUÇÕES, EXÍLIOS E MORTES. Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
CAPÍTULO 08 - ANOS DE REVOLUÇÕES, EXÍLIOS E MORTES. Biografia de Manuel Romário Saldanha Neto.
De 1977 a 1980 tivemos a luta dos trabalhadores, a Era disco, revolução sexual, gay, black power feminismo e abertura política, em Belo Horizonte. Os sinais que esta revolução estavam entrando em crise vieram com o primeiro caso de HIV no Brasil, que foi registrado na cidade de São Paulo,em 1980. Enquanto isso vivíamos na alegre e feliz “Babilônia”.
Jardins da Babilônia
Rita Lee, 1978.
Ouça Jardins da Babilôni…
Suspenderam os Jardins da Babilônia
E eu pra não ficar por baixo
Resolvi botar as asas pra fora
Porque
Quem não chora dali, não mama daqui
Diz o ditado
Quem pode, pode
Deixa os acomodados que se incomodem
Minha saúde não é de ferro, não
Mas meus nervos são de aço
Pra pedir silêncio eu berro
Pra fazer barulho eu mesma faço
Ou não!
Pegar fogo
Nunca foi atração de circo
Mas de qualquer maneira
Pode ser um caloroso espetáculo
Então: o palhaço ri dali
O povo chora daqui
E o show não pára
E apesar dos pesares do mundo
Vou segurar essa barra
Minha saúde não é de ferro, não
Mas meus nervos são de aço
Pra pedir silêncio eu berro
Pra fazer barulho eu mesma faço
Ou não!
Minha saúde não é de ferro, não
Mas meus nervos são de aço
Pra pedir silêncio eu berro
Pra fazer barulho eu mesma faço
Na década de 70 inicia-se a Era Disco , que teve suas raízes nos clubes de dança voltados para negros, latino-americanos e apreciadores de música psicodélica, além de outras comunidades minoritárias e discriminadas, na cidade de Nova York e Filadélfia. Em 1976, o grupo músical “Bee Gees” entram na era disco com a canção "You Should Be Dancing", você deveria estar dançando. É também uma das seis músicas interpretadas pelos Bee Gees incluídas na trilha sonora do filme “Saturday Night Fever” , que saiu um ano depois.
Gays, negros, mulheres, classe trabalhadora e minorias, resolveram fazer sua revolução e buscar sua liberdade. Igualdade, liberdade, fraternidade e prazer eram as palavras dessa revolução política: Luta e Prazer, liberdade e luta.
Filme, Os Embalos de Sábado à Noite, 1978
Era disco, revolução sexual, gay power, black power, feminismo, lutas da classe trabalhadora e abertura política da ditadura brasileira, temos aí as condições perfeitas, para alguém se libertar.
Vamos então por partes, explicando cada revolução, vamos começar pelas lutas da classe trabalhadora, que existe desde a antiguidade, depois, a luta das mulheres por direitos iguais que remonta ao século XIX.
O movimento negro ou black power, tem seu auge nos anos 60. O gay power, de 60 e 70, foi um filhote das lutas trabalhistas, do movimento feminista e do movimento negro, que juntos se associaram, à contra cultura, movimento hippie e à revolução sexual, que teve seu início, com a descoberta da pílula anti concepcional.
Juntos todos esses movimentos libertários sociais, formaram uma ampla frente contra o conservadorismo, autoritarismo e violências operadas pelo capitalismo e comunismo. Um novo mundo se buscava: A era de Aquários.
Hair é um filme norte-americano de 1979.
Aquarius
Hair, 1979.
When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!
Harmony and understanding
Sympathy and trust abounding
No more falsehoods or derisions
Golding living dreams of visions
Mystic crystal revelation
And the mind's true liberation
Aquarius!
Aquarius!
When the moon is in the Seventh House
And Jupiter aligns with Mars
Then peace will guide the planets
And love will steer the stars
This is the dawning of the age of Aquarius
The age of Aquarius
Aquarius!
Aquarius!
Vamos ver como eu, entre meus 18 a 22 dois anos interagi com todos esses movimentos sociais libertários, ocorridos entre 1978 a 1982. Em 78 atingi a maioridade o que significava, legalmente, que era livre para decidir minha vida.
È claro que uma pessoa só é livre quando tem o poder econômico, que gera junto com o poder político, o poder de decidir o que é melhor para si. Ainda que tivesse atingido o poder político da maioridade, não tinha o poder econômico, o que fragilizava minha liberdade, por depender, ainda, economicamente dos pais.
Só quando comecei a trabalhar em 1982, o poder político, se uniu ao poder econômico, ai sim podia fazer minha revolução completa. Então entre 1978 a 1981, mais fiz barulho e protestos sociais, do que uma revolução de fato.
Colégio Estadual Central, de Belo Horizonte, anos 70, o mesmo colégio que havia estudado a presidenta Dilma Rousselff.
Qual o pior inimigo? A família ou o Estado ditatorial ? De um lado temos o poder ditatorial militar do Estado, com todos seus aparatos de repressão: o governo, a administração pública, o exército, a polícia, os tribunais, as prisões.
Junto à ditadura militar brasileira, temos colaborando com ela um complexo sistema: as igrejas, as escolas, a lei e o sistema jurídico, partidos, sindicatos, os sistemas de informação do rádio, cinema, música, das artes, da televisão,e dos jornais.
Aliada ao Estado ditatorial, temos a família ditatorial, difícil definir qual o pior. Se o estado muitas vezes não vemos, a família a gente acorda e dá de cara com ela , 24 horas por dia. Em princípio, a ditadura da família parece pior que a ditadura do Estado.
Juntos, eu, o movimento negro ou black power, as lutas trabalhistas, o movimento feminista o movimento negro, se associaram, à contra cultura hippie e à revolução sexual, para lutar contra a ditadura.
Era pobre, negro, gay, desempregado, afeminado, e revoltado contra a opressão, então podia lutar em várias frentes na guerra dos anos 70 e 80. No ensino médio, me juntei com uma galera de esquerda do MR8.
O Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR8) foi uma organização política marxista que participou da luta armada contra a ditadura militar brasileira. Surgiu em 1964, no meio universitário da cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro.
Então, eu, Cibele, Emmanuel, Mônica Sallum e outros, tramávamos noite e dia ações juvenis a adolescentes, junto à UMES-BH, (União Municipal dos Estudantes Secundaristas de Belo Horizonte), contra a ditadura. Me lembro bem de um protesto, que fizemos em frente a Secretaria de Educação, com os agentes do DOPS nos vigiando e fotografando e fichando.
A polícia política nos fotografando. Pensei, meu Deus, depois de ser fichado como homossexual no parque Municipal, agora fichado como terrorista no DOPS, Departamento de Ordem Política e Social. Realmente, estava entrando na merda.
Nas horas vagas, o interesse agora era ler os jornais de esquerda e contra cultura, como o Lampião da Esquina, jornal gay, o Pasquim, e o jornal Opinião.
Jornal de esquerda e contra cultura, Lampião da Esquina, 1979. Em 10 de fevereiro de 1980, é - Fundado o Partido dos Trabalhadores.
Ao começar a trabalhar no serviço público federal, em 1982, logo aderi à luta sindical e dos trabalhadores No primeiro ano de trabalho, ainda em estágio probatório, fizemos uma greve considerada ilegal. Pronto, pensei, acabei de me meter na maior merda de minha vida. Vou perder meu emprego.
No momento que consigo minha liberdade econômica, arranjando um bom emprego, jogo tudo pelos ares, atrás de luta de trabalhadores. Graças aos deuses, não fomos demitidos.
Minha sexualidade, agora mais livre, transitava nos cinemas pornôs e nos cinema de arte, para adultos, nas saunas gays, nas pistas de danças, nas boites gays, nos bares gays e nas passeatas contra a ditadura. No carnaval, aproveitávamos para desfilar travestidos na famosa Banda Mole de Belo Horizonte, para anarquizar mais ainda o sistema opressor da ditadura.
Eu na República Independente da Banda Mole, um bloco carnavalesco anárquico de Belo Horizonte, Minas Gerais. Criado em 1975.
Em 13 de outubro de 1978, depois de muita pressão dos trabalhadores, da sociedade democrática, dos gays, negros, mulheres, e minorias, no governo Ernesto Geisel, foi promulgada a emenda constitucional nº 11, cujo artigo 3º revogava todos os atos institucionais e complementares que fossem contrários à Constituição Federal.
O Ato Institucional Número Cinco (AI-5) foi o quinto de dezessete grandes decretos emitidos pela ditadura militar, nos anos que se seguiram ao golpe de estado de 1964 no Brasil. Os atos institucionais foram a maior forma de opressão durante o regime militar, dado que, em nome do "Comando Supremo da Revolução" ( agressores da democracia), derrubaram até a Constituição da Nação, e foram aplicadas sem a possibilidade de revisão judicial. Estava revogado o AI 5.
O AI-5, foi o mais duro de todos os Atos Institucionais, foi emitido pelo presidente Artur da Costa e Silva em 13 de dezembro de 1968. Isso resultou na perda de mandatos de parlamentares contrários aos militares, intervenções ordenadas pelo presidente nos municípios e estados e também na suspensão de quaisquer garantias constitucionais que eventualmente resultaram na institucionalização da tortura e terrorismo comumente usada como instrumento pelo Estado.
Com o fim do AI 5, Trabalhadores, sociedade democrática, gays, negros, mulheres, indígenas e minorias se aproximavam da liberdade e do paraíso tão desejado. A sociedade se abria para a democracia, o poder do povo.
Mas uma sombra ainda pairava na minha cabeça juvenil. Como destruir a Ditadura familiar? Com certeza, destruir a ditadura da família é mais difícil que a ditadura do Estado. Ainda posso sentir, toda a angústia de lutar contra as pessoas que mais amava.
Chico Buarque, 1978.
Pedaço de Mim
Zizi Possi, 1978.
Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade é o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh, pedaço de mim
Oh, metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh, pedaço de mim
Oh, metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh, pedaço de mim
Oh, metade amputada de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
No membro que já perdi
Oh, pedaço de mim
Oh, metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo
E eu não quero levar comigo
A mortalha do amor
Adeus
Lutar contra minha família era lutar contra mim mesmo, lutar contra meu corpo construído e constituído, era se matar em vida, para renascer em outro corpo e alma.
4 – Tempo de Exílio: 1980 – 1989
Um período histórico vulcânico, é o que posso dizer dos anos que vão de 1982 à 1993, marcados por vários fatos importantes: O início de minha independência econômica, propiciada pelo meu trabalho, em 1982, agora , como funcionário público federal, concursado, saída da casa dos meus pais, o fim da ditadura no Brasil, em 1988, e o início da Era do HIV-AIDS, em 1980.
Estamos em 1982, na década de 80, o hino da comunidade Lgbt, afro, mulheres e trabalhadores é um só: Nós vamos sobreviver. Por que sobreviver ? Apesar dos lentos avanços, a luta das minorias pelos direitos e reconhecimento é frágil. O sistema da opressão parece ser bem maior. Estamos lutando contra a cultura, que remonta a antiguidade humana.
I Will Survive
Gloria Gaynor, 1978.
At first, I was afraid
I was petrified
Kept thinking I could never live without you by my side
But then I spent so many nights thinking how you did me wrong
And I grew strong
And I learned how to get along
And so you're back
From outer space
I just walked in to find you here with that sad look upon your face
I should have changed that stupid lock
I should have made you leave your key
If I'd have known for just one second you'd be back to bother me
Go on now, go
Walk out the door
Just turn around now
'Cause you're not welcome anymore
Weren't you the one who tried to hurt me with goodbye?
Did you think I'd crumble?
Did you think I'd lay down and die?
Oh, no, not I
I will survive
Oh, as long as I know how to love
I know I'm still alive
I've got all my life to live
And I've got all my love to give
And I'll survive
I will survive
Hey, hey
It took all the strength I had
Not to fall apart
Just trying hard to mend the pieces of my broken heart
And I spent, oh, so many nights just feeling sorry for myself
I used to cry
But now I hold my head up high
And you see me
Somebody new
I'm not that chained up little person still in love with you
And so you felt like dropping in and just expect me to be free
Well, now I'm saving all my loving for someone who's loving me
Go on now, go
Walk out the door
Just turn around now
'Cause you're not welcome anymore
Weren't you the one who tried to break me with goodbye?
Did you think I'd crumble?
Did you think I'd lay down and die?
Oh no, not I
I will survive
And as long as I know how to love
I know I'm still alive
I've got all my life to live
And I've got all my love to give
And I'll survive
I will survive, oh
Go on now, go
Walk out the door
Just turn around now
'Cause you're not welcome anymore
Weren't you the one who tried to crush me with goodbye?
Did you think I'd crumble?
Did you think I'd lay down and die?
Oh no, not I
I will survive
And as long as I know how to love
I know I'm still alive
I've got all my life to live
And I've got all my love to give
And I'll survive
I, I, I will survive
Outro fato bastante importante, desta época, foi a minha entrada para a universidade em 1983, e a saída da casa de meus país, ou da minha mãe, em 1986, cortando, ou pelo menos tentando, cortar o cordão umbilical das relações toxicas da família comigo.
Culturalmente, concluí minha graduação superior em Filosofia em 1988 e iniciei meu mestrado em marxismo e estética, em 1989. Em 1990, abandonei o mestrado por divergências com meu orientador , Professor Dr José Chasin, um marxista ortodoxo. Como estava combatendo formas opressivas e ditatoriais, não havia como prosseguir trabalhando com um professor ditatorial.
Como a relação com minha família, as relações continuavam muito tóxicas, resolvi, então, além de sair da casa dos pais, em 1991 me mudar para a Itália, onde continuaria minha vida e estudos.
Entre o fim do meu mestrado, e após minha viagem fracassada à Itália em 1991, minha mãe veio a falecer de câncer, no mesmo ano de 1991, o que intensificou e muito a depressão crônica, que já tinha. Em meu processo psicanalítico, estava elaborando a morte simbólica de minha mãe, que acabou se misturando com a morte real, gerando um caos emocional em minha existência.
Após, a morte de minha mãe, ainda passei uns dois anos em Belo Horizonte, onde concluí minha licenciatura em filosofia, em 1992. Depois de um desentendimento com minha irmã Ana, com a qual morava, na casa da minha mãe, resolvi me mudar para o Recife, em 1993.
Em 1982 comecei a trabalhar no serviço público, por pressão e projeto de minha mãe, que achava que o serviço público foi a melhor carreira para ela, a carreira de seu marido e que portanto também devia ser a do filho.
Pelas minhas inclinações, jamais, entraria para o serviço público, já que minha área de satisfação profissional era artes e criatividade, área que minha mãe sempre combateu, boicotando todos meus projetos.
Graças aos bombardeios de minha mãe, não pude fazer experimentos na área do travestismo, que gostava, não pude exercer minha profissão de costureiro, alfaiate, maquiador, cabeleireiro, desenhista de publicidade, figurinista. Enfim, graças a minha mãe, todos meus projetos profissionais, um a um, foram naufragando.
Não era só meus projetos profissionais que afundavam, a própria crença na minha capacidade produtiva estava se esgotando, diante de um mundo inóspito. Nem o contexto social, e muito menos o familiar eram um estímulo para me desenvolver , nesse período.
Bicha preta, pobre, se apresentando para o serviço público federal, morrendo de medo de ser recusada, por ser doente. Nesta época a homossexualidade ainda era considerada uma doença, 1982.
No dia 17 de maio de 1990 a Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da lista internacional de doenças. Não há muito tempo o mundo todo, até os países mais liberais, lidava com a questão da opção sexual como caso de saúde pública.
Antes de 1990, a homossexualidade era considerada uma doença mental. Em 1952, a Associação Americana de Psiquiatria publicou, em seu primeiro Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtorno Mentais, que a homossexualidade era uma desordem.
Cientistas acabaram falhando por diversas vezes ao tentarem comprovar que a homossexualidade era, cientificamente, um distúrbio mental. Com a falta desta comprovação, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a opção sexual da lista de transtornos mentais em 1973.
A Organização Mundial de Saúde incluiu o homossexualismo na classificação internacional de doenças de 1977 (CID) como uma doença mental, mas, na revisão da lista de doenças, em 1990, a opção sexual foi retirada. Por este motivo, o dia 17 de maio ficou marcado como Dia Internacional contra a Homofobia.
Após a entrada no serviço público, só tinha um projeto, sair daquilo, o mais rápido possível. Já trabalhando, fiz dois cursos de maquilador no SENAC, de Belo Horizonte.
Em 1984 fiz um curso, também no SENAC, de cartazista e letrista, onde conheci um novo amigo, Juscelino Maquiaveli, ou simplesmente Ju, rapaz recém chegado à capital, do interior de Minas Gerais. Eramos jovens e queríamos ser artistas.
Neste período tentei fazer vestibular para engenharia, que é profissão de “macho”, não passei. Fiz vestibular para arquitetura, no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, algo mais gay e artístico, passei, mas não tinha dinheiro para pagar a faculdade particular.
Seguindo as orientações de minha mãe, que a pessoa, para ser gente, tem que ter um curso superior, acabei fazendo vestibular e fui aprovado para o curso de letras na Universidade Federal de Minas Gerais em 1983.
Neste período meu amigo Ju, foi fazer seu curso de publicidade também na UFMG, nossa amizade continuou, ainda que um pouco mais distanciada, e se distanciou mais ainda, quando ele resolver se mudar para Nova Iorque. Neste período também arranjei um namorado, que bagunçou muito minha cabeça.
Belo Horizonte, década de 80, meu mundo não só havia caído, estava também destruído.
Ser gay é algo muito complicado, o mundo todo conspira contra nós. Dessa forma temos toda a estrutura de nosso ser prejudicada, inclusive nas relações afetivas. O novo romance não deu certo, o que me deixou num estado psíquico lamentável.
Aproveitei que estava trabalhando e podia pagar, para retornar meus tratamentos psicológicos e psicanalistas. Minha cabeça estava em parafuso. Se homossexualidade é doença, então vamos tratar, ou pelo menos tentar entender o que é isso. Os anos 80, já não eram tão dançantes como nos anos 70, da era disco, eram mais sombrios e movidos pelo rock nacional e outras ondas pesadas internacionais.
Se por um por um lado eu estava empregado e ganhando bem havia uma crise econômica, pós milagre econômico, com o país super endividado e com inflação. A AIDS chegava ao Brasil, como o câncer gay, ou câncer rosa. Os cristão diziam que era um castigo de Deus pelo que a comunidade LGBT+ havia aprontado na era disco. A ditadura, no Brasil chegou ao fim, em 1985.
Minha cabeça estava um lixo, tudo parecia estar dando errado, tudo. O romance, a vida profissional, minha vida sexual e afetiva. Nada parecia ter sentido. Entrava em mais uma depressão.
Em 1985, diante do caos, continuei fazendo minhas terapias psicológicas, e fui fazer filosofia na UFMG, para ver se esse mundo tinha algum sentido, ou se era tudo loucura mesmo. Nesse período fiz muita militância no sindicato e no Partido dos Trabalhadores, PT, e bebia muito pelos bares, saunas e discotecas gays.
Toda Forma de Poder
Engenheiros do Hawaii, 1986.
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada
Fidel e Pinochet tiram sarro de você que não faz nada
E eu começo a achar normal que algum boçal
Atire bombas na embaixada
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer tudo que eu vi
Se tudo passa, talvez você passe por aqui
E me faça esquecer
Toda forma de poder é uma forma de morrer por nada
Toda forma de conduta se transforma numa luta armada
A história se repete
Mas a força deixa a história mal contada
E o fascismo é fascinante
E deixa gente ignorante fascinada
É tão fácil ir adiante e se esquecer
Que a coisa toda tá errada
Eu presto atenção no que eles dizem
Mas eles não dizem nada.
Concluída minha graduação em filosofia na UFMG em 1989, fui aprovado para o mestrado em filosofia na área de marxismo e estética. Ao procurar o curso de filosofia, tentando entender o mundo e minha cabeça, a cada dia que se passava as crises depressivas pioravam, porque a filosofia mais pergunta que explica.
Minha relação com a família, a cada dia se tornava mais insustentável, não concebia viver num mundo familiar, onde não era aceito. Minha irmã e meu irmão mais novo, tinham uma certa simpatia comigo, a mãe, tia, avó, e irmão mais velho me viam como doente. Dessa forma, depois de muita psicanálise resolvi sair da casa. A doce e amarga dor do parto.
1986, ao sair da casa de meus pais, estava dando adeus a todo um mundo, que era meu, que me constituía, como ser humano, mas também me envenenava.
Embriagado num cocktail de maconha, álcool e tranquilizantes, envolto e sufocado em milhões de teorias filosóficas, massacrado psicologicamente pela família e sociedade. Achei que era a hora certa de dar um basta àquilo tudo. Resolvi me mudar de país e começar uma vida nova, fazendo o que queira fazer. Abandonei meu mestrado e orientador fascista,e fiz as malas para a Itália.
5 - Time to Die: 1990 – 1999
Em 1991, viajei para a Itália, com uma ideia na cabeça e uma tesoura de cabeleireiro na mão, mas, como se diz em psicologia, eu já havia internalizado o opressor na minha cabeça.
Chegando na Itália, até tentei conseguir arranjar um emprego e me estabelecer, mas uma mega depressão, me obrigou a voltar. Mais uma velha falhava ao tentar tomar as rédeas de minha vida.
Na Itália, depois do fracasso de minha tentativa de se estabelecer, resolvi fazer turismo no país, para não perder todo o investimento que havia feito na viagem. Meu roteiro cultural foi Turim, Milão, Florença, Veneza, Bolonha, Roma, Nápoles, Pompeia, ilhas de Capri e Anacapri. Depois desse giro cultural, voltar ao Brasil, voltar para o lugar da minha derrota.
Milão, Itália, 1991.
Um fato histórico testemunhei em Milão, no guia turistico havia a indicação de uma discoteca como o nome “Brasilian Disaster”, o nome me chamou atenção e resolvi ir conhecer. Ao chegar na Boite, fiquei sabendo que era Gay, e estava lotada de travestis brasileiras lindíssimas.
Perguntei o motivo de tantas travestis num só local, me avisaram que estava havendo batida policial em Milão, e o alvo era as travestis clandestinas brasileiras, que estavam sendo protegidas pela artista transformista Safira Benguel.
Safira era uma ativista dos Direitos Humanos, artista e empresária em Milão. Muitos anos depois, achei a mesma no facebook e ficamos amigos de fato.
Vamos, então, voltar à filosofia, em buscas de explicação para a vida. Marx diz que a vida é luta, e devemos combater a opressão que é estrutural, uma classe dominante domina a dominada; Freud diz que a opressão começa em casa, nas relações familiares; Nietzsche diz que a opressão estão nos valores, então devemos combater os valores opressores.
Estava mesmo disposto ao combate, depois de derrubar uma ditadura, faltava derrubar a ditadura da família, e a ditadura instalada pelo opressor dentro de mim.
Ao chegar da Europa, resolvo continuar a luta contra minha família, mas encontro a mesma em ruínas. Minha mãe estava sendo abatida, não por mim, mas pela própria vida. Em 1991, em poucos meses veio a falecer. Ela morreu e estávamos em plena guerra, nem deu pra despedir direito.
Mais uma vez entrava em uma mega depressão, que duraria décadas. Não havia mais nada a ser feito em Belo Horizonte. A mãe causadora de tantos amores e ódios havia morrido.
Cada irmão havia tomava seu rumo, minha tia voltou para o Maranhão, e vovó já tinha morrido em 1983. Meu pai vivia com sua nova família e não dava mais notícias. Com a morte de minha mãe e irmã, para mim, a vida havia acabado também. Queria estar livre delas, mas não a queria elas mortas.
O Que Me Importa
Tim Maia, 1971.
O que me importa seu carinho agora
Se é muito tarde para amar você?
O que me importa se você me adora
Se já não há razão pra lhe querer?
O que me importa ver você sofrendo assim
Se quando eu lhe quis você nem mesmo soube dar
Amor?
O que me importa ver você chorando
Se tantas vezes eu chorei também?
O que me importa sua voz chamando
Se pra você jamais eu fui alguém?
O que me importa essa tristeza em seu olhar
Se o meu olhar tem mais tristezas pra chorar
Que o seu?
O que me importa ver você tão triste
Se triste fui e você nem ligou?
O que me importa o seu carinho agora
Se para mim a vida terminou?
Terminou
Terminou.
Ainda em Belo horizonte, concluí minha licenciatura em filosofia, em 1991\92. A cidade era cinza e morta, nada ali fazia mais sentido para mim. Em 1993, comprei uma passagem de avião para o Recife, o passado morreu, eu havia morrido também, era preciso renascer e começar uma vida nova.
Após a morte de minha mãe, em 1991, me mudei para o Recife em 93. Morar em Belo Horizonte seria morrer, porque meu processo depressivo e auto destrutivo estava muito avançado.
Estava bebendo compulsivamente, como forma de me manter anestesiado, e bebida não é terapia psicológica, nem anti depressivo. Ao contrário, intensifica, e muito, a depressão. Realmente, estava me mantendo fora do ar misturando álcool, tranquilizantes e outras drogas. Procurava agora um local, uma cidade, que me fizesse esquecer.
Gostava Tanto De Você
Tim Maia,1973.
Nem sei porque você se foi
Quantas saudades eu senti
E de tristeza vou viver
E aquele adeus não pude dar
Você marcou em minha vida
Viveu, morreu na minha história
Chego a ter medo do futuro
E da solidão que em minha porta bate
E eu...
Gostava tanto de voce...
Eu corro, fujo dessa sombra
Em sonho vejo este passado
E na parede do meu quarto
Ainda está o seu retrato
Não quero ver pra não lembrar
Pensei até em me mudar
Lugar qualquer que não exista
O pensamento em você
Só me restava sair de Belo Horizonte, pois se ficasse lá morreria, como acabou morrendo minha irmã Ana, de depressão em 1996. O Recife me deu uma nova vida, uma sobrevida que precisava. O mar, o sol, a novidade, o nordeste de minhas raízes foi o que não permitiu que a morte viesse habitar em mim.
Se em Recife, não morri, a depressão apenas cedeu, digamos que amenizou, mas não foi embora. Minhas tendências suicidas, herdadas da sociedade que me empurrava para a morte, estavam ativas. Já falaram que o Nordeste é um planeta à parte, com certeza é. Não é à toa que o Brasil todo vem passar férias nas praias quentes e belas do nordeste.
Então Recife e nordeste foram remédios para minha dor naquele momento de luto, pela morte de minha mãe e irmã. O único péssimo habito, que conservei de Belo Horizonte, foi o de beber, e estava bebendo muito.
Dos anos 90 até 2005, eu fiquei fora do ar. Pouca coisa me interessava, me desliguei da política, da economia, da sociedade, da cultura. Quando tratava desses assuntos era apenas de uma forma técnica e acadêmica, mas com envolvimento pessoal, quase zero.
Me informando do mundo, Bairro de Candeias, Recife, 1993.
Minha preocupação, nestes anos todos, em Recife, era sobreviver, e viver o sol e o prazer de viver do nordeste, tentando esquecer meus problemas passados. Estar no Nordeste não significou uma alienação total dos problemas que aconteciam no Brasil e no mundo.
Ao chegar ao Recife, em 1993, saí no bloco carnavalesco Galo da Madrugada, um banho de cultura pernambucana, Por ter formação acadêmica clássica e ser um pesquisador, também, participei da 45ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, na Universidade Federal de Pernambuco.
Na Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em Recife, me informei sobre as pesquisas em andamento no Brasil, na época, o que me serviu de estímulo para retomar meus estudos.
Ainda no Recife, recebi a notícia que meu pai havia falecido, notícia que pouco me afetou. Afetivamente, tenho duas relações com meu pai: Uma é de apatia e desinteresse, fruto da alienação parental, promovida por minha mãe, a outra relação é mais profunda, resultante de uma necessidade da presença e do afeto do pai ou de outros homens.
Novela Pai Herói, 1979
Pai
Fábio Jr., 1979
Pai
Pode ser que daqui algum tempo
Haja tempo pra gente ser mais
Muito mais que dois grandes amigos
Pai e filho talvez
Pai
Pode ser que daí você sinta
Qualquer coisa entre esses 20 ou 30
Longos anos em busca de paz
Pai
Pode crer eu tô bem, eu vou indo
Tô tentando vivendo e pedindo
Com loucura pra você renascer
Pai
Eu não faço questão de ser tudo
Só não quero e não vou ficar mudo
Pra falar de amor pra você
Pai
Senta aqui que o jantar tá mesa
Fala um pouco tua voz tá tão presa
Nos ensina esse jogo da vida
Onde vida só paga pra ver
Pai
Me perdoa essa insegurança
É que eu não sou mais aquela criança
Que um dia morrendo de medo
Nos seus braços você fez segredo
Nos seus passos você foi mais eu
Pai
Eu cresci e não houve outro jeito
Quero só recostar no teu peito
Pra pedir pra você ir lá em casa
E brincar de vovô com meu filho
No tapete da sala de estar
Pai
Você foi meu herói, meu bandido
Hoje é mais muito mais que um amigo
Nem você, nem ninguém tá sozinho
Você faz parte desse caminho
Que hoje eu sigo em paz
Dessa forma, a morte de meu pai, teve esse duplo aspecto, apatia e dor profunda. Meus três irmãos ficaram em Belo Horizonte, sendo que Ana ficou com seu filho Filipe, que havia nascido em 1983. Em Recife, já em 1993, aos trancos e barrancos, tentava reconstruir o que sobrou de mim.
ANOS 80 – RESUMO DA ÓPERA.
“Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado”
Heróis da Resistência - Dublê de Corpo - 1986
O que eu posso dizer dos anos 80? Foi uma década, 10 anos, uma vida, uma geração. Dez anos são muitos anos, por isso se considera que nesse período uma geração é constituída. Considero dentro dos anos 80 a faixa de anos que vão de 1978, quando fiz 18 anos, à 1990, quando estava com 29 anos.
Os anos 80 foram os anos finais da ditadura militar no Brasil, na minha vida particular, meu mundo infantil e juvenil entrava em crise e entrava para os realistas e duros anos 90.
Digamos que nos anos 80, eu realmente matei e enterrei um certo projeto de manuel, construído pelo sistema. Sob os escombros desse terremoto, comecei a construir um outro Manuel Romário.
Não suportava mais o país que vivia, recusava as relações familiares, a igreja e religião eram projetos falidos, a cultura midiática, na maioria dos casos produzia lixo.
O Estado, governo, sociedade e a política eram representações da corrupção e do autoritarismo.
Minhas relações de amizade entraram em crise, minha afetividade precisa de relações adultas que englobassem o afeto e a sexualidade. Definitivamente, os anos 80 foram de um profundo desconforto existencial e de mundo para mim.
Em 1979, pré 1980, minha vizinha Margarida, que era professora de artes, comprou o disco de Gil, Realce, e botou pra tocar em sua casa. Ouvindo as músicas, eu endoidei, e fui lá pedir o disco emprestado para ouvir melhor em minha casa, já que não tinha dinheiro pra comprar.
Realce era mesmo uma revolução. A canção que minha alma pedia era Super-Homem, a Canção. Era tudo que eu precisa ouvir, naquela época de conflitos e afirmações de minha existência e sexualidade fragilizada.
Tudo que eu precisa ouvir estava nestes dois versos fundamentais:
“Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver.”
Para mim , foi muito importante, naquela época ouvir esta música. E confesso que até hoje ela mé é fundamental. Para um homem, ou gay, ouvir que uma porção mulher existe no homem, e ela é fundamental para que a pessoa homem possa se manter vivo é uma verdadeira revolução.
Ouvindo a música, também suplicava que um dia minha mãe me entendesse, na minha complexidade afetiva, existencial e sexual, “Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera .Ser o verão no apogeu da primavera”. Acho que minha existência era complexa demais para minha mãe, uma mulher com a cabeça dos anos 50 entender.
Super-Homem, a Canção
Gilberto Gil, 1979.
Um dia vivi a ilusão de que ser homem bastaria
Que o mundo masculino tudo me daria
Do que eu quisesse ter
Que nada, minha porção mulher que até então se resguardara
É a porção melhor que trago em mim agora
É o que me faz viver
Quem dera pudesse todo homem compreender, ó mãe, quem dera
Ser o verão no apogeu da primavera
E só por ela ser
Quem sabe o super-homem venha nos restituir a glória
Mudando como um Deus o curso da história
Por causa da mulher
Realce é um álbum de estúdio do cantor e compositor Gilberto Gil lançado em 1979.
Eu, um adolescente, jovem, entre 18 à 29 anos, negro, que não se reconhecia negro, pobre de classe média baixa, com tendências gays assumidas a ferro e a fogo.
Nos anos 80, estava consolidando meu projeto de vida, ou o que era possível fazer, dentro de contextos desfavoráveis.
O tema da depressão me perseguia, embora a fome de viver fosse mais forte. Depressão por que ? Por achar um ambiente desfavorável e negativo à expressão da minha existência, meus potenciais, meus afetos e sexualidade.
Fome de viver, por que ? A pulsão de vida foi mais forte que a pulsão de morte.
Então, apesar de me afirmar socialmente, também carregava em mim um profundo sentimento de rejeição familiar e social, o que acarretava uma depressão crônica.
Por volta, de 1979, eu com 18 anos, conheci um cabeleireiro de nome Fernando ( Fernando Antônio de Souza, Studio Fernando Montenegro) em Belo Horizonte, provavelmente em alguma boite gay.
Fernando Antônio de Souza, ou simplesmente Fefeu, 1979? Fonte: Facebook.
Ele me convidou a conhecer o salão no qual trabalhava, por sorte , ou coincidência, relativamente perto de minha casa no bairro da Serra. Fui com muito gosto conhecer o salão. Na zona sul de BH, na Avenida do Contorno, era bem localizado e frequentado.
Fernando, apesar de origem bem humilde, galgava com valentia sua ascensão pessoal e profissional, ganhando um bom dinheiro como cabeleireiro. Tal fato me fascinou, também queria ter minha liberdade.
Fernando me levava para campeonatos de cabeleireiros, e assim eu via na prática o que era vencer na vida, trabalhando no que se gosta.
Fernando Antônio de Souza, Studio Fernando Montenegro, agora empresário e dono de salão de beleza, BH, 2023. Fonte: Facebook
O fato que quero contar, diz respeito aos projetos que minha mãe tinha para mim (ser um homem, heterossexual, nível superior em educação, funcionário público federal, católico, bem sucedido na vida). Mas naquele momento de minha juventude eu queria o projeto de Fernando, naquele momento ele era a comprovação de que se pode dar certo na vida.
Um belo dia Fernando me telefona e quem atende em casa é minha mãe, que repreende Fernando, dizendo que não queria que o filho dela, se relacionasse com pessoas do nível de Fefeu, ou seja, homossexuais.
Fernando veio me queixar da vergonha que havia passado com minha mãe, então fui para o enfrentamento com ela. Muito alterado, disse a ela, que a próxima vez, que ela fizesse uma grosseria daquela, eu não me responsabilizava pelos meus atos.
Aos 16 sofri homofobia, no meu primeiro trabalho, o que me fez afastar-me do mundo do trabalho até aos 22 anos. Mas sabia que eu devia trabalhar. Trabalhar era a saída, assim fiz o curso Auxiliar de Escritório, Contabilidade e Datilografia – SENAC, em 1982 . Mas como fui aprovado em concurso público federal, acabei abandonando o curso, já no final do mesmo.
De 1982 a 1990 , mesmo trabalhando no Serviço público, não abandonei meu projeto de trabalhar na área que gostava, mas que minha mãe reprovava. Então, nesse período fiz cursos de maquilador, cabeleireiro, cartazista e letrista, corte e custura, e figurinista. Nenhum desses cursos prosperou de fato.
Em resumo, Fernando ficou rico, e eu virei funcionário de nível médio, do serviço público federal. Na minha cabeça eu havia fracassado , mais uma vez. Definitivamente o projeto de minha mãe, não era meu projeto de vida.
DEPRESSÃO, EUFORIA, DEPRESSÃO, O BALANÇO DOS DIAS
Me lembro bem, de um dia de euforia e depressão ao mesmo tempo, que ficou bem marcante em minha vida. Estava com 18 anos. Bem vestido, com pouco dinheiro na carteira, já que não trabalhava ainda e dependia da minha mãe e pai, estava numa boate Gay, em plena Era Disco. Eis o momento de euforia.
As luzes da boite brilham, o nome da boite era “Brulé”o som explode altíssimo, a casa está cheia de jovens, belos e gays. É difícil descrever a atmosfera da era Disco, na cabeça de um adolescente, descobrindo sua auto existência e afirmando sua sexualidade e afetos.
A tal boite “Brulé” se situava em área nóbre da zona centro sul de Belo Horizonte, na Avenida Álvares Cabral, entre os bairros do Barro Preto e Santo Agostinho.
De repente, o som da música ia ao seu ponto mais alto, e a voz luminosa de Diana Ross rasgava o ar. Todos os gays atingiu o máximo de sua alegria e expressão corporal, através de bailados os mais exóticos e extravagantes possíveis. A música nos levava ao céu. Não parecia haver problemas, não havia parecer nada contra. Tudo era festa e alegria, regado ao longos drinks gelados.
Eu, como só levava o dinheiro da entrada e de dois drinks, ou bebia nos copos dos poucos amigos, ou mesmo tomava até restos de drinks, o importante era a embriagues dos sentidos.
The Boss
Diana Ross, 1979.
Fancy me
Thought I had my degree
In life and how love
Ought to be a run
I had a one step plan to prove it
Guide in my pocket for fools
Folly and fun
Love had to show me one thing
I was so right
So right
Thought I could turn emotion
On and off
I was so sure
So sure (I was so sure)
But love taught me
Who was, who was, who was the boss
(Taught me who was, who was the boss)
I'd defy
Anyone who claimed that I
Didn't control whatever moved in my soul
I could tempt
Touch delight
Just because you fell for me
Why should I feel uptight
Love had to show me one thing:
I was so right
So right
Thought I could turn emotion
On and off
I was so sure
So sure (I was so sure)
But love taught me
Who was, who was, who was the boss
(Taught me who was, who was the boss)
Love taught me
Taught me
Taught me
Taught me
I was so right
So right
Thought I could turn emotion
On and off
I was so sure
So sure (I was so sure)
But love taught me
Who was, who was, who was the boss
(Taught me who was, who was the boss)
A Depressão: Às vezes não tinha dinheiro para entrar, então pedia a alguém, talvez a alguém com quem eu havia transado pelas ruas escuras do bairro do Barro Preto. O importante era entrar no templo gay da era Disco.
Nesta mesma boite, que conheci EDUARDO LEMBI, jovem de classe média média, morador do bairro de Vila Paris, estudante do colégio Loyola, um dos melhores da capital. Um exemplo clássico de depressão gay crônica, de fundo social e familiar.
Ficamos muito amigos e confidentes durante anos, mas ele parecia assexuado. Se comportava de forma normal, mas em se tratando de sexo, ele parecia uma pessoa muito distante do assunto. Tentei várias vezes ter relações sexuais com ele, mas todas fracassaram. Afetivamente, intelectualmente e artisticamente nos dávamos muito bem.
Por fim , lá pela volta dos anos 82, ele entrou em uma mega depressão de fundo existencial e familiar, e acabou morrendo em um acidente de carro, que , sob certo aspecto, o aliviou das pressões sociais, existenciais e familiares, com relação à sua homoafetividade.
Como, já havia dito, também eu , já havia contraído uma depressão crônica, resultante de anos de repressão social e desconfortos familiares, relativos à minha homoafetividade. O mundo não parecia fazer muito sentido para mim, quando não , era totalmente desprovido de razão. Vivia por viver, vivia sem sentido, levado pelas ondas da vida.
Uma experiência de momento depressivo, se deu, ao fim de uma noitada na boite Brulé, conheci o sujeito, até bem simpático, saímos de carro, no carro dele, um fusca, e fomos acabar a noite num motel da zona sul.
Eis que o dia amanheceu, e tínhamos que ir embora. Então foi um mix de tudo, a ressaca da bebedeira, da boite, da noite de sexo. Foi a ressaca de uma vida inteira que tive naquele momento.
Saindo do Motel, o sol brilhava de uma forma que doía nos olhos e a alma, era como se fosse uma faca no olho. Pegamos a estrada BR para voltarmos ao centro da cidade, da janela avistava a serra do Curral, onde se situava o bairro da minha família. No radio começou a tocar a música: The Alan Parsons Project – Time, 1980.
A música falava do tempo, e de como na vida era inevitável e inexorável, e de como o tempo a tudo consumia. Me lembrei de minha família e um profundo sentimento de vazio preencheu todo meu ser. Primeiro via que ninha vida em nada fazia sentido. Minhas relações familiares eram um total fracasso. Minha vida era um fracasso. Eu havia falhado em tudo. As pessoas que eu amava de fato, de fato, eram as mais distantes para mim.
Enquanto a vida familiar, existencial e social afundava no vazio do nada e da negação, aqui estava eu, preenchendo minha vida, com fatos vazios e anônimos, noitadas, festas e pessoas anônimas com as quais não tinha nenhuma relação afetiva ou existencial.
Com estes sentimentos e com este quadro, ao som de The Alan Parsons Project – Time, fechava mais uma jornada cheia, porém vazia de minha vida.
The Alan Parsons Project – Time, 1980.
Time, flowing like a river
Time, beckoning me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river
To the sea
Goodbye my love
Maybe for forever
Goodbye my love
The tide waits for me
Who knows when we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river (On and on)
To the sea, to the sea
Till it's gone forever
Gone forever
Gone forever
Gone forever
Goodbye my friends (Goodbye my love now I'm asleep)
Maybe forever
Goodbye my friends (Who knows where we shall meet again)
The stars wait for me
Who knows where we shall meet again
If ever
But time
Keeps flowing like a river (On and on)
To the sea, to the sea.
Outros momentos de depressão me acompanharam, em um período de oscilação entre depressão, calmaria e euforia que foram os anos 80. Esse momentos depressivos eram sempre acompanhados de love songs, o que parece apontar que a afetividade era o ponto central que me guiava em todas as situações.
Se as relações afetivas não iam bem, todas as outras pareciam seguir a mesma orientação. Não preciso dizer que minhas relações afetivas familiares eram péssimas.
Acredito que um gay, um filho, se é bem aceito em casa, se há diálogo, aceitação e críticas, tudo parece andar melhor. Mas no meu caso, ao que parece, era uma pedrada atrás da outra, se não estou sendo dramático. Me sentia mesmo um leão ferido. Então espere tudo de uma leão ferido como na música de Byafra.
Leão Ferido
Byafra, 1981.
Feche os olhos
Não te quero mais
Dentro do coração
Quantas vezes
Eu tentei falar
Com você
Eu não gosto
De me ver assim
Mas não tem solução
A verdade dói
Demais em mim
Solidão
Tenho que ser bandido
Tenho que ser cruel
Um leão ferido
Feroz!
Sou um herói vencido
Anjo que fere o céu
Grito de amor sumindo
Na voz!
E nós, onde?
Andando por aí, noites vazias, bar em bar, bebendo com a solidão, saindo com estranhos, sexo anônimo. Outro momento marcante de minha depressões se deu entre os anos 79 a 85, Nesta época já havia começado a trabalhar, e havia entrado para a Universidade.
Nos trajetos gays que havia percorrido, estavam o Parque Municipal, com 16, 17 anos, após a Avenida Afonso Pena, os bares, os cinemas caretas, os cinema pornô, e agora , neste momento as saunas gays que começaram as ser abertas em Belo Horizonte, fruto dos avanços do movimento Gay.
Av. Afonso Pena, ao fundo o Parque Municipal, ponto de encontros gays. 1970.
Centro da cidade, Parque Municipal, ponto de encontros gays. 1970.
Numa dessas noitadas em busca de emoções, afetos e contatos sociais, aconteceram em Saunas gays, especificamente, na Sauna Off, situada na Avenida do Contorno, no bairro da Serra. Esta sauna tinha a vantagem de ser relativamente perto de minha casa, que ficava na rua do Ouro, 1344, de forma que muitas vezes ia a pé para a referida sauna.
Numa dessas idas, depois de uma tarde e noite regada a muito sexo, resolvi voltar para casa. Estava no vestiário, me trocando, quando tocou a música: Tonight I Celebrate My Love, Canção de Peabo Bryson e Roberta Flack, de 1983.
Meu deus, aquela música linda, parecia que vinha do céu, falando de um amor profundo, uma celebração do amor, como algo único e verdadeiro. Em contraste com a música, acabava de ter várias relações anônimas . vazias, e sem nenhum sentido.
Quanto mais a música falava daquele amor verdadeiro, mas eu afundava no vazio de minhas relações afetivas reais e familiares. O ambiente era limpo, calmo, tudo no lugar, mas na minha cabeça tudo, na verdade se revelava como um gigantesco caos.
Tonight I Celebrate My Love (feat. Peabo Bryson)
Roberta Flack, 1983.
Tonight I celebrate my love for you
It seems the natural thing to do
Tonight no one's gonna find us
We'll leave the world behind us
When I make love to you
Tonight I celebrate my love for you
And hope that deep inside you feel it too
Tonight our spirits will be climbing
To the sky lit up with diamonds
When I make love to you tonight
Tonight I celebrate my love for you (ooh)
And that midnight song is gonna come shining through
Tonight there'll be no distance between us
What I want most to do
Is to get close to you tonight
Tonight I celebrate my love for you
And soon this old world will seem brand new
Tonight we will both discover
How friends turn into lovers
When I make love to you
Tonight I celebrate my love for you (ooh)
And that midnight song is gonna come shining through
Tonight there'll be no distance between us
What I want most to do
Is to get close to you
FRACASSO, FRACASSO, FRACASSO AFINAL…..
Fracasso,por compreender
Que devo esquecer
Fracasso,porque já sei
Que não esquecerei
Fracasso,fracasso,fracasso,
Fracasso afinal
Por te querer tanto bem,
E me fazer tanto mal! (Mário Lago, 1957)
E enfim
hoje na solidão ainda custo
A entender como o amor foi tão injusto
pra quem só lhe foi dedicação, (Buarque, Jobim, 1970).
Assim que comecei a trabalhar em 1982, retomei meu tratamento psicológico, porque a sociedade me adoeceu, estava mentalmente adoecido e precisava me tratar. Associado ao meu tratamento psicológico, em 1985 mudei de curso, saí do curso de letras e fui para o curso de filosofia.
Fui estudar filosofia, porque tinha um colega de trabalho que estudava filosofia Everardo Ferreira. Este colega quando conversava comigo, tinha respostas para tudo, e isso me fascinou. Queria respostas paras minhas angustias existenciais, sociais, políticas, culturais, econômicas, enfim, queria respostas e a filosofia parecia responder.
A filosofia me respondeu a muita perguntas e responde até hoje. Fui vendo que meus problemas eram de fundo da luta de classes entre exploradores e explorados, que meus problemas psicológicos, também tinham um fundo freudiano, enfim, precisa me libertar de meus dominadores ou exploradores. Eu precisa ser o super homem de Nietzsche, precisava construir minha moral superior à marteladas.
O método da filosofia e da psicanálise consistia primeiro na derrubada crítica de tudo, inclusive eu. Dessa forma tive que me destruir ou me desconstruir, e isso doía muito, muito, muito. Uma dor insuportável, que dava vontade de morrer, ou se matar, muitas vezes amenizada e piorada pelas drogas, sexo e álcool.
Me lembro no oitavo andar da FAFICH, curso de filosofia, onde muitos alunos se suicidavam. Eu estava tão mal, que uma energia me levou até à janela para pular e me matar, mas graças aos deuses, consegui evitar essa tragédia.
O inimigo dominador social instalado dentro de mim, cumpria sua função de me exterminar. A culpa de minha morte, não seria da ditadura, nem da igreja, nem da família, seria toda minha.
Mais ou menos nessa época, 1987, ainda com 26 anos, depois de uma mega crise resolvi sair da casa de meus pais. Meu psicanalista da época, me aplaudiu dizendo que eu demorei anos pra tomar essa decisão.
GAROTA EU VOU PRA CALIFORNIA - CONJUNTO CALIFORNIA EM BELO HORIZONTE.
De repente, Califórnia
Lulu Santos, 1982
Garota eu vou prá Califórnia
Viver a vida sobre as ondas
Vou ser artista de cinema
O meu destino é ser e estar...
O vento beija meus cabelos
As ondas lambem minhas pernas
O sol abraça o meu corpo
Meu coração canta feliz...
Eu dou a volta, pulo o muro
Mergulho no escuro
Sarto de banda
Na Califórnia é diferente, irmão
É muito mais do que um sonho....
A vida passa lentamente
E a gente vai tão de repente
Tão de repente que não sente
Saudades do que já passou...
Bairro Jardim California Belo Horizonte, 1987.
De 1987 à 1988 morei no Bairro Jardim California. Conheci no curso de filosofia Luís, que morava com seu marido Marcelo Eduardo Zanetti no referido bairro. Pedi à Luís que me desse asilo no apartamento do casal, o que foi prontamente atendido.
Rua do Bandolins, Conjunto California, BH, MG, 1987.
Com a ajuda da Dra. Adelina Vieira Torres, minha colega do curso de filosofia fizemos a mudança no carro dela.
Marcelo Zanetti, seu marido Luís, sentado e meu amigo pernambucano Romão Alencar. Visita ao Bairro Jardim California Belo Horizonte, 1989 .
Bairro Jardim California Belo Horizonte, novembro de 1987, com Ângela Dutra Rabelo, e Eder Marcelo de Melo, ambos universitários, militantes de Esquerda e sindicalistas.
Em 1977, em Belo Horizonte, comemorei meus 27 anos, com uma festa. Comemorava também a saída de casa de minha mãe, uma verdadeira revolução e libertação. No meu novo Bairro, o California conheci Toninho, meu namorado da ocasião.
Em 1986 , participei do Encontro Nacional de Estudantes de Filosofia, no Recife, data na qual conheci a cidade que adotaria como a minha cidade.
Recife tinha tudo que amava, era morna, quente, aromática, as pessoas eram na maioria morenas\pardas, bem diferente do branco e preto racista de Belo Horizonte.
Recife tinha séculos de história, Belo Horizonte tinha 100 anos. Recife era nordeste. Belo Horizonte era o racista e xenófoba, sul do Brasil. Enfim, Recife eram as minhas raízes perdidas que finalmente encontrava.
No Recife, na primeira viagem, em 1986, fiquei hospedado no Bairro de Boa Viagem, que odiei. O que amei mesmo foi o centro e Olinda.
Pelo centro em busca da vida gay da cidade, conheci Romão Alencar e Alexandre Bernardo, que me apresentaram a vida gay da cidade, nos bares Mustang e o famoso e já fechado Mangueirão.
No mangueirão os gays e as lésbicas dançavam de rosto colado os hits da MPB do momento, me lembro bem de Luís Melodia, cantando Pérola Negra. Amei tudo, e prometi voltar aos novos amigos.
Através de Alexandre Bernardo vim a conhecer minha grande futura amiga Meméia.
Meméia, moradora do Recife, através de Romão se conectou comigo em Belo Horizonte, para onde se mudou em 1988, com 18 anos.
Meméia havia sido criada em Belo Horizonte, na infância, mas posteriormente voltou ao Recife por influência da sua mãe.
Em 1993, me mudei para o Recife, em virtude da morte de minha mãe. Advinhe quem me recebeu na minha mudança ? Meméia que havia retornado ao Recife. Meméia, cuidou de mim como uma mãe cuida de um filho doente, estava muito deprimido nessa época. Foi com ela, que vim a conhecer o famoso bloco carnavalesco Galo da Madrugada.
Meméia, hoje é cidadã suiça, e vem ás vezes ao Brasil, para rever a terrinha. Belo Horizonte, 2023.
A história de Meméia vale um capítulo de um livro , por si, mas não vou falar nada, deixo pra ela essa tarefa de contar sua história e aventuras no mundo.
Meu caso de amor com Toninho durou de 1997 à 1993, quando me mudei para o Recife. Toninho era uma especie de geração perdida, “lost generation”, de família de classe média, foi abandonado por todos, e vivia sozinho em um apartamento enorme da família no Bairro Jardim California.
Toninho, me vistando após a morte de minha mãe, em Belo Horizonte, 1991.
Para sobreviver Toninho era usuário e traficante de maconha, que vinha buscar na cidade de Cabrobó, onde se dizia tinha a melhor maconha do Brasil. A gente se encontrava sempre para transar à noite, na casa do casal Marcelo Zanetti. Ele se enchia de maconha e eu de Vodka, já que nunca gostei muito de maconha, devido a propaganda negativa que a sociedade dos anos 60 e da ditadura faziam contra a droga.
Nem tudo foram flores na minha estadia na casa do casal Marcelo e Luís, uma vez levei um rapaz que se dizia conhecido de meu cunhado Wilson Batista Ribeiro. Após dormir em casa, esse rapaz aproveitou minha saída e roubou várias roupas. Fique muito triste, porque pensei que ele ia ser meu namorado, era apenas um ladrão.
Outro fato desagradável, foi levar um desconhecido, que no meio da noite resolveu me roubar. Sai pra a rua nú , gritando por socorro. O ladrão foi embora com medo.
Depois desses dois fatos desagradáveis, resolvi que não havia mais clima para que eu continuasse morando com o casal gay. Dessa forma me mudei para o Centro de Belo Horizonte.
EDIFÍCIO JK – O TEMPLO GAY DA DÉCADA DE 70\80 EM BH
Conjunto
JK, Belo Horizonte, MG, cenas diversas de meu kitnet alugado, 1988.
O Conjunto Governador Kubitschek, mais conhecido como Edifício JK ou Conjunto JK, é um conjunto residencial composto por duas áreas que compreendem dois grandes edifícios, nomeadamente o Bloco A e o Bloco B. O conjunto está localizado no bairro Santo Agostinho, região Centro-Sul de Belo Horizonte, no Brasil. Atualmente é considerado um monumento histórico.
O projeto foi feito em 1952 pelo arquiteto Oscar Niemeyer, e o cálculo estrutural coube ao engenheiro Joaquim Cardozo] A construção foi feita pelo empresário Joaquim Rolla, com recursos doados pelo então governador Juscelino Kubitschek.
Em, 1989 As coisas pareciam que iam de mal a pior, quando me mudei da casa de Marcelo e Luís, o casal gay, que morava no bairro California, para o Edifício JK, em Belo Horizonte,
1991, Fotografia de Silvano Colares, Mestrando em Filosofia, morador da Moradia Borges da Costa, UFMG.
Havia em Belo Horizonte, como há até hoje, em todo um Brasil, um preconceito contra gays morando em condomínios, ou mesmo sendo vizinhos das pessoas de bem. Por pessoas de bem, estou dizendo, famílias brancas, heterossexuais, católicas e capitalistas de classe média pra cima.
Então ao sair da casa do casal gay, eu me direcionei para um ambiente onde os gays moravam, eram aceitos ou suportados, no caso me mudei para o Edifício JK em Belo Horizonte, que gozava de péssima fama, justamente por ser habitado por gays, e outros grupos marginalizados de baixa renda.
Na década de 70, tinha alguns amigos gays, que simplesmente moravam em cortiços em Belo Horizonte. No meio de putas, ladrões, trabalhadores os gays eram mais tolerados. Enfim eramos uma categoria subalterna da sociedade.
Rua Célio de Castro , 35, Bairro Colégio Batista, área central de Belo Horizonte, também chamado de República dos Bodes, pelas minhas amigas gays dos anos 70\80, que moravam no tal cortiço, habitado por muitos jovens proletários.
Buscando alternativas para morar, que fossem também perto do meu trabalho, no centro da cidade, escolhi o Edifício JK, justamente por ter sido um território urbano conquistado pelos gays. Vale lembrar que nos anos 70, 80, os territórios gays eram conquistas na força, porque ninguém queria saber dessa escória social.
Por timidez, ou insegurança financeira, escolhi o tipo de apartamento, chamado Kitnet, o menor e o mais barato, podia ter escolhido um apartamento menor, mas para mim, tudo na época era muito novo e desconhecido, então meus investimentos eram muito conservadores.
Os poucos anos que morei ou morri no Edifício JK pareceram os piores da minha vida. Não pelo prédio em si, mas pelo meu estado emocional, afetivo. Vivia uma profunda depressão.
1989, Edifício JK, Meu Kitnet, vigésimo andar , frente para o por do sol de Belo Horizonte. Fotografia de Cleosontino Ferreira Gomes.
A trilha sonora do Edifício JK se resumia a dois hits do momento: Pet Shop Boys (Suburbia) e Swing Out Sisters, ( breakout) Sexo anônimo, drogas e solidão eram os companheiros mais presentes.
A principal inspiração da música é o filme Suburbia de Penelope Spheeris de 1983 , e sua representação da violência e miséria nos subúrbios de Los Angeles ; além disso, a tensão dos distúrbios de Brixton de 1981 e de 1985 pairando na memória recente levou Neil Tennant da dupla a pensar sobre o tédio do subúrbio e a tensão subjacente entre os jovens insatisfeitos que desencadearam os distúrbios à menor provocação.
As várias versões da música são pontuadas por sons de violência suburbana, tumultos e vidros quebrando, bem como cães rosnando na versão única regravada (ampliada ainda mais no videoclipe), que foram derivados de cenas típicas do subúrbio .
Shop
Boys (Suburbia), 1986.
Suburbia
Pet Shop Boys
Suburbia
where the suburbs met utopia
where the suburbs met utopia
Lost in the high street, where the dogs run
Roaming suburban boys
Mother's got her hair do to be done
She says they're too old for toys
Stood by the bus stop with a felt pen
In this suburban hell
And in the distance a police car
To break the suburban spell...
Swing Out Sisters, ( breakout), 1987.
Breakout
Swing Out Sister
When explanations make no sense
When every answer's wrong
You're fighting with lost confidence
All expectations come
The time has come to make or break
Move on don't hesitate
Breakout...
1988, no final do ano havia sido aprovado no mestrado em filosofia na UFMG, período que também me mudei para o Edifício JK. As minhas relações com meu orientador José Chasin andavam péssimas, ele era de uma marxista ortodoxa do filósofo hungaro Georg Luckacs eu seguia uma linha de marxismo mais libertário de Walter Benjamim, a escola de Frankfurt, os anarquistas e pensadores de maio de 68.
1989, Bandejão da Escola de Medicina e Moradia Estudantil Borges da Costa da UFMG, com colegas do mestrado em filosofia: Paulo Fleury Teixeira e outro, não me lembro o nome. Foto de Silvano Colares.
Nossa relação, por fim apodreceu. Acredito que o grupinho de alunos seguidores dele, andou falando do meu afastamento do grupo, ou o próprio orientador achou que eu não era exatamente o tipo de militante intelectual que ele queria.
José Chasin, foto, 1937- 1998
Sobre Chasin, bacharelou-se em filosofia na Universidade de São Paulo, em 1962, e, ainda na década de 60, vinculou-se ao grupo de intelectuais liderado por Caio Prado Júnior, que se articulou a partir da Revista Brasiliense. Na luta contra a política de privatização da educação nacional, assumiu a vice-presidência da Campanha pela Defesa da Escola Pública, ao lado de Florestan Fernandes, então presidente. Criou, nesta época, a Editora Senzala, em São Paulo, pela qual publicou obras de pensadores marxistas. Sua carreira acadêmica se inicia em 1972, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, por onde apresentará, em dezembro de 1977, sua tese de doutoramento O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio. No mesmo ano fundou, juntamente com intelectuais como Nelson Werneck Sodré, a Revista Temas de Ciências Humanas.
Demitido em fins de 1976 da Escola de Sociologia e Política, e encontrando fechadas as portas das universidades brasileiras, Chasin parte para Moçambique, a convite do governo daquele país, e ali, por dois anos, leciona na Universidade Eduardo Mondlane. Retornando ao Brasil em 1980, assume a editoria da Revista Nova Escrita Ensaio, instalando-se em João Pessoa como professor do departamento de filosofia da UFPB. Em 1986, se transfere para o departamento de filosofia da UFMG, onde cria, no mestrado, uma linha de pesquisa orientada aos estudos do pensamento filosófico marxiano.
Formulador da teoria da via colonial de objetivação do capital no Brasil, suas reflexões sobre a realidade brasileira estão contidas na obra O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio e A Miséria Brasileira – do golpe militar à crise social (1964-1994), e suas pesquisas sobre os lineamentos ontológicos do pensamento de Marx foram reunidas na obra A determinação ontonegativa da politicidade, publicada pela editora Ad Hominem.
Resumindo: dois projetos de vida muito importante naufragavam nessa época: O projeto familiar, as relações psicanalíticas com minha mãe, meu projeto de futuro (ser professor universitário, através do mestrado e doutorado).
Tudo parecia mergulhar numa zona sombria de extremo desconforto em minha vida. Nada do passado parecia mais fazer sentido para mim, pátria, família, religião, sociedade. Encontrava-me numa imensa encruzilhada da vida, precisando romper laços de forma definitiva.
Drogas, sexo, rebeldia, e festas alternativas animavam minha vida marginal, minha vida bandida.
1989, Edifício JK , Cleosontino Ferreira Gomes, preparando seu baseado, ou cigarro de maconha.
1989, Edifício JK , com Renatinho, meu namorado da época, fumando baseado, ou cigarro de maconha.
1989, Edifício JK , com Renatinho e Rogerinho preparando um cigarro de maconha, extra large, chamado Catitoco, por eles, geração perdida, anos 80, “lost generation”, de família de classe média
1989, Edifício JK , comemorando meus 29 anos com Dra Adelina Viera Torres, poetisa Luci Cléa Soalheiro e sua namoradaarquiteta Lúcia Serrano e o filosófo Cleosontino F. Gomes.
O HOMOSSEXUALISMO CORROMPE, PRINCIPALMENTE A JUVENTUDE: Relatório do Ministério da Justiça, SNI, Informação Confidencial, DITADURA MILITAR, 1979.
Desde a implantação da ditadura militar em 1964 até ao seu final em 1990, Estado, governos, polícias, Igrejas, a medicina, a ciência, cultura instituições, e famílias perseguiram os gays noite e dia.
Quantos gay foram mortos, quantos suicidaram, quantos tiveram suas vidas arruinadas, quantos desenvolveram depressões severas ? Quem vai pagar por este genocídio social ?
DECRETO Á FAVOR DOS “BONS COSTUMES” CONTRA O AMOR LIVRE, GAYS E SIMILARES, 1970.
Entre os anos de 1950 e de 1960, os movimentos de contestação à ordem e aos “bons costumes” ganharam força, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. No Brasil, contudo, o período ficou assinalado pelo recrudescimento da ditadura civil-militar, baseada nos “bons costumes”.
O que são Bons costumes: Pode(-se) dizer que são as regras de "conduta limpa" na sociedade em geral, condutas que estão em harmonia com o bem comum defendido pela cultura moral dominante opressora.
Então Machismo, homofobia, exploração capitalista, sociedade branca, cristianismo conservador são os bons costumes e a moral comum, para a cultura dominante opressora. Este marco regulador deve se refletir em toda a sociedade, no Estado, no mundo do trabalho, na religião, nas leis, na medicina, na cultura.
A Constituição de 1967 privilegiava temas como a segurança nacional, o aumento dos poderes da União e do Presidente da República, além de questões como a redução da autonomia individual e a suspensão dos direitos e garantias constitucionais por parte do Estado
Por parte do Estado, a exigência de adequação do conjunto da sociedade ao padrão moral ultraconservador opressor fez com que os homossexuais fossem perseguidos, conforme apontam diversas pesquisas desenvolvidas por especialistas sobre o período ditatorial, conforme acentua a organização memórias da ditadura.
DECRETO-LEI Nº 1.077, DE 26 DE JANEIRO DE 1970.
(Vide Constituição de 1967)
Dispõe sobre a execução do artigo 153, § 8º, parte final, da Constituição da República Federativa do Brasil
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, usando da atribuição que lhe confere o artigo 55, inciso I da Constituição e
CONSIDERANDO que a Constituição da República, no artigo 153, § 8º dispõe que não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos costumes;
CONSIDERANDO que essa norma visa a proteger a instituição da família, preserva-lhe os valôres éticos e assegurar a formação sadia e digna da mocidade;
CONSIDERANDO, todavia, que algumas revistas fazem publicações obscenas e canais de televisão executam programas contrários à moral e aos bons costumes;
CONSIDERANDO que se tem generalizado a divulgação de livros que ofendem frontalmente à moral comum;
CONSIDERANDO que tais publicações e exteriorizações estimulam a licença, insinuam o amor livre e ameaçam destruir os valores morais da sociedade Brasileira;
CONSIDERANDO que o emprêgo dêsses meios de comunicação obedece a um plano subversivo, que põe em risco a segurança nacional.
DECRETA:
Art. 1º Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação.
Art. 2º Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departamento de Polícia Federal verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria infringente da proibição enunciada no artigo anterior.
Parágrafo único. O Ministro da Justiça fixará, por meio de portaria, o modo e a forma da verificação prevista neste artigo.
Art. 3º Verificada a existência de matéria ofensiva à moral e aos bons costumes, o Ministro da Justiça proibirá a divulgação da publicação e determinará a busca e a apreensão de todos os seus exemplares.
Art. 4º As publicações vindas do estrangeiro e destinadas à distribuição ou venda no Brasil também ficarão sujeitas, quando de sua entrada no país, à verificação estabelecida na forma do artigo 2º dêste Decreto-lei.
Art. 5º A distribuição, venda ou exposição de livros e periódicos que não hajam sido liberados ou que tenham sido proibidos, após a verificação prevista neste Decreto-lei, sujeita os infratores, independentemente da responsabilidade criminal:
I - A multa no valor igual ao do preço de venda da publicação com o mínimo de NCr$ 10,00 (dez cruzeiros novos);
II - À perda de todos os exemplares da publicação, que serão incinerados a sua custa.
Art. 6º O disposto neste Decreto-Lei não exclui a competência dos Juízes de Direito, para adoção das medidas previstas nos artigos 61 e 62 da Lei número 5.250, de 9 de fevereiro de 1967.
Art. 7º A proibição contida no artigo 1º dêste Decreto-Lei aplica-se às diversões e espetáculos públicos, bem como à programação das emissoras de rádio e televisão.
Parágrafo único. O Conselho Superior de Censura, o Departamento de Polícia Federal e os juizados de Menores, no âmbito de suas respectivas competências, assegurarão o respeito ao disposto neste artigo.
Art. 8º Êste Decreto-Lei entrará em vigor na data de sua publicação, revogadas as disposições em contrário.
Brasília, 26 de janeiro de 1970; 149º da Independência e 82º da República.
EMÍLIO G. MÉDICI
Alfredo Buzaid
Este texto não substitui o publicado no DOU de 26.1.1970
ORDEM DADA, ORDEM CUMPRIDA - Art. 2º Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departamento de Polícia Federal verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria infringente
MATÉRIA INFRINGENTE: MOVIMENTO GAY
Fonte: http://querepublicaeessa.an.gov.br/images/surpresa/br_rjanrio_tt_0_mcp_avu_0300.pdf
Para os militares da ditadura de 1964, a consolidação da democracia passava necessariamente por eles, e o movimento Gay era visto como corrupto, corrompendo principalmente a juventude.
O crime de corrupção é uma forma de desonestidade ou crime praticado por uma pessoa ou organização a quem é confiada uma posição de autoridade, a fim de obter benefícios ilícitos ou abuso de poder para ganho pessoal. A corrupção pode envolver muitas atividades que incluem o suborno, o tráfico de influência e a apropriação indébita.
Portanto na ideologia dos militares, sistema médico e religioso, o movimento gay é um fator de corrupção social ou degradação da sociedade.
Corrupção, de acordo com o dicionário Aurélio, significa: ato ou efeito de corromper-se; decomposição; devassidão, depravação; suborno; peita. Sendo assim, podemos considerar que corrupção é o ato de se utilizar indevidamente de uma posição de influência para obter vantagens ou mesmo realizar alguma ação que é considerada ilegal de acordo com as leis vigentes.
A corrupção pode acontecer em situações do dia a dia, mas também pode estar relacionada com a política. Esse é, por sinal, o campo mais associado com o termo.
Se o movimento gay é algo que leva à decadência e morte da sociedade, então, no olhar da ideologia homofóbica, ele deve ser eliminado. Os gays devem ser presos ou mortos, pois são uma ameaça à vida.
Nos anos 80, com o fim da Guerra Fria, encerrou as disputas, politicas e ideológicas entre países capitalistas liderados pelos Estados Unidos e socialistas comandados pela extinta União Soviética (URSS). Considera-se geralmente a guerra fria como o período abrange a Doutrina Truman de 1947 até a dissolução da União Soviética em 1991.
A guerra fria estava ficando muito cara, tanto para os Estados Unidos como para a Russia. A Guerra Fria esfriou por completo com a ruína do mundo socialista, uma vez que a URSS estava destruída economicamente devido aos gastos com armamentos e com a queda do Muro de Berlim, em 1989. Mas ela termina definitivamente somente em 1991, quando a União Soviética é extinta, definitivamente
Os anos 80 são conhecidos como década perdida e se referem à estagnação econômica do Brasil e de alguns outros países da América Latina. Em outras palavras, diversos países na América Latina passaram por uma forte retração da produção industrial durante a década de 80.
A década de 80 no Brasil foi um período de significativas mudanças e de novos ordenamentos no quadro político da nossa sociedade. O início do processo de abertura política, após longo período de ditadura militar, possibilitou o surgimento de novas organizações da sociedade civil e da sociedade política.
Os gastos excessivos e a corrupção da Ditadura Militar, quebram o Brasil. Em 1980, a inflação no Brasil chegou ao patamar histórico e, até então recorde, de 100%.
A economia viveu períodos de recessão e desaceleração contínuos, o desemprego era alto, os salários se desvalorizavam rapidamente e o aperto monetário interferia em todos os aspectos do cotidiano social brasileiros.
Durante os anos 1970, a ditadura militar aproveitou os altos preços do petróleo para explorar suas "vantagens comparativas" com o objetivo de aprofundar sua industrialização e, assim, alcançar um alto crescimento econômico entre 1974 e 1980, ao custo do aumento do endividamento e da inflação.
A sociedade não suportava mais o projeto político e econômico da ditadura e pedia liberdade para conduzir a sociedade. Pobres, trabalhadores, mulheres, negros e LGBT, entre outras minorias pediam liberdade.
Os anos 80 são conhecidos também como a década da música eletrônica e da moda colorida e futurista. Nesta época, a new wave e o synth-pop se tornaram gêneros musicais mais populares, assim como toda a estrutura da dance music. Dentre os músicos de maior sucesso de toda a década de 1980, podemos destacar o Michael Jackson, o Prince, a Madonna.
As roupas anos 80 eram peças com muitas cores, brilhos, paetês, mangas bufastes, pochetes, polainas e muito estilo. Essa época é marcada por uma geração descolada e de atitude que buscava deixar sua marca, através da expressão da imagem e moda.
Já em 1978, na época que não trabalhava, uma professora do Colégio Estadual Central, cujo o marido era dono da CONFECÇÕES MANCHESTER, situada na Rua Major Delfino de Paula, no bairro São Francisco em Belo Horizonte, MG, percebeu que eu gostava de moda e me indicou a fábrica de roupas , onde eu poderia comprar roupas mais baratas.
Durante o fim dos anos 70 e boa parte dos anos 80, foram as calças, muito bem feitas e cheias de estilo anos 50 da confecção Manchester que me salvaram e vestiram.
Recessão mundial e uma nova pandemia mundial levaram ao colpaso da Era Disco dos anos 70. Em 1983, os pesquisadores Luc Montagnier e Robert Gallo identificam o vírus da AIDS, encerrando a Era Disco ou era Gay.
Em Belo Horizonte, nos trajetos gays que havia percorrido, na minha juventude estavam o Parque Municipal, com 16, 17 anos, após a Avenida Afonso Pena (a passarela de pegação das bonecas), os bares, os cinemas caretas, os de arte e os cinema pornô. Ná década de 70\80 as saunas gays começaram as ser abertas em Belo Horizonte, fruto dos avanços do movimento Gay.
Havia um intenso patrulhamento e investigação do movimento gay, pelos militares. Para a ditadura, o referido movimento era subversivo, pois “corrompe a juventude”. (Ministério da Justiça, Investigação sobre o movimento gay, 1979).
O movimento gay sempre esteve mais próximo das esquerdas, mas convém lembrar que a esquerda, durante o período da ditadura, e até mesmo nos dias de hoje, tem amplas parcelas de grupos conservadores e reacionários que condenam os LGBT+ que patrulham suas ideias e comportamentos.
Os valores dos grupos conservadores LGBT de esquerda, se ressumem a uma cega obediência às orientações esquerdistas de governos autoritários de Cuba, Rússia, China, Coreia do Norte. Também seguem uma parcela autoritária e tóxica das esquerdas, especialmente do Partido dos Trabalhadores e PC do B. A partir deste núcleo ideológico de esquerda, a esquerda tóxica, se comporta exatamente como a direita mais conservadora.
Dessa forma, observando o contexto dos anos 70\80, o movimento gay, era perseguido pela direita e pela esquerda, sendo a esquerda mais tolerante com os gay.
Me lembro bem das greves dos anos 80, quando trabalhava no INAMPS, Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social. Eu e Hélio Gomes, uma ativista dos direitos gays, fazíamos cartazes para levar nas passeatas contra o governo militar.
Aí resolvi fazer uns cartazes introduzindo a pauta gay nos protestos contra as políticas da ditadura contra os trabalhadores do serviço público. Hélio acho que era uma atitude vanguardista então fiz pelo menos, o que eu ia segurar.
Para minha surpresa, o tal cartaz virou uma vedete na passeata. Vedete de de estranhamento. O que um cartaz Gay, estava fazendo numa passeata de trabalhadores ? Muitos perguntavam.
Esse espanto social e sindical, me colocava no movimento sindical como uma figura ridícula e folclórica, porque nem a esquerda da época acreditava no movimento gay.
Carminha, Carmem Bomtempo, a presidente de nosso sindicato ficou rindo, embora fosse simpática á causa, mas de uma forma velada e dentro do armário.
Já no nascimento do Partido dos Trabalhadores, lideranças Gays do Jornal Lampião da Esquina, criticavam o PT e Lula exigindo mais espaço políticos para os\as gay, ditos Bonecas, gíria da época.
O Lampião da Esquina foi um jornal homossexual brasileiro que circulou durante os anos de 1978 e 1981.
Quanto à direita, militarizada pela ditadura, esta vigiava o movimento gay 24 horas por dia, prendendo, fichando, matando, excluindo gays de toda participação social.
Concluindo, os\as gays dos anos 70\80 não tinham paz, nem na direita, nem na esquerda. Este desconforto político do movimento LGBT, levou o mesmo a adotar uma posição pragmática na política, estando do lado que quem pudessem os apoiar, seja na esquerda ou na direita.
Graças aos deuses, essa geração de 60 , LGBT autoritária , a tal esquerda tóxica, está toda morrendo, e com certeza a juventude LGBT do século XXI. e as novinhas\os não vão ouvir ou seguir as pregações stalinistas delas.
Procurando algumas informações sobre a “Boite Brulé,” imagina aonde eu fui encontrar ? Em um relatório secreto da Ditadura Brasileira, em seu SISTEMA NACIONAL DE INFORMAÇÃO.
Cumprindo o decreto á favor dos “bons costumes” contra o amor livre, gays e similares, 1970.
Art. 1º Não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação.
Art. 2º Caberá ao Ministério da Justiça, através do Departamento de Polícia Federal verificar, quando julgar necessário, antes da divulgação de livros e periódicos, a existência de matéria infringente da proibição enunciada no artigo anterior.
ESQUADRÃO MATA BICHA - O delegado José Wilson Richetti, que assumiu a delegacia secccional do Centro e comandou a Operação Limpeza, durante ação contra travestis, prostitutas e homossexuais, 1980.
Relatório sigiloso dos locais gay de Belo Horizonte, feito pelos Militares , extraído a partir de um jornal de direitos humanos LGBT, O Círculo Corydon.
O jornal do Gay do Círculo Corydon, com edições mensais e circulava em todas as capitais brasileiras, segundo seu expediente, a publicação teria como propósito estimular o debate dos problemas gays mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo.
Círculo Corydon foi fundado em 1 de março de 1978 por um grupo de gays brasileiros e tinha como diretor Antonio Massaro Kirihara.
O Serviço Nacional de Informação da Ditadura brasileira espionava este jornal para saber a exata localização dos gays em Belo Horizonte. É claro que nós gays, sabíamos que eramos perseguidos, mas não imaginávamos que havia um processo tão sofisticado de espionagem e violência que passa pelo Estado e Governo, que eram nossos inimigos declarados.
No referido Relatório Secreto dos Militares há uma descrição de todos os locais que os gays frequentavam em Belo Horizonte, onde obviamente podiam ser caçados e mortos pela política e polícia do Estado e Governo militar.
Jornal Lampião da Esquina, junho de 1981.
“Documento produzido pelo Centro de Informações do Exército (CIE), em 6 de abril de 1978, anunciava a preocupação com o lançamento do jornal, materializada já no assunto do comunicado: “Imprensa gay – ‘Lampião’”. Endereçado a outras agências de vigilância – mais especificamente Agência Central do Serviço Nacional de Informações (AC/SNI); Centro de Informações da Aeronáutica (CISA); Centro de Informações da Marinha (CENIMAR); e Divisão de Segurança e Informações do Ministério da Justiça (DSI/MJ) – o documento apontava que as notícias do iminente lançamento do jornal “permite antever a circulação dirigida de mais uma publicação que abrangerá temas atentatórios à moral e contestatórios à ordem e ao regime” por defender “homossexuais como atividade normal” além de outros “setores marginalizados da sociedade”.
“Prosseguia o relatório destacando que “é notado um esquema de apoio à atividade dos homossexuais”, apoio esse “baseado, em sua quase totalidade, em órgãos de imprensa sabidamente controlados por esquerdistas”, podendo-se estimar o alto interesse comunista no proselitismo em favor do tema”.
“Arrematava o documento que causa estranheza por não haver restrição à circulação dessa notícia sobre o Lampião. Afinal, “quando estão em jogo preceitos morais e éticos que são o sustentáculo da família brasileira, principal célula de resistência ao avanço de ideologias espúrias”, devendo-se coibir o “uso exagerado dessa liberdade” (Brasil, 1978a).”
Fonte: Lampião da Esquina na mira da ditadura hetero-militar de 1964
Gays, lésbicas e travestis no , Serviço Nacional de Informação da Ditadura brasileira, 1979.
Locais citados no referido Relatório do Serviço Nacional de Informação, da ditadura Militar, nos quais eu circulava em 1979. Boite Chez Eux, na Rua Alagoas, na Savassi, grafada no relatório como boate SHESE. Esta boate frequentei, quando tinha 17 para 18 anos, 1977.
Me lembro bem, do estilo Lésbico da boite, no início da noite se tocava Música Popular Brasileira, tipo Maria Bethânia LP Álibi, 1978.
Álibi
Maria Bethânia, 1978.
Havia mais que um desejo
A força do beijo
Por mais que vadia
Não sacia mais
Meus olhos lacrimejam seu corpo
Exposto à mentira do calor da ira
Do afã de um desejo que não contraíra
No amor, a tortura está por um triz
Mas a gente atura e até se mostra feliz
Quando se tem o álibi
De ter nascido ávido
E convivido inválido
Mesmo sem ter havido
Essa música, em tom de ressaca emocional, diante de um fato ocorrido trágico, representava bem, a minha fase existencial, onde diante de um mundo de mentiras buscava minha verdade interior.
Sobre a boite Brulè, já comentei, sobre a mesma, seu encanto era por ser uma boite voltada quase completamente para o público gay, e seu repertório musical, era totalmente voltado para a era Disco. Das boites gay, a Brulé foi a que mais frequentei. Tocava música brasileira, más só aquelas em rítmo disco
Não existe pecado ao Sul do Equador
Ney Matogrosso, 1978.
Não existe pecado
Do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado
Rasgado, suado
A todo vapor...
Me deixa ser teu escracho
Capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho
Olha aí, sai de baixo
Eu sou professor!...
Deixa a tristeza prá lá
Vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru
Tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa
Lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar...
Deixa a tristeza prá lá
Vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru
Tucupi, tacacá
Vê se me esgota
Me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar...
Auuuuu!
Não! Não! Não!
Auuuuu! Não!
Ai! Ai!
Ah!...
Não existe pecado
Do lado de baixo do Equador
Vamos fazer um pecado
Rasgado, suado
A todo vapôr...
Vem! Vem! Vem!
Ah! Ah! Vem! Ah! Ah!
Ah!...
Sobre a boite Jambalaya, frequentei pouco, porque o público era mais heterossexual. Alías, na primeira noite que fui com minha irmã Ana, na Jambalaya, ela me disse que viu uma boite cheia de homens lindos, ai fui dar uma espiada, deixei ela dançando e fui pra boite Brulé que ficava perto. Me encontrei nesta boite . Era a identidade que estava buscando.
Jambalaya Disco Club, Fevereiro de 1978, Revista Pop.
Muitas saídas noturnas dos anos 70 fazia com minha irmã Ana, mas os locais que ela me levava eram mais heterossexuais, como a boite Blue Moon, ou nas tardes dançantes da Sociedade Mineira de Engenheiros, que ia, pela música e pela dança, mas a frequência de jovens ricos e brancos e heterossexuais era como um balde de água nos meus projetos e no meu coração.
Fui ao Clube Máscara Negra com meu irmão Alfredo, uma vez apenas, mas achei o clima tão pesado, só negros de periferia, dançando James Brown, não achei que no Máscara Negra era meu espaço.
Nos anos 70, na capital mineira, o radialista Geraldo Ferreira de Souza, também conhecido como Geraldão, colocava os lançamentos do funk estadunidense nas ondas da Cultura AM, em um programa chamado “Ritmos da Noite”, e traduzia as letras para o público. Os ouvintes começaram, então, a se interessar pelo som e a procurar Geraldo na rádio, pedindo o nome dos discos.
Isso estimulou primeiro a criação de bailinhos, nas casas das pessoas, e depois de bailes maiores, como o Máscara Negra.
Clube Máscara Negra, cena Black Power, anos 70, Belo Horizonte.
Outra boite gay muito famosa foi a La Rue, no Bairro de Barro Preto, em Belo Horizonte, mas frequentada por travestis. Já falei sobre o dia que fui à esta boite com o travesti Paulette Star, e nossa entrada foi um baseado de maconha para o porteiro, dado por Paulette Star. O quente dessa boite eram os shows de travesti, sempre no look de hollywood, muitos brilhos , plumas e paetês.
Boite
gay Plumas e Paetês, com Pauleti Big Star , em Belo Horizonte, anos 70.
LOCAIS DE RESISTÊNCIA DA DIVERSIDADE E LGBT, ANOS 70\80 – O SHOW TEM QUE CONTINUAR
O Bêbado e a Equilibrista
Elis Regina, 1979. ( O hino da Anistia)
A Lei da Anistia, no Brasil, é a denominação popular dada à lei n° 6.683, sancionada pelo presidente João Batista Figueiredo em 28 de agosto de 1979, que anistiou a esquerda e o terrorismo da direita militar, embora tenha havia terrorismo das esquerdas, na busca pela democracia. Para muitos esquerdistas o terrorismo da esquerda não era terrorismo, mas atos pela democracia.
“É concedida anistia a todos quantos, no período compreendido entre 02 de setembro de 1961 e 15 de agosto de 1979, cometeram crimes políticos ou conexo com estes.”
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Pra noite do Brasil
Meu Brasil!
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora
A nossa Pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses
No solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança
Dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha
Pode se machucar
Azar!
À esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista
Tem que continuar
Composição: Aldir Blanc / João Bosco
Vistos como doentes pela medicina e psiquiatria, consideradas corruptas pelo Estado e exército, taxadas de depravadas e desordenadas pela Igreja Católica, o gay, na década de 60, 70, 80, e até hoje, é um lugar de resistência política na sociedade. Então o corpo do gay\LGBT, já é um manifesto de resistência, sua vida, os locais que frequenta, por onde ele passa deixa sua marca de resistência.
Fonte: Serviço Nacional de Informação da Ditadura Militar de 64.
COLÉGIO ESTADUAL CENTRAL: entre os anos de 1978 à 1980, estudei no referido colégio. A ditadura militar dava seus fundamentais passos de decadência enquanto modelo social, político e econômico, iniciando nessa fase o que se conhece como abertura política.
A ditadura militar no Brasil passou por três fases diferentes ao longo de seus 21 anos de duração. A primeira foi de legalização do regime autoritário, por meio de decretos-lei e de uma nova constituição. A segunda, de recrudescimento da repressão e da violência estatal contra os opositores da ditadura. E a terceira, de reabertura política, com a Lei da Anistia e o movimento pelas eleições diretas para presidente.
Um disfarce legalista para a ditadura - de 1964 a 1968
A Constituição de 1967 sintetizava o espírito da “doutrina de segurança nacional”, transformando a supremacia do Poder Executivo sobre os outros poderes e o princípio da vigilância do Estado sobre a sociedade em preceito constitucional
Os Atos Institucionais foram leis com força constituinte, impostas pelos militares e juristas autoritários, o que significa dizer que elas valiam mais que a própria Constituição. Seu objetivo básico era reforçar o poder do Presidente da República, passando por cima das formalidades constitucionais e dos direitos individuais.
Anos de terror - de 1969 a 1978
A partir desse momento, o general-presidente podia tudo, passou a acumular poderes absolutos. E começou a fazer uso deles, caracterizando um período de arbítrio completo.
Em 1969, Costa e Silva manteve fechado o Congresso e várias assembleias legislativas, aposentou intelectuais, como Caio Prado Jr., Florestan Fernandes, Fernando Henrique Cardoso, Octavio Ianni, cinco ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), e o general Peri Bevilacqua, do Superior Tribunal Militar (STM).
Cassou os mandatos de quatro senadores e de 95 deputados federais. Prendeu Juscelino Kubistchek e Carlos Lacerda. Em onze meses, impôs doze atos institucionais, 59 atos complementares e vinte decretos-lei.
A reabertura política - de 1979 a 1985
O general Figueiredo tomou posse, anunciando o propósito de “fazer deste país uma democracia”.
A “abertura”, seu projeto de governo, significava reduzir aos poucos os aspectos mais autoritários da ditadura, institucionalizar o regime, mas sem ceder o poder à oposição, nem absorver suas propostas democratizantes.
Ele controlou a situação, aproveitando as divergências que iam surgindo dentro da oposição.
Assim mesmo a oposição cresceu, as greves operárias no ABC paulista se espalharam para outras cidades e categorias de trabalhadores, o movimento pela anistia ganhou corpo e foi às ruas. O Comitê Brasileiro pela Anistia formou núcleos em diversos estados e realizou manifestações expressivas.
Ainda que limitada, a anistia permitiu que milhares de pessoas perseguidas ou com seus direitos políticos cassados recuperassem sua cidadania. Imediatamente milhares de exilados começaram a voltar.
Dos 200 presos políticos, 19 tiveram libertação instantânea. Os outros foram sendo libertados nos meses seguintes.
A Justiça Militar elaborou uma lista oficial de 374 anistiados, entre eles o histórico líder comunista, Luís Carlos Prestes, o líder trabalhista, Leonel Brizola, e o ex-governador de Pernambuco, Miguel Arraes.
Tendo sido imposta a um Congresso mutilado e atemorizado sob o peso das leis draconianas da ditadura, decadente mas ainda presente, a anistia foi cada vez mais considerada insuficiente pela sociedade, por ser recíproca, isto é, estabelecer que também os crimes cometidos pelos agentes do Estado nas ações de repressão fossem anistiados.
O Colégio estadual Milton Campos, o estadual central, foi um dos maiores formadores de líderes estudantis mineiras que se opuseram à ditadura militar.
Foco de resistência ao regime autoritário, foi palco da estruturação do movimento estudantil secundarista de Belo Horizonte e um dos mais ativos formuladores das ações de protesto que ganharam as ruas da capital.
Várias das lideranças surgidas no agitado clima de engajamento do colégio, um conjunto projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e frequentado por jovens de classe média, tiveram papel importante em organizações clandestinas, como o Partido Comunista Brasileiro, a Polop (Política Operária) e a AP (Ação Popular), e vínculo com o movimento estudantil universitário.
Na fase aguda da guerrilha, com o acirramento da repressão após a instituição do AI-5 de 1968. várias dessas lideranças participaram de ações armadas. Presas, foram torturadas e condenadas com base na Lei de Segurança Nacional.
No colégio Estadual Central, comecei institucionalmente minha luta política, quando fui convidado Por Cibele Ribas, Mônica Salum e Emmanuel Wellerson de Faria Martins a me engajar no movimento secundarista da UMES (União Municipal do Estudantes Secundaristas).
Eu até então era um rebelde com causa: libertação pessoal, neste momento histórico era meu foco. Com minha entrada no movimento estudantil secundarista, a minha libertação pessoal se unia a libertação social e política, contra o Estado Militar opressor.
Entre os anos de 1974 à 1977, como se dava a minha ação espontânea política contra o Sistema ? Se dava de uma forma bem anárquica, fazia questão de expor a todos que era gay, às vezes, uma bicha louca mesmo, de forma a enfrentar e escandalizar a sociedade.
Com a minha entrada no movimento estudantil, minha ação política, existencial e anárquica se tornava mais institucional.
TEATRO MARÍLIA E BAR STAGE DOOR BH MG.
Ao lado de Parque Municipal, que era um ponto de pegação gay, desde os meus 16 anos, em 1976, se localizava o Teatro Marília. No teatro funcionaram também a Galeria Guignard e o bar Stage Door. Nas décadas de 1960 e 1978, apresentações do Grupo de Teatro Oficina e de autores de contestação, como Bertolt Brecht, Gianfrancesco Guarnieri, Augusto Boal e Millôr Fernandes, colocaram o Marília como referência no circuito nacional. No local, funcionaram também a Galeria Guignard e o bar Stage Door, pontos de encontro de artistas, boêmios, intelectuais e gays.
Não consigo me lembrar exatamente quando comecei a frequentar o Teatro Marília, provavelmente deve ter sido no período que estudei no Colégio Central. Só me lembro que havia por lá um espírito Gay, principalmente no bar Stage Door.
Confesso nesta época de minha vida, não tinha uma visão muito ampla de sociedade e política, e que esta visão não era marxista, a gente se agregava às pessoas, grupos e a instituições onde se podia respirar alguma liberdade.
Se a liberdade do gay, estava nos sub ambientes sociais, no escuro dos cinemas, da noite, do bares e das ruas, então era lá, no mundo alternativo e proibido, , que encontrávamos nossa liberdade.
Só quando entrei para a Universidade Federal, em sua Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, FAFICH-UFMG, que comecei a entender melhor e expandir minha visão de mundo, com leituras e conversas sobre o existencialismo, marxismo e anarquismo.
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, FAFICH-UFMG, 1983 à 1990. O curso de Filosofia ficava no último andar, ou Oitavo.
A FAFICH\UFMG, localizada no bairro Santo Antônio, onde atualmente funciona a Secretaria Municipal de Educação. O tombamento se deve à importância histórica do prédio, que foi usado durante o período da ditadura como local de resistência aos militares.
Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, FAFICH-UFMG
Ao entrar na Universidade Federal, fui parar logo no Bar da FAFICH, onde a nata da anarquia se reunia, do bar me liguei no Diretório Acadêmico do curso de Filosofia, introduzido por meu amigo de curso Cleosontino Ferreira, que posteriormente , já no mestrado em filosofia, me indicou para ser conselheiro universitário numa reunião com Hilbert David Souza Oliveira e Zé Lu (José Luiz Raton) , no prédio da União Estadual dos Estudantes (UEE), ficava na rua Guajajaras, 694,
DIRETÓRIO CENTRAL DOS ESTUDANTES O DCE/UFMG,
Diretório central dos estudantes DCE\UFMG
A União Estadual dos Estudantes (UEE), ficava na rua Guajajaras, 694, atuante e organizada, com grande liderança entre os estudantes.; A UEE, ficava na antiga sede do DCE.
União Estadual dos Estudantes (UEE)
DCE e UEE Lideraram os movimentos de resistência ao regime militar, com diversas e variadas manifestações, passeatas, paralisações e denúncias.
Atuaram em sintonia com a UNE e seus dirigentes e líderes foram os que mais sofreram com a repressão policial, com prisões, torturas, mortes, exílios e desaparecimentos, alguns até hoje não esclarecidos.
Após o Ato Institucional nº 5, de 13 de dezembro de 1968, editado pela Junta Militar que governava o país, retirando todos os direitos e garantias individuais, muitos militantes passaram à clandestinidade, integrando organizações de resistência armada ao regime militar.
O diretório central dos estudantes DCE\UFMG, só comecei a frequentar quando entrei para a Universidade Federal, em 1983. Nessa época ia mais pra beber no bar do DCE\UFMG , onde se concentrava a vanguarda jovem, alternativa, revolucionária. Ia para ver os shows de artistas malditos trazidos pela chapa A Onda de esquerda que conquistou nos anos de 1983 a 1984, com o lema “Cultura, meu Bem”, o comando do DCE e que movimentou a cena cultural e política da capital mineira.
A origem do fenômeno Onda, remete à política estudantil, sobretudo nas universidades, mas incorporando quem estava chegando do movimento secundarista e quem tinha jogado a escola para o alto.
Papel importante cumpriu a chapa Onda, surgida no Diretório Acadêmico da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (Fafich) da Universidade Federal de Minas Gerais. Mais tarde, a Onda ganharia as eleições para o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFMG, dando origem à chapa Zap Cultural.
Divergencia Socialista - Pra Que Odiar - live at DCE UFMG, 1988
Silma Bijoux O'Hara (voz), Bruno Verner (guitars, programming, keys), Marcelo dolabela (vox+ dada tapes), 1988.
Deve-se a elas a vinda a Belo Horizonte, pela primeira vez, dos destaques musicais da Lira Paulistana (Língua de Trapo, Premeditando o Breque e Itamar Assumpção) e de representantes do chamado BRock: Legião Urbana, Capital Inicial, Ira!. Além do pessoal do teatro, como o grupo Asdrúbal Trouxe o Trombone. “Pela primeira vez, pensava-se a cultura como política, mas como outra política, a da subjetividade. O que era diferente das concepções culturais que vinham dos anos 1960.
Me lembro muito das discussões secundaristas sobre a tendência política LIBELU, A Liberdade e Luta (Libelu) foi uma tendência anárquica do movimento estudantil brasileiro dos anos 1970, ligada ao trotskismo e ao jornal O Trabalho, que era editado, à época, pela Organização Socialista Internacionalista (OSI).
A Libelu ficou conhecida por ser a primeira tendência política a defender a palavra de ordem "Abaixo a Ditadura" publicamente. Ela participou ativamente da reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE), da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES) e teve muitos de seus militantes em importantes diretórios e centros acadêmicos do país.
A Libelu foi dissolvida na primeira metade da década de 1980, com a integração de alguns de seus quadros ao Partido dos Trabalhadores (PT).
MORADIA ESTUDANTIL BORGES DA COSTA, UFMG, ANOS 80.
Outro point de revolução jovem em Belo Horizonte, nos anos 80 foi a Moradia Estudantil Borges da Costa. Em 1977, estudantes invadiram e ocuparam o prédio do Hospital Borges da Costa, no campus Saúde.
Como o prédio se encontrava em condições precárias, o Conselho Universitário, em comum acordo com a representação estudantil, definiu o local como Moradia Provisória, ao lado do Hospital das Clinicas, algumas
centenas de estudantes passaram pelo Borges da Costa ao longo de 21 anos de ocupação, de 1977 a 1998.
Moradia Estudantil Borges da Costa, Histórias entre UFMG, Ditadura Militar.
Frequentei a Moradia Estudantil Borges da Costa, durante todo meu período de estudo na UFMG, que vai de 1983 a 1992. Esse período histórico para mim, foi a vivência do próprio caos, liberdade e anarquia. Tudo se resumia a resistência à ditadura, festas, drogas e sexo. Todo dia era uma passeata e uma vernissagem de artista para ir, no Palácio das Artes. Nas vernissagens, todos os loucos, alternativos, intelectuais e a burguesia pagando tudo, comidas de bebidas de graça, enfim, tudo de bom.
Moradia Estudantil Borges da Costa, UFMG. (1980- 1992). Fonte: Facebook, 2017.
Especialmente frequentei a Moradia desde 1985 até 1992.. Excepcionalmente morei na Moradia Estudantil Borges da Costa, em 1991, quando voltei da Itália, quando senti que minha mãe começava a morrer.
Saí da casa dela e me exilei no Borges da Costa, no quarto do estudante e poeta Raimundo Nonato, onde pude estar mais perto de Silvano Colares, meu colega do curso de filosofia e mergulhar nas drogas para esquecer o trauma da morte de minha mãe.
Silvano Colares, Mestrando em Filosofia, morador da Moradia Borges da Costa, UFMG, 1991.
Eu, Fotografia de Silvano Colares, Mestrando em Filosofia, morador da Moradia Borges da Costa, UFMG, 1991.
Era o tempo de poetas marginais (Marcelo Dolabela, Roberto Soares, Raimundo Nonato, meu amigo pessoal, Alice Duarte Penna, Rita Espeschit Luci Cléa Soalheiro, com a qual estudei na UFMG, em 1983 a 1985.
Para muitos desses artistas, o palco era o bar. Como o DCE da UFMG, festas dos Diretórios Acadêmicos da faculdade de direito, medicina, economia, festas do Partido dos Trabalhadores, Lulu,Bar do Bolão, no Bairro de Santa Tereza, o bar da -UFMG, uma bar dentro de uma faculdade federal, algo completamente fora da lei. A gente ia tomar uma cerveja e depois assistir às aulas de filosofia, com a cabeça bastante expandida pelo álcool.
LUCI CLÉA SOALHEIRO, Revista Literária, UFMG, 1988.
Bar do Bolão, no Bairro de Santa Tereza, anos 80.
GREVES, PARTIDO DOS TRABALHADORES E CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES.
Assim que acabei o ensino médio, no final de 1980 , pulei do movimento estudantil secundarista, para uma fase de hibernação política, que se estendeu de 1981 a agosto de 1982.
Entre 1981 à 1982, minhas atenções se voltaram para o pré vestibular, curso de inglês, discotecas e sexo, pouca droga, mais o álcool, aos finais de semana.
Pré vestibular, curso Promove, bairro Savassi, Belo Horizonte, 1981.
Em 1970, cinco jovens estudantes da PUC/MG - Luis Magno Saramago, José Alyrio Bicalho, Paulo Bastos, João Bosco Fontoura e Hélio Bazzoni - se uniram para criar um cursinho preparatório específico para a Universidade Católica. Dois anos depois, o Promove fundava seu primeiro Colégio.
Em 1982, sendo aprovado para concurso público federal para o INAMPS( Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social.), comecei a exercer o proto sindicalismo dos servidores federais da época.
Minhas primeiras aquisições materiais como trabalhador empregado, foi comprar um fogão novo para minha mãe. Um presente cretino que confudia mãe com casa e comida, enfim, era meu pensamento da época.
Também comprei meu aparelho de som, para embalar minha vida, romances, depressões e alegrias.
Aparelho 3 In1 Cce Shc-9500, 1982
GRAVADOR NATIONAL, onde eu pratica minhas lições de inglês , 1979.
O gravador que usava para estudar inglês, em 1980, ficou só mesmo para ouvir as fitas cassetes, e as as músicas que gravava do rádio.
Blade Runner é um filme de ficção científica neo-noir de 1982 dirigido por Ridley Scott e estrelado por Harrison Ford, Rutger Hauer.
O filme da época, foi o icônico Blade Runner, achei lindo, mas como não havia ainda sido introduzido na teoria marxista, vi o filme como um romance, embora seu tema principal seja a luta de classes.
Em 1982, O PT apresentou a candidatura da professora Sandra Starling da UFMG e como vice o marceneiro Milton de Freitas.
“Ajudei a fundá-lo, com muito sacrifício pessoal; tive a honra de ser a sua primeira candidata ao governo de Minas Gerais em 1982. Lá se vão vinte e oito anos! Tudo era alegria, coragem, audácia para ...” Sandra Starling.
Leia mais em: https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/petista-historica-de-minas-deixa-o-pt-chama-lula-de-caudilho-e-diz-que-ja-vai-tarde/
Outra mulher de grande importância no processo de redemocratização, foi DONA HELENA GRECO.
Dona Helena Greco, quantas passeatas, eu fiz, com ela ao lado, me lembro bem dela, e de Sandra Starling.
Helena Greco (Abaeté, 15 de junho de 1916 - Belo Horizonte, 27 de julho de 2011) foi uma ativista política brasileira.
Helena Greco foi a primeira vereadora eleita da capital mineira, nas eleições de 1982, e uma das fundadoras do Partido dos Trabalhadores na cidade.
Estou aqui bastante emocionado, em lembrar de Dona Helena Greco, não exatamente que a conhece na intimidade, mas toda passeata ela estava lá. A gente se cumprimentava rapidamente, e dava continuidade à atividade do dia. Ela era uma espécie de vovó do movimento social. Engraçado que todas as passeatas dos anos 80, eram sempre as mesmas pessoas, eramos uma verdadeira família. Quem chamava as passeatas eram os partidos de esquerda e os sindicatos, Na verdade, o grupo que organizava era bem pequeno. A gente sabe que a militância de frente são poucos. Ao iniciar as ações, movimentos e passeatas, o povão ia aderindo no caminho e no final virava uma mega manifestação. A Avenida Afonso Pena, então parava totalmente.
Em fins de 1983, foi criada uma comissão responsável pela organização do 1º Concut, que, no ano seguinte, criou a CUT/MG e as CUTs regionais no Estado. A criação da Central em Minas Gerais, em 1984.
Me lembro de uma Greve, talvez a primeira dos servidores federais, em 1984, onde em Belo Horizonte, começa a se gestar o SINDICATO DOS TRABALHADORES EM SEGURIDADE SOCIAL, SAÚDE, PREVIDÊNCIA, TRABALHO E ASSISTÊNCIA SOCIAL EM MINAS GERAIS, (Sintsprev MG).
Junto com Carmem Lúcia BOMTEMPO, uma das fundadoras da antiga ASSIMPAS, hoje SINTSPREV-MG, começamos o movimento de sindicalização dos servidores federais em Belo Horizonte, no início dos anos 80.
Trabalhava ao lado da sala de Carmem Lúcia BOMTEMPO, e foi ela que me convocou para a primeira paralização dos trabalhadores federais, contra o arrocho salaria e a ditadura.
Como participei ativamente da primeira greve de 1984, logo me engajei na construção de um sindicato clandestino para os servidores do ex INAMPS,
que se tornaria depois , legalizado o Sintsprev MG, posteriormente ligado ao Partido dos Trabalhadores, e à Central Única dos Trabalhadores, CUT.
1984 - Era proibido fazer greve. Era proibido ter sindicato, só na constituição de 1988 foi assegurado ao servidor o direito de livre associação sindical.
Nosso " teto " não passava de dois salários mínimos. A ditadura militar continuava com o presidente Figueiredo que preferia o cheiro dos cavalos ao cheiro do povo. Mas pensar e reagir sempre é permitido. E sonhar com o perfume da liberdade de expressão e organização.
No ano de 1983 marcou o inicio da organização dos servidores pelos seus direitos. Nasciam as primeiras raízes de uma greve. Neste mesmo ano foi deflagrada a primeira greve durou poucos dias.
Houve adesão dos previdenciários de poucos estados, o movimento mais forte se dava entre Rio de Janeiro e São Paulo, pois a concentração era maior de servidores do País. Saímos vitoriosos, com a redução de 40 horas para 30 horas semanais.
Greve Geral de 1983, paralisação de mais de dois milhões de trabalhadores e trabalhadoras daquele 21 de julho mostrou a forte organização intersindical e angariou ainda mais força para criação da CUT
A greve foi realizada, em plena ditadura militar, que durou de 1º de abril de 1964 até 15 de março de 1985.
'Fora Daqui o FMI' foi o grito que ecoou nas ruas daquela paralisação de 24 horas que aconteceu em diversas capitais em resposta a política econômica aplicada pela ditadura militar do governo do general João Batista Figueiredo.
A CUT tinha sido fundada em 1983, num contexto de grande efervescência política no Brasil: avanço do movimento sindical, luta por liberdade e autonomia sindical, mobilizações por " Eleições Diretas Já " .
Em 1985, no curso de filosofia da UFMG, na famosa FAFICH, conheci Eugênio Fontes, e Pedro Serpa, que me levaram à me engajar nas lutas sindicais dos Bancários. Participava de todas as atividades grevistas dos Previdenciários federais, não satisfeito, colaborava na luta dos bancários de Belo Horizonte.
A greve de 1985 dos bancários revelou novos atores dentro do Sindicato: Eugênio Fontes, Ângela Dutra Rabelo, Pedro Serpa, Denis, Geraldinho, Marcelo D’Agostini.. Criou-se uma cisão na diretoria, separando os que queriam o confronto aberto e os conservadores.
Na próxima eleição sindical, em 1987, os membros dessa nova geração montaram a chapa Oposição Bancária e foram eleitos sob o comando de Marcelo Nunes D´Agostini. Ainda em 1987, o Sindicato filia-se a CUT.
1989 - Nos dias 14 e 15 de março, nós , previdenciários, participamos da Greve Geral contra o " Plano Ladrão " do Governo Sarney
Insistiamos na luta por reajuste salarial, melhores condições de trabalho e democracia. Tanta greve e luta, acabou culminando na derrota da ditadura, no governo do general Figueiredo. Foi o 30.º Presidente do Brasil, de 1979 a 1985.
Só na constituição de 1988, construída de forma democrática nos garantiu a livre associação sindical e o direito a greve para os servidores públicos e outros trabalhadores.
O CASO DO EDIFÍCIO MALETTA, O MALETÃO: Localizado na esquina de Avenida Augusto de Lima e Rua da Bahia foi Principal local de encontro de escritores, boêmios, atores, teatrólogos, jornalistas, gays, sindicalistas e intelectuais de todos os matizes ideológicos de Belo Horizonte.
O Edifício Maletta era ponto obrigatório de debates sobre os rumos da política e da conjuntura nacional e de assimilação e crítica das novas ideias que surgiram com a explosão libertária dos movimentos culturais e políticos que marcaram a década de 1960.
Nos bares e livrarias do Maletta, a efervescência cultural do período propiciou a formação de importantes escolas mineiras de arte, literatura e teatro.
A proximidade com as redações de jornais, com a Faculdade de Direito da UFMG, na avenida Álvares Cabral, com a redação do SUPLEMENTO LITERÁRIO, onde surgiu toda uma geração de escritores, e com redutos frequentados por militantes de esquerda, como os bares do LULU e SALOON, na rua Rio de Janeiro, fez com que, nas mesas da CANTINA DO LUCAS, do LUA NOVA e do JANGADEIRO se consolidasse um importante reduto de resistência à ditadura militar.
CANTINA DO LUCAS, ANOS 80, BH.
CANTINA DO LUCAS E SEU ICÔNICO GARÇON SEU OLIMIPIO,BELO HORIZONTE, ANOS 80.
Bar do Lulu, no Bairro de Santo Antônio, perto da FAFICH-UFMG, fechado em 1999.
Eu já fazia parte da rebeldia da UFMG, fazia parte também do Sindicato dos Previdenciários Federais. Eugênio, que trabalhava no Banco do Brasil, junto com Ângela Dutra Rabelo, Pedro Serpa, me levaram também a militar e tomar o Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte para o Partido dos Trabalhadores.
Em meados de 1984. Os acordos firmados até então não foram cumpridos pelos bancos. Os bancários retomam uma luta ainda maior que culminou em uma importante greve em 1985. A paralisação começou no dia 11 de setembro com, uma grande passeata que encheu as ruas centrais da cidade. Dias depois, foi assinado um acordo aprovado em assembleia.
A greve de 1985 revelou novos atores dentro do Sindicato. Criou-se uma cisão na diretoria, separando os que queriam o confronto aberto e os conservadores.
Na próxima eleição sindical, em 1987, os membros dessa nova geração montaram a chapa Oposição Bancária e foram eleitos sob o comando de Marcelo Nunes D´Agostini. Ainda em 1987, o Sindicato filia-se a CUT.
TEMPOS DE GREVES, FESTAS E RESSACAS HOMÉRICAS.
Fora Sarney, greve geral, 1986, com colegas da Faculdade de Filosofia da UFMG, movimento estudantil e sindical. A CUT volta a lançar mão da greve geral contra pacotes econômicos do governo Sarney (1985-1990), Belo Horizonte.
Assim, em 12 de dezembro de 1986, em conjunto com a CGT (que reunia os pelegos e setores que não apoiaram a fundação da CUT, como PCB, PCdoB e MR-8), a CUT chamou à greve geral contra o Plano Cruza¬do, em defesa do salário, pelo congelamento de preços, em defesa das esta¬tais e contra o pagamento da dívida externa. 25 milhões aderiram à greve geral, no ABC paulista a paralisação foi total e manifestações ocorreram em todo o país.
Em 28 de janeiro de 1986, o presidente José Sarney anunciou em cadeia de Rádio e TV a mais radical mudança na economia que o país já tivera: o Plano Cruzado. O Plano decretou o fim da correção monetária, o congelamento de preços, salários e tarifas. O plano fracassou com a volta da inflação. Em dezembro, uma greve geral é deflagrada pelas três centrais sindicais (CUT, CGT e USI) que pedem a revogação do Cruzado 2. Na foto, Carmen Lúcia Bomtempo e eu, SINTSPREV MG . Fonte https://fenasps.org.br/2020/06/29/nota-de-falecimento-carmem-bomtempo/
Fora Sarney, greve geral, 1986, com a CUT e Sindicato dos Bancários de Belo Horizonte.
Greve com a CUT e Sindicato dos Previdenciários, SINTSPREV MG de Belo Horizonte, anos 80. Alguns militantes que me lembro desta época: Jânua Júnia Conceição Gonçalves, Juarez A. de Faria Jr ( JUAREZ ANTONIO DE FARIA JUNIOR) Wagner G. Soares ( wagão), Antônio C. Dos Santos ( toninho) de camisa preta na foto.
Antônio C. Dos Santos ( toninho)
Jânua Júnia Conceição Gonçalves, em foto do facebook de 2018.
Greve e panfletagem, com a CUT e Sindicato dos Previdenciários, SINTSPREV MG de Belo Horizonte, anos 80. Na foto Carmona, a parceira de carminha bomtempo (Carmem Lúcia Bomtempo).
“ESTA E' A GRANDE GUERREIRA CARMEM PANADES RUBIO', que durante toda sua vida dedicou - se a causas sociais . 90 anos de luta ,coerência e garra .. .Foi homenageada p pela câmara municipal de BH e cuja história da família é contada no filme ventos de Vall) Queria prestar está homenagem pública ,p que conheçam uma mulher de gde valor e que muito nos ensinou ...sendo referência na nossa luta por justiça ,democracia e mulhoria salarial dos previdenciários ...E que fundou e manteve entidades como a PROMOVENDO q fez diferença no seu bairro ,na sua região. enfim , alguém que merecia ter a biografia contada em livro” Depoimento de Rose do SINTSPREV MG.
Rose e Virgínia, militantes, do SINTSPREV MG, anos 80.
Depoimento de CARMEM PANADES RUBIO , militante do SINTSPREV – MG.
“Moro no Lindeia sim. No momento não estou participando em nemhum grupo devido à meu estado de saúde precário e em novembro completarei 90 anos.Aqui no Lindeia participei na Associação de Moradores, é na Comunidade Eclesial. Também da coordenação do PT da região do Barreiro. Através da Associação de Moradores e do orçamento participativo conseguimos várias conquistas: asfaltos, Centro de Saude no bairro Regina centro Cultural, centro esportivo, duas creches,etc. Também participei da Associação Promovendo, que organiza grupos de economia solidária e cursos de cuidadores de idosos. Estou tentando escrever um pouco da minha história. Estou me cuidando com a ideia de ter condições de retomar alguma atividade, porém não sei se a idade vai me permitir. Não sei se poderei dar alguma contribuição” Belo Horizonte, 25.05.2023.
Militantes, do SINTSPREV MG, anos 80.
Militantes, do SINTSPREV MG, no detalhe Itaíbes, anos 80.
Depois das megas manifestações grevistas, altas festas e comemorações na base sindical. Sindicato dos Previdenciários, SINTSPREV MG de Belo Horizonte, anos 80. Juarez A. de Faria Jr, na foto, lado direito sorrindo.
Juarez A. de Faria Jr
Anos 80, entre os anos de 1987 e 1988, eu, Cleosontino Ferreira Gomes, Pedro Serpa e outros fizemos um movimento de renovação do curso de filosofia da UFMG, por base em uma pesquisa de satisfação dos alunos. Na pesquisa ficou constatado que o curso era REPRODUTIVISTA, não fazendo nada mais do que reproduzir as ideias coloniais da Europa. Fizemos uma performance artística, o enterro simbólico do curso, uma festa e pedimos renovação na metodologia do ensino e prática da filosofia.
Anos 80, entre os anos de 1987 e 1988, movimento de renovação do curso de filosofia da UFMG, na foto o caixão e velas representando a morte da filosofia reprodutivista da UFMG.
Anos 80, entre os anos de 1987 e 1988, movimento de renovação do curso de filosofia da UFMG, na foto o caixão e velas representando a morte da filosofia reprodutivista da UFMG. Após o enterro, fizemos uma festa, uma verdadeira orgia comemorativa.
Igor, Dênis, e Vasti, 1987, meu aniversário de 27 anos, no Bairro California, em BH,
Eugênio Fontes, 1987, meu aniversário de 27 anos, no Bairro California, em BH,
Luís, UFMG, FAFICH, filosofia, Everardo ( Everardo Ferreira de Carvalho) e namorada Valéria. 1987, meu aniversário de 27 anos, no Bairro California, em BH,
Luci Cléa Soalheiro, poetisa, UFMG, FALE. 1987, meu aniversário de 27 anos, no Bairro California, em BH,
1988, viagem com amigos universitários e sindicalistas à cidade de Ouro Preto, MG, na foto, Evandro, Lucia Serrano, Luci Soalheiro, Vasti, Cleosontino Ferreira Gomes, Alan e Nina Soalheiro.
1989, com amigos, no carnaval, Banda Mole, Belo Horizonte, MG.
1989, com os amigos Romão Alencar e Zudemir Oliveira, no carnaval, Banda Mole, Belo Horizonte, MG.
1989, com os amigos Luís e Zudemir Oliveira, no carnaval, Banda Mole, Belo Horizonte, MG.
1989, fazendo a linha cubana, Belo Horizonte, MG.
1989, com os amigos universitários e sindicalistas, Igor, Eugênio Fontes, Geraldinho, Belo Horizonte, MG.
1989, com os amigos universitários e sindicalistas, Dênis, Eugênio Fontes, Belo Horizonte, MG.
1989, com os amigos universitários e sindicalistas, Vasti e Eugênio Fontes, Belo Horizonte, MG.
MOVIMENTO SINDICAL, ANOS 80, NOTA DE PESAR, 1984 – 2023 - CARMEM LÚCIA BOMTEMPO
“Com tristeza e pesar que comunicamos o falecimento de Carmem Lúcia BOMTEMPO, uma das fundadoras do SINTSPREV/MG, incansável lutadora em defesa da classe trabalhadora. Ex diretora da FENASPS ocupou a Secretaria Geral.
Em nota publicada em seu site, a diretoria colegiada da Fenasps informa que Carminha, como era conhecida, faleceu devido a um câncer, contra o qual lutou desde 2002. "Ela foi uma incansável lutadora em defesa da classe trabalhadora", destaca.
A FENASPS ( Federação Nacional de Sindicatos de Trabalhadores em Saúde, Trabalho, Previdência e Assistência Social ) foi criada pelo I Encontro Nacional das Associações de Servidores do SINPAS – Sistema Nacional de Previdência e Assistência Social, em Belo Horizonte – nos dias 02 e 03 de junho de 1984, com FINALIDADE precípua de defesa dos interesses dos servidores do SINPAS em todo o Brasil, e com OBJETIVOS de congregar e representar os servidores do SINPAS em todo território Nacional , através de suas entidades de classe filiadas, sua sede administrativa funcionou provisoriamente em Belo Horizonte.
Uma grande guerreira! Uma das fundadoras da antiga ASSIMPAS, hoje SINTSPREV-MG, grande instrumento de Luta da Classe trabalhadora. Contribuiu na Fundação da nossa combativa Entidade Nacional FENASPS. Exemplo de força, coragem e nunca fugiu aos desafios. CARMINHA PRESENTE
A luta de classe perdeu uma guerreira que jamais será esquecida. Sua história está inscrita nos anais da luta de classe.”
Fonte: SINTSPREV-MG
Carmem Lúcia BOMTEMPO e eu, seguramos uma faixa grevista, 1986, 12 DE DEZEMBRO – GREVE GERAL CONTRA O PLANO CRUZADO III, Belo Horizonte, MG.
A greve geral foi convocada pela CUT e CGT (Central Geral dos Trabalhadores) em defesa dos salários, pelo congelamento geral dos preços, em defesa das estatais, contra o Plano Cruzado e o pagamento da dívida externa. Contou com a adesão de 25 milhões de trabalhadores/as que realizaram manifestações por todo o País, em algumas regiões, como no ABC paulista, a paralisação foi total.
“GREVE GERAL MOSTRA FRACASSO DO PLANO
Cruzado malogra e 25 milhões de trabalhadores param em protesto
Frustrados com o fracasso do Plano Cruzado, ocultado pelo governo durante toda a campanha eleitoral, 25 milhões de trabalhadores do campo e da cidade, segundo a Central Única dos Trabalhadores (CUT), fazem a maior greve geral da história do Brasil. Em seu lançamento, o Plano Cruzado havia provocado grande euforia entre a população ao congelar preços. Esse clima de otimismo provocou uma desmobilização nos sindicatos e garantiu uma votação massiva ao PMDB nas eleições daquele ano. No entanto, apenas seis dias após as eleições, o governo anunciou ajustes impopulares. A sociedade revoltou-se ao se dar conta de que o governo protelara o anúncio das medidas para proteger o PMDB nas urnas.
Confiantes no Cruzado, apesar dos salários congelados, trabalhadores haviam deixado de se interessar pelos sindicatos, que assim perderam força e representatividade nas negociações com os patrões. Os consumidores, que se transformaram em “fiscais do Sarney”, chegaram a fechar supermercados e lojas que remarcavam preços ilegalmente durante o Plano Cruzado. Nas eleições de novembro, esse clima de empolgação nacional ajudou o PMDB a eleger 22 governadores nos 23 Estados e quase dois terços da Câmara dos deputados e do Senado. No entanto, os ajustes feitos no Cruzado 2 logo após a eleição permitiram o aumento dos preços e a volta da hiperinflação, que corroeu ainda mais os salários já arrochados durante o plano.
O objetivo era tentar acabar com o desabastecimento de produtos provocado por boicote de empresários insatisfeitos com o congelamento de preços, cortar gastos públicos e aumentar a arrecadação de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI). O pacote foi logo batizado de Plano Cruzado 2. Preços de combustíveis, automóveis, bebidas e açúcar e tarifas foram reajustados e descongelados. As correções salariais seguiam vinculadas a um gatilho disparado quando a inflação atingisse 20%, mas mudanças na metodologia de cálculo da taxa iriam dificultariam ainda mais o seu disparo. Acabava o sonho do Plano Cruzado e do congelamento de preços. A sociedade, que votou em peso no PMDB nas eleições, reagiu frustrada.
A greve geral de 12 de dezembro deu vazão à insatisfação e ao fim da ilusão do Plano Cruzado. Descontentes, os trabalhadores cruzaram os braços em quase todos os Estados do país. No ABC, a paralisação teve a adesão de 100% dos operários. Em Volta Redonda (RJ), os operários da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) ocuparam a usina, que foi invadida a seguir por tropas do Exército apoiadas por tanques.”
Fonte: Memorial da Democracia
Tropas do Comando Militar do Leste deslocam-se na avenida Brasil rumo à Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), em Volta Redonda (RJ)
Fonte: Memorial da Democracia
CONSIDERAÇÕES DE UMA MILITANTE:
Janua Junia da Conceicao Goncalves
Junia : fiquei pensando em sua mensagem , pois ela fala da nossa história e faz uma pergunta tão central : Qual o legado que deixamos para as novas gerações ? Eu vejo que se não tivéssemos lutado a Previdência simplesmente não existiria mais, já teria sido privatizada , já teria sido transformada em previdência de capitalização como foi no Chile , e nossa categoria já não existiria mais . Sei que hoje a Previdencia está caótica e nossa categoria e nossa organização sindical esta fragmentada e com um enorme retrocesso de consciencia, mas ela existe , e poderá ser reorganizada , reestruturada e essa categoria poderá refazer a experiencia de se reorganizar , não será um processo rápido , mas é um caminho possível . Nada disso estaria em discussão se não tivéssemos lutado e conseguido preservar a existência de uma previdência publica e de regime de repartição. Não lutamos sozinhos , ao nosso lado caminhou as lutas sociais da classe trabalhadora , das mulheres , da juventude , dos negros , dos sem terra , sem teto , e tantos outros , nesse caminho fundamos partidos , e uma nova geração de parlamentares , dirigentes de lutas sociais despontaram. Vejo que estamos em um momento de reconstrução , onde ainda não vencemos totalmente , o fascismo ronda forte , esperando uma brecha para contra atacar . Mas é um novo momento e ele só foi possível pela resistência , resiliência de tantos de nós . Nesse sentido tenho muito orgulho de nossa geração , de nossa história . Não chegamos inteiros , a previdência , nossa organização sindical e a nossa categoria está fragmentada , machucada , dividida , ma é assim quando um exercito enfrentou grandes batalhas , esta situação é fruto desse embate com um inimigo muito forte , mas olhando o balanço geral , conseguimos impedir o avanço do inimigo no forte principal , defendemos a ultima linha da defesa e agora estamos empurrando o inimigo , fazendo ele recuar , passo a passo .
E é neste
contexto que estamos cedendo lugar a uma nova geração , e não é
fácil , pois eles não são como nós , não pensam como nós , não
compreendem a história como nós , e terão que trilhar um enorme
caminho para conquistarem consciência de classe ... mas não podemos
substituir essa experiência que eles terão que viver .
E , em
minha opinião , dependerá mais da evolução politica geral dos
movimentos sociais e da relação de forças na sociedade em seu
conjunto que incidirá na recomposição da categoria e da
previdência social .
Nem todas as categorias foram atacadas
com a mesma intensidade , a educação cresceu e teve investimento
nos anos do governo Lula , a saúde se fortaleceu com a vitória da
fundação do SUS na constituição de 88 e também se fortaleceu na
atuação durante a pandemia ... existiram outras que deixaram de
existir , como foi a Fittel , era a federação dos trabalhadores em
telefonia , uma federação fortíssima na década de 80 e que
simplesmente desapareceu com a privatização das telecomunicações
, nós conseguimos impedir a privatização da previdência , mas com
muitos "feridos " do campo de batalha. Não é pouco ter
conseguido impedir que a previdência não fosse destruída , não é
pouco termos fundado partidos de esquerda que hoje cumprem um enorme
papel , não é pouco termos barrado o fascismo nas ultimas eleições
, e nesse sentido não é pouco o que entregamos às novas gerações
, ainda que eles não reconheçam o que fizemos.
E creio que ao
abrir espaço para novas gerações , que considero correto e
necessário , abre um debate entre nós de qual o papel podemos ter
nas lutas sociais ? Eu não tenho resposta para essa questão , o
etarismo é muito presente na esquerda , e buscamos um espaço onde
possamos contribuir pois militantes fomos uma vida inteira e
seguiremos sendo , pois a nossa militância foi uma escolha de vida ,
uma concepção de mundo , e não vamos e não queremos deixar de ser
assim , mas o ritmo , o acumulo de experiencia que temos , e o
afastamento do ambiente de trabalho cria uma localização social
nossa diferente .
Então talvez possamos dialogar mais aqui
sobre perspectivas , como restabelecer um pacto entre as gerações
que respeite as diferenças , ritmos , mas que permita caminhar junto
...
[14/7 16:40] Silvinha SP: Vc disse tudo Junia! Externou
muito bem nossa história nas lutas e os rumos dos movimentos pra
enfrentar os constantes desafios. Com quem poderemos conta daqui pra
frente essa
[08:54, 15/07/2023] Rose SINTSPREV MG: Belo texto de
junia.
SERGINHO SINTSPREV MG
👆🏻👆🏻👆🏻Nós não fizemos a Revolução, mas fomos revolucionários. Fundamos Sindicatos, fundamos a Fenasps, fundamos a CUT, fundamos o PT....Fomos uma parcelas da Juventude que ainda dentro da ditadura e após o término dela, com apoio de ex militantes que retornaram do exílio, reconstruimos o NOVO SINDICALISMO...e demos o melhor de nós para que isto se tornasse realidade. Fizemos além do que pensávamos fazer, porque Ousamos Lutar...Ousamos Vencer. Somos parte da história do Brasil pós ditadura e estamos ainda atentos e atuantes, uns menos, outros mais, mas o que plantamos brotou e deu frutos...Sonhos reais e sonhos nunca morrem, se metamorfoseam para que novos sonhos reais possam acontecer.
NÚCLEO GAY DO PT.
Apesar de ser petista raiz, tendo assinado minha ficha no Curso de Inglês Universitas, em 1879\80, nunca me envolvi diretamente com o núcleo gay do PT. Frequentava muito as festas do Partido dos Trabalhadores, onde se buscava arrecadar dinheiro para as campanhas eleitorais.
Tinha apenas notícias e conhecia de vista Edson Nunes, candidato gay do PT, que chegou a se candidatar mais 2 vezes, no entanto agora, com menos esperanças de vencer, mas sempre tendo como objetivo de, através de sua candidatura, conquistar espaços de visibilidade e debates públicos sobre a homossexualidade.
Tanto o Núcleo Gay do PT, quando o Movimento Mineiro de Defesa dos Direitos Homossexuais, se desmobilizaram drasticamente após a derrota na candidatura de Edson em 82.
Após a candidatura em 82, hoje uma... na campanha ele sofreu diversas ameaças de atentado, de bomba, de uma série de coisas, então aquilo afastou um pouco a militância que girava em torno.
O Movimento Mineiro de Defesa dos Direitos Homossexuais era Edson Nunes.
“Houve uma desilusão muito grande com a minha derrota – das pessoas – porque todo mundo acreditava, todo mundo do Núcleo acreditava que eu seria eleito, né? Então com a minha não eleição houve um desestímulo (Edson Nunes, 2004)”.
DECADÊNCIA FINAL DA DITADURA (1985 - 1990)
No fim do governo ditatorial de Figueiredo, iniciou-se a transição para o fim da ditadura com eleição indireta em 1985, um pacto bem-sucedido, resultando na eleição indireta da chapa Tancredo–Sarney para presidente e vice-presidente da República, respectivamente.
Eleições diretas só tivemos em 1990, com a vitória do Neo liberal Fernando Collor.
NAMORO SÉRIO, PARA CASAR.
Além de minhas transas sexuais anônimas, sempre tive aquele ideal pequeno burguês cristão de me casar. Casamento monogâmico com o grande amor de minha vida (visão romântica do cinema e das novelas) era meu projeto de bom mocismo dos anos 70 e 80.
A destruição existencial, afetiva e global da vida do gay, operada pela sociedade e o sistema cultural da época, fazia com que nós , gays, não tivéssemos, estrutura afetiva sólida.
Eramos proibidos de existir, nossa existência não era fator de consolidação da máquina produtiva capitalista, não reproduzíamos mão de obra, para a produção e consumo.
Enfim, na lógica judaíco-cristã-capitalista, a mão de obra gay, era uma anti mão de obra. Esta anti mão de obra mais dava despesas que lucros, portanto, devia ser descartada.
A BÍBLIA, HOMOFOBIA E CAPITALISMO PRIMITIVO - DISCURSOS DE ÓDIO E MORTE CONTRA LGBT
A BÍBLIA MANDA EXPLICITAMENTE MATAR OS GAYS.
Mateus 3:10
O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore, pois, que não produz bom fruto é cortada e lançada no fogo.
Para a Bíblia e seus seguidores os LGBT devem ser literalmente executados e mortos, as mulheres devem ser submissas aos machos e os negros são considerados raça amaldiçoada.
"Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte. Levítico 20:13
Por séculos, o fundamentalismo judaico cristão, personificado nas suas várias denominações religiosas, institucionais e culturais, promovem um verdadeiro massacre e extermínio humano contra a diversidade, ao grupo social de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, transexuais, e transgêneros (LGBT) e minorias em geral.
Enquanto as formações culturais africanas, egípcias, greco-romanas, indígenas e asiáticas são extremamente favoráveis ao amor universal, a cultura judaico cristã , baseada na Bíblia, prega discursos de ódio, guera, e morte aos LGBT, perpetrando uma contínua, e brutal perseguição contra este grupo humano.
As citações bíblicas e evangélicas contra os homoafetivos são muitas, e tem um único objetivo: a morte dos LGBT.
Vejamos algumas partes deste apostolado do ódio homofóbico:
1 - "Se um homem se deitar com outro homem como quem se deita com uma mulher, ambos praticaram um ato repugnante. Terão que ser executados, pois merecem a morte. Levítico 20:13
2 - "Não se deite com um homem como quem se deita com uma mulher; é repugnante. Levítico 18:22
3 - porque, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos tornaram-se fúteis e o coração insensato deles obscureceu-se. Dizendo-se sábios, tornaram-se loucos e trocaram a glória do Deus imortal por imagens feitas segundo a semelhança do homem mortal, bem como de pássaros, quadrúpedes e répteis. Por isso Deus os entregou à impureza sexual, segundo os desejos pecaminosos do seu coração, para a degradação do seu corpo entre si. Trocaram a verdade de Deus pela mentira, e adoraram e serviram a coisas e seres criados, em lugar do Criador, que é bendito para sempre. Amém. Por causa disso Deus os entregou a paixões vergonhosas. Até suas mulheres trocaram suas relações sexuais naturais por outras, contrárias à natureza. Da mesma forma, os homens também abandonaram as relações naturais com as mulheres e se inflamaram de paixão uns pelos outros. Começaram a cometer atos indecentes, homens com homens, e receberam em si mesmos o castigo merecido pela sua perversão. Além do mais, visto que desprezaram o conhecimento de Deus, ele os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem o que não deviam. Tornaram-se cheios de toda sorte de injustiça, maldade, ganância e depravação. Estão cheios de inveja, homicídio, rivalidades, engano e malícia. São bisbilhoteiros, caluniadores, inimigos de Deus, insolentes, arrogantes e presunçosos; inventam maneiras de praticar o mal; desobedecem a seus pais; são insensatos, desleais, sem amor pela família, implacáveis. Romanos 1:21-31
4 - Vocês não sabem que os perversos não herdarão o Reino de Deus? Não se deixem enganar: nem imorais, nem idólatras, nem adúlteros, nem homossexuais passivos ou ativos e, nem ladrões, nem avarentos, nem alcoólatras, nem caluniadores, nem trapaceiros herdarão o Reino de Deus. 1 Coríntios 6:9-10
A grande interdição aos LGBT, vem dos principios fundamentalista judaíco-cristão, presentes na bíblia, e difundidos em todo o ocidente antigo e moderno e contemporâneo.
São princípios naturalistas-econômicos-culturais e religiosos, de que a sociedade deve reproduzir-se, enquanto processo de perpetuação da espécie, ou instinto de sobrevivência, marcado pelo binômio simplista- HOMEM E MULHER. Deus criou o homem e a mulher o resto é criação do demônio.
Estas correntes culturais de fundo religioso, remanescentes dos períodos mágicos e míticos da história humana, entendem que os LGBT, são seres demoníacos e estéreis, ou seja, seres que não reproduzem, e não participam do processo econômico de produção social.
Pelo simples fato que alguns LGBT optam por não terem filhos, são descartados pelo sistema econômico da reprodução capitalista.
Tal opção não invalida que os LGBT sejam seres produtivos, e façam parte da cadeia produtiva, produzindo e reproduzindo a força de trabalho, e consumo por outras vias.
O capitalismo avançado ja percebeu a fragilidade de tais argumentos religiosos conservadores, e muitas formas do socialismo também, daí que certas sociedades mais avançadas, digamos assim, já incorporaram os LGBT, como força produtiva e muito atuante dentro do sistema de organização social.
É impressionante como o discurso totalitário da bíblia, marcado por uma lei econômica utilitarista da reprodução da mão-de-obra, calcado no binômio homem-mulher, teve imediata adesão do capitalismo, do fascismo e do socialismo conservadores.
Sociedades tradicionais, como a brasilieira, com todo seu fundamentalismo econômico-cultural baseado, na ética judaíco-cristã, de 2000 anos atrás, perpetuam velhas ideias, que ao invés de incorporarem os novos modo de produção social, nos quais os LGBT são plenamente incluídos, preferem descartá-lo como marginais e minorias, ou explicitamente persegui-los como demônios e pregar seu extermínio.
Estas doutrinas judaíco-cristãs fundamentalistas encontram grande apoio na sociedade e cultura brasileira, isso se deve em parte por tres motivos: pelo primitivismo de nossa formação social, pelo caráter incipiente de nossa ecomonia arcaíca, e pela incapacidade de se instaurar um Estado de direito laico, onde todos seriam iguais, se houvesse justiça.
A continuar esta lógica perversa e fundamentalistas os LGBT continuaram a ser assassinados impunemente, sobre as ordens explicitas da bíblia.
Como a comunidade gay, pode construir uma afetividade e existência saudável diante, de um Estado, economia, sociedade e religião tão adversa à ela ? Quase impossível.
Alexandre, namorado de 1983, Belo Horizonte.
Conheci Alexandre, nem sei como. Só sei que ele entrou em minha vida. Ele era bonito e inteligente, na relação sexual nunca nos demos muito bem, porque ele era um tipo dominador, e gostava de ficar no sexo sempre na posição ativa e eu devia ficar na passiva. Era muito desentendimento nessa área.
Para enfrentrar minha família e sociedade levei o novo namorado para a minha família conhecer. Levei o novo namorado para minha mãe conhecer e dar o aceite, se não desse , nada ir mudar. Estava numa fase revolucionária, tinha entrado para o curso superior na UFMG, já trabalhava. Enfim era um gay livre para ser o que bem entendesse.
Me lembro bem, da festinha com a poetisa Lucí Cléa Soalheiro, e sua namorada assistente social. A gente se encontrava a noite, comprava bebidas e comidas e passávamos a noite conversando, ouvindo músicas e namorando com nossos amados.
Minha família ficou chocada, com a apresentação, no lar, de um romance gay. Enfim, acabaram suportando e tolerando mais uma excentricidade minha.
Passado algum tempo me cansei de Alexandre, o dominador, e abandonei esse romance. Ainda gosto dele, e ele me traz boas lembranças, se não , não teria conservado sua foto por tantos anos.
Este namorado, nem lembro o nome, mas foi uma paixão vulcânica de 1986, Belo Horizonte.
Namorado carioca, paixão vulcânica de 1986. Aquela fotinha do passado , que os amantes trocavam ,como prova de amor eterno, Belo Horizonte.
Esse rapaz carioca, conheci no escuro do Cine Candelária, foi uma paixão, daquelas que a gente abandona a família e vai atrás da loucura.
Toninho, paixão de 1987 à 1995, conheci no Bairro California, em BH, Veio me visitar em 1995 no Recife, onde nosso amor entrou em crise.
Todas as minhas aventuras e desventuras no amor, muito influenciadas pelo contexto tóxico que vivia, me deixaram o amor com um gosto de coisa desejada, proibida e destinada ao fracasso.
Cada Um, Cada Um (a Namoradeira)
Claudio Zoli, 1986.
Foi bom te ver
Saber que você, é
É feliz
Impossível te esquecer
Lembrar você
Parece um dom
Foi um lindo amor
Pena não sobreviver
Quando a vida
Me iluminou
A minha luz
Era você
A namoradeira
No escuro da sala
Sonhando e beijando
De segunda a sexta
No fim de semana
De noite na Barra
Procurando vaga
De noite na Barra
Agora é cada um
Cada um
Agora é cada um, cada um... pro seu lado…..
Casamento entre pessoas do mesmo sexo, também conhecido como casamento homoafetivo ou igualitário, é um tema novo no direito e sociedade brasileira. Nas décadas de 60 ,70, a 2010 o casamento gay, era tabu social e cultural.
O que posso dizer da homofobia, é que ela causou traumas e prejuízos irreversíveis em minha vida, e na geração de várias pessoas nascidas nas décadas de 60 à 2010.
Em princípio quero dizer que homofobia mata, mas mata mesmo. É como uma lei de deus, religiosa que condenada as pessoas à morte. E a sociedade guiada por este fundamentalismo tem a ânsia de matar os afastados de Deus.
Em 2023, o Papa Francisco chama homossexualidade de 'pecado', esta declaração infeliz, será seguida pela maior religião do planeta, levando mais uma vez a comunidade LGBT e da diversidade a sofrer todo tipo de preconceito e prejuízos.
CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA. CASTIDADE E
HOMOSSEXUALIDADE
2357 A
homossexualidade designa as relações entre homens ou mulheres, que
experimentam uma atracção sexual exclusiva ou predominante para
pessoas do mesmo sexo. Tem-se revestido de formas muito variadas,
através dos séculos e das culturas. A sua génese psíquica
continua em grande parte por explicar. Apoiando-se na Sagrada
Escritura, que os apresenta como depravações graves (103) a
Tradição sempre declarou que «os actos de homossexualidade são
intrinsecamente desordenados» (104). São contrários à lei
natural, fecham o acto sexual ao dom da vida, não procedem duma
verdadeira complementaridade afectiva sexual, não podem, em caso
algum, ser aprovados.
2358. Um número considerável de
homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais profundamente
radicadas. Esta propensão, objectivamente desordenada, constitui,
para a maior parte deles, uma provação. Devem ser acolhidos com
respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles,
qualquer sinal de discriminação injusta. Estas pessoas são
chamadas a realizar na sua vida a vontade de Deus e, se forem
cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que
podem encontrar devido à sua condição.
2359. As pessoas
homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do
autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo
apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça
sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da
perfeição cristã.”
Em suma para os fundamentalistas cristãos de 1960 a 2023, nada mudou, continuam eles que o dever moral de matar gays e diversidades.
Ideologia
é o terceiro álbum solo do cantor e compositor brasileiro Cazuza,
lançado em 1988.
A música “O tempo não para”, penso que é uma boa resposta ao fundamentalismo da sociedade e da igreja católica.
O Tempo Não Para
Cazuza, 1988.
Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não para
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
O tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não para
Não para, não para
Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes, os meus dias são de par em par
Procurando agulha num palheiro
Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro
A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos fatos
É, o tempo não para
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
Mas o tempo não para
Não para, não para
Estudos revelam que membros da comunidade LGBT são mais propensos a experimentar uma série de problemas sociais, de toda ordem, em todos os campos da sociedade.
Além de serem caçados e mortos dia e noite, os LGBT tem sua saúde física e mental destruídas , incluindo-se ai, depressão, ansiedade, pensamentos suicidas, automutilação e abuso de álcool e substâncias. Essa prevalência pode ser atribuída à homofobia, discriminação e isolamento.
Somente em 5 de maio de 2011, o Brasil passou a reconhecer a união estável entre pessoas do mesmo sexo, depois de muita luta dentro dos tribunais, porque dentro do congresso a pauta não avança, por ser considerada contra os bons costumes, religião e natureza.
A igualdade no casamento tem variado de acordo com a jurisdição e surgiu por meio de mudanças legislativas, decisões judiciais e pelo voto popular direto (via referendos). O reconhecimento do casamento igualitário é considerado um direito humano e civil, bem como uma questão política, social e religiosa.
Os defensores mais proeminentes do casamento homoafetivo são organizações de direitos humanos e as comunidades médica e científica, enquanto os oponentes mais proeminentes são grupos religiosos fundamentalistas.
As pesquisas mostram um apoio continuamente crescente ao reconhecimento do casamento igualitário em todas as democracias desenvolvidas e em algumas democracias em desenvolvimento.
A oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo é baseada em alegações como a de que a homossexualidade é antinatural e anormal, que o reconhecimento de uniões do mesmo sexo promoverá a homossexualidade na sociedade e que as crianças ficam melhor quando criadas por casais heterossexuais.
Essas afirmações são refutadas por estudos científicos, que mostram que a homossexualidade é uma variação natural e normal da sexualidade humana e que a orientação sexual não é uma escolha.
Quantas vezes não tentaram me matar ? Já perdi as contas. Além de serem caçados e mortos dia e noite, os LGBT tem sua saúde física e mental destruídas , incluindo-se ai, depressão, ansiedade, pensamentos suicidas, automutilação e abuso de álcool e substâncias. Essa prevalência pode ser atribuída à homofobia, discriminação e isolamento.
Eu me pergunto, como um ser humano sofrendo todo tipo de violência homofóbica, pode ser saudável mentalmente ? O xingamento “Bicha Louca” é o retrato que a sociedade pinta dos LGBT, depois de nos enlouquecer, aí a sociedade nos dá o atestado de loucas.
Então a afetividade de um gay é sempre algo frágil e instável. Assim serão suas relações afetivas, precárias e proibidas. Nada dá certo, quando o assunto é afeto e sexualidade LGBT. Assim foram meus namoros com Fernando em 1982, Alexandre em 1983, Toninho em1998, Franz Hermann em 1991, Michael Lorsbach em 1996. e Francis em 1997. Não tenho a conta de quantos amantes de aluguel (garotos de programa) tive Quando o assinto é afetividade, namoro ou casamento gay nada deu certo pra mim.
A teoria Freudiana, diz que o inconsciente está sempre voltando, quando ele volta traz os desejos reprimidos e muitas vezes, devido à uma situação de neurose a pessoa acaba repetindo situações do passado.
Nunca fui feliz em minha afetividade familiar, na verdade foram momentos muito desagradáveis e de intensa frustração amorosa. Pelas vias trágicas da neurose o amor, o desejar se tornou para mim uma situação sempre desconfortável.
O gay, o LGBT, tem sua afetividade, sua amorosidade, sua existência sempre negada, dessa forma eu desenvolvi ou introjetei um modelo fracassado de relação amorosa. Dessa forma, 90% por centro de minhas relações afetivas, amorosas e mesmo sexuais, foram um verdadeiro fracasso.
Infelizmente, nasci sob o signo de escorpião, um signo de intensidade e de decisões radicais. É tudo ou nada. Essa minha condição de ir sempre na raiz de tudo com extrema intensidade, tendo sempre a paixão e a emoção pesando mais que a razão.
Em 1982, conheci um rapaz de nome Fernando, estudante de Engenharia da UFMG. Fernando era um ideal de ego para mim, a personificação da beleza e da graça.
Como tinha um lado libertário e de enfrentamento, levei-o para minha família conhecer meu namorado. Muitas vezes fizemos amor, no quarto da empregada que era vazio, enquanto a família dormia.
Resumindo Fernando foi uma das relações mais neuróticas que tive. Me jogue totalmente naquela relação, e o rapaz, no final me negou totalmente.
Quando mais ele me negava, mais eu o queria. Essa foi uma das piores relações amorosas que tive, talvez a pior mesmo. Essa relação amorosa com Fernando daria um livro, mas sinceramente, hoje, olhando para trás, prefiro dizer que, resumidamente, foi uma relação neurótica, freudiana, um verdadeiro desastre, um processo de transferência do meu inconsciente, que me remetia a outros desastres afetivos e emocionais com minha mãe, família e sociedade.
Uma vez na Boate Le Club, em Belo Horizonte, em 1984, encontrei Fernando, meu caso com ele já havia acabado. A música que tocava no momento, por ironia do destino era Let’s stay together, com Tina Turner.
Ver , ou rever Fernando ouvindo essa música foi uma verdadeira tortura.
Let's Stay Together
Tina Turner, 1984
Produced by
Al Green/ Al Jackson, Jr. / Willie Mitchell.
Let's Stay Together
Let me say that since
Since we've been together
Loving you forever
Is all I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue
Let's, let's stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
I'm so in love with you
Whatever you want to do
Is alright with me
You make me feel so brand new
I want to spend my whole life with you
Let me say that since
Since we've been together
Loving you forever
Is all I need
Let me be the one you come running to
I'll never be untrue
Let's, let's stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
Why, oh tell me, why do people break up
Turn around and make up
I just came to see
You'd never do that to me, would you baby?
Cause being around you is all I see
So baby let's we all stay together
Loving you whether, whether
Times are good or bad, happy or sad
Minha condição existencial, diante dos desafios afetivos do amor, foram sempre marcados pela intensidade e explosão.
Procura pessoas que me negassem o amor, ou eu mesmo me negava o amor. Eu estava estava projetado pra ser infeliz, mas não ser simplesmente infeliz, ser totalmente infeliz.
Em 1993, já na Universidade Federal de Minas Gerais, conheci Alexandre, um seminarista ou padre católico gay. O caso com Alexandre, já foi a inversão do caso com Fernando.
Ele gostava muito de mim, e eu não o levava à serio. Também levei Fernando para conhecer minha família. No caso com ele, eu o fiz sofrer, porque deixei ele gostar de mim, mas eu não gostava dele.
Também essa foi uma relação afetiva e sexual neurótica, onde elementos do meu inconsciente voltavam à cena atual para desempenhar um velho papel.
Os anos 80, se começaram de uma forma mais leve, com o fim ensino médio, no final de 1980 , e a vitória de conseguir meu primeiro trabalho estável, com carteira assinada em 1982.
O final da década de 80 acabou de uma forma vulcânica, com a morte simbólica e material de minha mãe, e com a morte de um certo Manuel Romário, que havia sido construído às cegas pela história.
Heróis da Resistência - Dublê de Corpo - 1986
Eu não reconheço mais, olhando as fotos do passado
O habitante do meu corpo, deste estranho dublê de retratos
Talvez até eu já vivesse em algum corpo emprestado, 1986.
Nos anos 90 um Manuel havia morrido, após uma longa guerra envolvendo Estado, religião, família, e sociedade. Um novo Manuel nascia, mas nascia entre escombros, destruição e morte.
Nothing Compares 2 U
Sinead O'Connor, 1990.
It's been seven hours and fifteen days
Since you took your love away
I go out every night and sleep all day
Since you took your love away
Since you've been gone I can do whatever I want
I can see whomever I choose
I can eat my dinner in a fancy restaurant
But nothing, I said nothing can take away these blues
'Cause nothing compares
Nothing compares to you
It's been so lonely without you here
Like a bird without a song
Nothing can stop these lonely tears from falling
Tell me, baby, where did I go wrong?
I could put my arms around every boy I see
But they'd only remind me of you
I went to the doctor and guess what he told me?
Guess what he told me?
He said: Girl, you better try to have fun
No matter what you do
But he's a fool
'Cause nothing compares
Nothing compares to you
All the flowers that you planted, mama, in the backyard
All died when you went away
I know that living with you, baby, was sometimes hard
But I'm willing to give it another try
Nothing compares
Nothing compares to you
Pet Shop Boys – Behaviour (1990, Vinyl)
My October Symphony
Pet Shop Boys
Behavior
So much confusion
When autumn comes around
What to do about October
How to smile behind a frown?
It's hard to settle down
It's so bemusing
Will they cancel the parade?
We marched each October
Now they say we were never even saved
We must be very brave
Shall I rewrite or revise
My October symphony?
Or as an indication
Change the dedication
From revolution to revelation?
So we're all drinking
As leaves fall to the ground
Because we've been thinking
How October's let us down
Then and now
Shall we remember
December instead?
Or worry about February?
Mourn our war-torn dead
Never seeing red?
Shall I rewrite or revise
My October symphony?
Or as an indication
Change the dedication
From revolution to revelation?
TRADUÇÃO: MINHA SINFONIA DE OUTUBRO
Tanta confusão
Quando o outono chega
o que fazer a respeito do outubro?
Como sorrir por trás de um sorriso franzido?
É dificil se acalmar
É tão confuso
Eles cancelarão o desfile?
Nós marchamos cada outubro
Agora eles dizem que nunca fomos sequer salvos
Nós devemos ser bastante corajosos
Será que devo reescrever ou revisar
minha sinfonia de outubro?
Ou, como indicação
Mudar a dedicatória
De revolução para revelação?
Estamos todos bebendo
Enquanto folhas caem no chão
Porque temos pensado
Em como o outubro nos decepcionou
Agora e outrora
Será que devemos nos lembrar
de dezembro em vez disso?
Ou nos preocuparmos com fevereiro?
Ficar de luto por nossos mortos dilacerados pela guerra?
Nunca nos enfurecendo?
Será que devo reescrever ou revisar
minha sinfonia de outubro?
Ou, como indicação
Mudar a dedicatória
De revolução para revelação?
FINAL DOS ANOS OITENTA, INÍCIO DOS ANOS 90
Em, 1989, virando para o ano 1990, estava concluindo meus créditos no Mestrado, em filosofia, na UFMG. Talvez esta fase de minha vida tenha sido uma das mais vulcânicas. Embora a explosão final, viesse em 1991 com a morte de minha mãe, que me desestruturou totalmente.
Meu histórico escolar no mestrado em filosofia\UFMG, abandonado em 1991.
Em 1991, vendi tudo que tinha e resolvi me mudar para a Itália.
EM QUEM CRAVO MEUS DENTES = ANTI TESE DE MESTRADO, FILOSOFIA, UFMG, 1990.
Depois de ter enterrado o Departamento de Filosofia da UFMG, numa crítica e festa dionisíaca na graduação, com caixão e velas representando a morte da filosofia reprodutivista, ao fim da graduação fui aprovado no Mestrado.
Minha vida estava um verdadeiro caos. Um vulcão prestes a explodir, uma bomba atômica, com hora e dia marcado pra arrebentar. Era questão de dias ou meses.
Meu
apartamento Kitnet, no Edifício JK, Belo Horizonte, MG, 1990.
Meu pensamento à cerca do mundo havia ficado maduro, mas minhas paixões adolescentes e minha revolta não. E naquele momento de 1990, eram elas que falavam mais alto.
Após sair do âmbito familiar, me mudando em 1987, para viver sozinho, precisa de mais ar e espaço para sobreviver. Tudo me sufocava: A vida familiar e seus afetos, a história do Brasil, o ambiente tóxico para a diversidade, enfim todo o contexto que ia da minha psicologia às instituições sociais, tudo enfim me sufocava. Só me restava fugir do país, procurar uma vida nova no exterior.
Antes de me mudar para a Itália em 1991, não satisfeito em ter abandonado o Mestrado, resolvi protocolar na FAFICH minha tese, onde me auto proclamava mestre.
Foi um documento em 7 páginas, onde destilava minhas desilusões em 5 anos de minha vida filosófica.
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Após protocolar, este documento na FAFICH-UFMG, em 1991, vendi tudo que tinha, fechei meu apartamento no Edifício JK , voltei para a casa de minha mãe e resolvi me mudar para a Itália em maio de 1991.
Passaporte, Belo Horizonte, dezembro, 1990.
Florença, encontro acidental com um amigo da FAFICH-UFMG, do Coral Ars Nova, que se apresentava na cidade, 1991.
A viagem para a Itália foi um fracasso, em grande parte, porque meu plano, era ficar, trabalhar como cabeleireiro, e ficar no país para sempre. Mas uma mega depressão, me fez voltar. Voltei, sem jamais ter voltado, porque o que tinha deixado para trás, não me interessa mais.
Só eu mesmo sabia que aquele Manuel de 1960 a 1990, não existia mais, ele tinha morrido. Uma revolução se operou na minha vida e psicologia, todo um mundo de opressões que havia trabalhado na psicanálise e na filosofia, tinha deixado enterrado no passado.
Ao final da década de 80 a desconstrução de minha vida tinha finalmente chegado ao fim. Sob certos aspectos, a MORTE foi o motor de tudo. Morte da Sociedade, morte da família, e também de minha morte.
O projeto existencialista cumpria sua missão. Vivendo todo tipo de angustias, eu abandonava a vida inautêntica, em direção à mim mesmo.
O preço de abandonar a vida inautêntica era a morte do dublê de vida que era eu. Eu morria, mas também renascia, embora de uma forma extremamente traumática.
REFERÊNCIAS
http://www.overmundo.com.br/overblog/bh-underground-1980s
http://estaticog1.globo.com/2014/04/03/guia-memoria-de-resistencia.pdf
https://repositorio.ufmg.br/bitstream/1843/VCSA-7WNDTB/1/machado__2007__muito_alem_do_arco__ris.pdf
Arquivo Nacional
Que República é essa?
PORTAL ESTUDOS DO BRASIL REPUBLICANO
BR.AN.RIO.TT.0.MCP.AVU.300 UD131 - Que República é essa?
http://querepublicaeessa.an.gov.br
http://querepublicaeessa.an.gov.br/images/surpresa/br_rjanrio_tt_0_mcp_avu_0300.pdf
https://www.grupodignidade.org.br/jornal-do-gay/
https://sistemas.cfm.org.br/normas/arquivos/pareceres/BR/1985/5_1985.pdf
https://www.scielo.br/j/rsp/a/rnPK5HhLVnFKvCJj5qN7R8n/?lang=pt#
https://memoriasdaditadura.org.br/lgbt/
https://velhidade.blogspot.com/2012/01/jambalaya-disco-club.html
https://embrazado.com.br/2021/05/05/a-cena-soul-de-bh-e-a-renovacao-da-cultura-black/
https://pt.wikipedia.org/wiki/Casamento_entre_pessoas_do_mesmo_sexo
https://www.vatican.va/archive/cathechism_po/index_new/p3s2cap2_2196-2557_po.html
https://brasilescola.uol.com.br/o-que-e/historia/o-que-e-corrupcao.htm
https://www.scielo.br/j/cpa/a/SHVG63XcvL7Tz4Rp3FDBNMB/
https://periodicos.ufmg.br/index.php/revistatrespontos/article/view/3349
https://web.facebook.com/peloscorredoresdenossacasa/?_rdc=1&_rdr
http://memorialdademocracia.com.br/card/greve-geral-mostra-fracasso-do-plano
https://sintsprevmg.org.br/2020/06/29/nota-de-pesar-pelo-falecimento-de-carmem-lucia-bomtempo/



















































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